Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA DE CARNAVAL

As musas enxutas da imprensa

Por Deonisio da Silva em 05/02/2008 na edição 471

As antigas musas eram nove deusas. Cada uma cuidava de uma coisa. Elas moravam no museu. Musa e museu têm o mesmo étimo. Camões invoca uma delas no canto III de Os Lusíadas: ‘Agora, tu Calíope, me ensina/ O que contou ao rei o ilustre Gama;/ Inspira imortal canto e voz divina/ Neste peito mortal, que tanto te ama’.


As musas brasileiras, invocadas pela mídia, que lhes dá destaques incompreensíveis no carnaval, também não são muitas. As mais famosas não chegam a nove e algumas delas já estão a caminho do museu, seguindo Luma de Oliveira, que as precedeu, em carnaval recente, tendo no pescoço uma coleira com o nome do marido, Eike, o empresário Eike Batista, de quem se divorciou um tempo depois.


Algumas já estão com o prazo de validade vencido, mas ainda insistem em aparecer, principalmente no carnaval. Semelhando o que houve entre a mídia e a princesa Diana, a mídia é informada antecipadamente do que as musas vão fazer. E lá estão os câmeras a postos para registrar acontecimentos cuja transcendentalidade nos escapa.


Fora das margens


Eis alguns exemplos, colhidos a esmo. A modelo Adriane Galisteu foi dar uma caminhada numa calçada do Rio. Os portais da internet deram isso como notícia na segunda-feira (4/2) pela manhã. À tarde, ela não era mais notícia.


Modelo, assim como mulata, tornou-se curinga. Quando não se sabe dizer o que uma pessoa faz, ela é modelo. Ou então é mulata.


Os repórteres anunciam mais ou menos assim as suas entrevistadas: ‘Vamos ouvir o que tem a dizer a atriz Fulana de Tal’. A seguir, a câmera fecha sobre uma parte do corpo da mulata, em geral o bumbum, e o repórter anuncia: ‘E agora vejam esta bela mulata que…’. Em geral, a entrevistada – digo, mostrada, porque a ela nada se pergunta e não lhe é dada a oportunidade de dizer nada – é passista de escola de samba.


A falta de leitura, combinada com o domínio insuficiente, já não digo da arte, mas da técnica de escrever, resultou num tipo de escrevente sem lastro cultural algum, vítima fácil de lugares-comuns, alguns dos quais se tornaram bordões imperativos nos portais da internet. Exemplos: ‘Vote na melhor escola! Veja a sua musa dando um show de sensualidade! Confira o tapa-sexo de apenas 4 cm da Fulana de Tal. Fotos das melhores agachadinhas no Rio e SP. Clique aqui’.


As musas e seu reboleios eram destaques que encobriam outras notícias, igualmente mal escritas, como esta, dando conta de que na tarde de domingo (3/2) o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais ainda procurava outros corpos de turistas que tinham sido levados por uma súbita enchente, assim noticiada: ‘Segundo testemunhas, uma tromba d´água fez com que o leito do rio subisse cerca de 7 m acima do nível normal’. Deve ter sido um ‘riomoto’ que, semelhando um maremoto ou terremoto, moveu, não as águas para fora das margens, mas o leito do rio, que se levantou, botando as águas para fora!


Depois do carnaval


O grande destaque, porém, na tela da Terra no entardecer de segunda-feira era a cantora Ivete Sangalo. Cantara bem? Desafinara? Não! Depois dos terríveis ‘veja’, ‘confira’, ‘clique’, ‘brinde’, ‘vote’, vinha a notícia: ‘Direto de Salvador: Ivete beija apresentador na boca. A cantora surpreendeu a todos nesta segunda-feira ao tascar um `beijo´ no apresentador da TV Bandeirantes, Guilherme Arruda’.


Surpreendeu a todos? A todos os que não a fotografaram na pose, que encenou diante das câmeras, depois de contar até três para avisar que faria o que fez: a simulação de um beijo, palavra posta entre aspas porque beijo não houve.


Quem não simulou, não encenou e deu um beijo sem as aspas foi o cantor Gilberto Gil, atual ministro da Cultura, que ganhou a primeira página do Estado de S.Paulo da segunda-feira com um beijo na boca do cantor Lulu Santos.


E o resto? O resto ficou por conta dos cartões corporativos, que devem voltar à mídia depois do carnaval. Afinal, desta vez o estrago começou com nada menos do que a demissão de uma ministra.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

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