Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > OBAMA LÁ

As palavras, a criticidade e a responsabilidade

Por Afonso Caramano em 27/01/2009 na edição 522

Desde o momento histórico da eleição de Barack H. Obama, a política como a arte de pensar as mudanças e de criar as condições para torná-las efetivas [Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, SANTOS, Milton, 16ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2008] parece ter se redefinido, voltando a adquirir a relevância devida diante da primazia e hegemonização da técnica – de certo modo, o imperativo será sempre político.

A percepção de uma situação crítica e a passagem dessa percepção para uma visão crítica é tão importante quanto o entendimento da história como situação e processo críticos – mas também se faz necessário alcançar uma tomada de consciência para vivenciar a própria existência de forma unitária e verdadeira, o que não deixa de representar um paradoxo, na obediência para subsistir e na resistência para poder pensar o futuro (idem, 2008).

Isso certamente não significa abrir mão dos meios técnicos – comprova-o a bem-sucedida campanha de Barack Obama no uso da internet, bem como suas primeiras medidas no sentido de dar transparência ao seu governo, que terá muitos e duros desafios pela frente. Daí, a importância da permanente visão crítica diante de todos os problemas e da reconfiguração que se pretenda dar aos acontecimentos para que se possa realmente construir um futuro mais promissor, sem desprezar valores que estavam perdidos ou esquecidos.

O instrumento para o discurso

Esse parece também ser o desafio que a mídia tem de enfrentar, desde já – e não será uma tarefa fácil, por todas as razões possíveis, mas principalmente as de interesse financeiro. Deverá repensar o seu próprio espaço, na configuração de um novo paradigma, mesmo que isso soe utópico, sob pena de perder o entendimento crítico de mudanças históricas possíveis. Não mais deve servir à reprodução de um discurso único, numa intermediação deformante da realidade, que será cada vez mais complexa.

Decerto que o jogo do poder e a realidade representada pelas forças do capital (transnacional) continuarão a exercer sua pressão para a obediência aos modelos atuais, e isso em todo o mundo, mas a eleição de Barack Obama (e oxalá seu governo confirme, ainda que se tenha plena consciência que irá defender primordialmente os interesses norte-americanos) representa justamente a possibilidade de se recuperar esse poder de resistência, recolocando o homem não só como usuário das técnicas e beneficiário delas, mas como ator político num mundo de valores reabilitados, de mais solidariedade e justiça, capaz de mudanças e de uma vivência mais enriquecedora. Será isso possível?

Talvez, mas a verdade é que a palavra parece ter readquirido sua relevância – declamou-se um poema na posse de Obama – e é pela palavra que se engendram os sonhos, se estabelecem relações verdadeiras, se acorda a esperança, se faz política (e a conseqüente ação, é claro). E é a palavra o instrumento para o discurso, o material fundamental da mídia, dos meios de comunicação. Daí a necessidade e importância de se usá-la sempre com criticidade e responsabilidade.

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Funcionário público, Jaú, SP

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