Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > FUTEBOL & CAPITAL

As pérolas do rei do futebol

Por Thiago Corrêa Silva em 15/03/2011 na edição 633

As declarações de Pelé, o maior atleta do século 20, sempre ganham uma grande repercussão na imprensa esportiva, desde o mais simples comentário até a mais ‘profunda’ análise. A história de Pelé com imprensa já vem de longa data. Em 1969, após a marcação do milésimo gol, dedicado às crianças carentes, outras declarações polêmicas foram surgindo ao longo dos anos e sempre através de comentários como ‘o povo não sabe votar’, durante o regime militar, profetizando resultados como a final da Copa de 1998, ou dizendo quando os atletas devem se aposentar. Alguns não deixaram por menos, como o ex- jogador Romário, que disse: ‘Pelé com a boca fechada é um poeta.’

Como não poderia deixar de ser, o maior jogador de futebol de todos os tempos teve a sua opinião publicada sobre a disputa entre os clubes Palmeiras, Grêmio e Flamengo acerca da contratação do jogador Ronaldinho Gaúcho. Como na época em que brilhava nos campos, Pelé bateu de primeira e disparou o seguinte comentário. ‘Se ele realmente ama o Grêmio, como ele diz, pode jogar de graça lá. Está com a vida feita, não é mesmo? É a minha opinião. Quando eu jogava no Santos, em 1974, havia dificuldade financeira e eu abri mão do salário.’

O último comentário do rei do futebol a respeito desse tema foi seguinte: ‘Os atletas não deveriam nunca se esquecer de jogar por amor ao time e ao futebol. Os jogadores amam quem paga um pouco mais. Às vezes, eu os provoco dizendo que hoje eles ganham em um ano o que eu ganhei em dez.’ Será que esse é o mesmo Pelé que se recusou a jogar em 1974, pois exigiu um ‘bicho’ maior que o dos outros jogadores e que tempos depois, em uma entrevista coletiva, afirmou não ter jogado devido às atrocidades acontecidas no período da ditadura militar, sendo que o mesmo era garoto-propaganda da Embratel, até então empresa estatal constituída no mesmo período?

Vida e imagem

Já se foi o tempo em que o futebol era uma mera brincadeira de criança e o sonho de todo menino era apenas enganar o adversário com dribles desconcertantes. A partir de 1958, o futebol se torna profissional, o país ganha projeção internacional. Além de Pelé e Garrincha, uma dinastia de craques encantou o mundo através das décadas. Em 1970, Gérson, Rivelino, Tostão, Paulo César ‘Caju’ assombraram o mundo. Mais tarde, a tão famosa seleção brasileira de 1982, com Zico, Sócrates, Júnior, Falcão e Leandro encantou a todos com futebol-arte. Já na década de 90, o cenário foi comandado por Romário e Bebeto, que levaram o Brasil ao tetracampeonato mundial e, no ano de 2002, craques como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo nos elevaram ao status de pentacampeões mundiais. Na atualidade Neymar, Ganso, Lucas e Phillipe Coutinho são as garantias de um futebol bem jogado, de alto nível, como costumam dizer os especialistas.

Ao longo dos anos, a CBF vem acumulando cifras astronômicas vindas de patrocínios, amistosos internacionais, direitos de transmissão de jogos e campeonatos. O próprio Pelé, após 1974, ano em que jogou no Santos de graça, encerrou a carreira para jogar no Cosmos, de Nova York. Será que ele fez filantropia por lá? O discurso do rei se torna anacrônico. O futebol de hoje não é mais o futebol de ontem. Com a chegada da globalização, o velho e violento esporte bretão se torna uma esperança para que milhares de famílias deixem a linha da pobreza e assim a tão sonhada ascensão social.

Pelé usa de argumentos antiquados para defender uma causa romântica que não cabe mais no futebol de hoje, que faz parte da indústria de entretenimento que ele mesmo ajudou a construir, principalmente com a Lei Pelé, que acaba com o monopólio e a escravidão dos clubes sobre os jogadores, dando-lhes liberdade de ir para onde desejarem, ou melhor, para onde pagam mais. As grandes estrelas do espetáculo são os jogadores. Não há problema algum que se mude de clube ou que se almeje apenas a grana, pois hoje a palavra de ordem é o profissionalismo e o importante é o atleta honrar a camisa do clube que defende naquele momento. Aliás, o próprio vive até hoje da imagem ligada ao futebol.

Tão importante quanto jogar bola

Ninguém vê o ex-jogador dizer que vai deixar ao Santos uma parte da fortuna adquirida ao longo dos anos, tendo em vista que sua imagem é até hoje ligada ao clube que sempre defendeu. A relação se torna retroalimentar à medida em que ambos ganharam com essa parceria que durou quase duas décadas.

Cabe a nós questionarmos o que será feito com os jovens craques que muitas vezes não vemos jogar em nossos campos. Tudo que é tocado pelo capitalismo, pela globalização e pelo marketing se transforma em mercadoria. Já que o processo é irreversível, cabe a nós nos prepararmos, nos organizarmos, nos estruturarmos internamente para podermos fortalecer a nossa liga e os nossos clubes, valorizando assim o nosso patrimônio, que são os jogadores e a torcida. Devemos mostrar aos nossos garotos que o futebol não é a única saída; estudar é tão importante quanto jogar bola. Deixemos de lado o juízo de valor, a crítica que não gera a reflexão e vamos debater qual é o efeito dessas práticas mercantilistas sobre a sociedade e sobre o futebol e que acabam distanciando o povo do espetáculo.

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Técnico de informática, Rio de Janeiro, RJ

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