Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > PITONISAS DA TV

As previsões dos astros para 2006

Por Urariano Mota em 02/01/2006 na edição 362

Desconfiamos que os astros e suas previsões são lidos até mesmo por quem deles sorri. Deve existir uma atração, sabemos lá se magnética, metálica ou metafísica por essas predições feitas por qualquer charlatão com uma cara confiável. Que dizemos, cara?!, isto nem é preciso. Somos atraídos para o zodíaco até mesmo aqueles que lemos as colunas astrológicas com ar chocarreiro, brincalhão, zombeteiro – com qualquer adjetivo que denote um ar superior e sábio. Sobre nós esses anúncios têm uma atração semelhante à última prédica sobre sexo do Papa Leão 16, porque nos deixam ambos, sempre, entre a esperança e o desencanto. Com Leão… perdoem-nos o ato falho, pois queremos dizer, com Bento 16, sempre nos desencantamos com a nossa espécie, que até hoje não recebeu a graça de fazer essa coisa desinteressante, o sexo, com a pura dureza do heroísmo. Com as previsões, os leitores sábios ainda não ganharam um santo dia para saltar uma previsão do próprio signo. Eles, os descrentes, não procuram os anúncios dos astros, mas se eles estiverem em seu caminho… ‘Vamos ver o que dizem esses estúpidos’, dizem-se, e passam os incrédulos olhos pelo signo.

O despropósito dessa introdução vem a propósito de uma passagem, passageira e desnorteada, pela sala no último 30 de dezembro de 2005. Eu me perguntava até então, na manhã de sexta-feira: o que fazer, o que escrever para o primeiro de janeiro? Eis que pus os olhos na televisão, na tela da TV Globo, no programa de Ana Maria Braga. E não de imediato, mas pelo que até hoje fez um eco, desceram sobre o espírito as previsões astrológicas para o ano da graça de 2006. Pelo que pude observar, todos na sala prestavam atenção, em respeitoso e mudo silêncio, aos anúncios e prenúncios da antevisão deste nunca visto ano que se inicia. Todos. ‘Se todos prestam atenção’, o cético se disse, ‘alguma razão devem ter’, concluiu. E viu.

Apresentou-se um cidadão gordo, vidente e tarólogo, de nome João Rosa. Dizemo-lo gordo, pero melhor faríamos se o chamássemos de homem em paz com as suas carnes. Tão sereno e manso falava que se lhe cortassem as previsões, dele poderia ser dito que é músico, porque, como os músicos, é mui tranqüilo. O fato é que ele, cauteloso, tocou o instrumento do baralho grande, as 78 cartas do seu tarô. E pausado disse:

‘Lula: o presidente está em baixa. Ele poderá passar por um início de cassação de seu mandato, que não vai dar em nada. O presidente segue, continua, porque 2006 é um ano político. Não terão coragem de tirar o Lula porque os muitos escândalos podem prejudicar outras pessoas. É como mexer num enxame de abelhas.

Ministérios: alguns ministérios serão mexidos novamente. Apesar de o Palocci estar com problemas, ele tem cadeira cativa. Os governos estaduais receberão verbas para realizar grandes projetos que estavam engavetados. Uma atriz será convidada para um ministério.

Destaques para o Brasil em 2006: o Brasil estará em alta, nos campos da tecnologia e agricultura. A cultura estará em evidência, com premiações para o cinema, música e teatro. O lucro com o turismo também vai aumentar, superando os últimos 5 anos.

Economia: as multinacionais do Brasil vão passar por um processo de renovação. Haverá demissões e reestruturações. A economia estará instável por causa do ano político. Só volta ao normal em 2 anos.

Copa: o Brasil deve ganhar a Copa de 2006. Mas, num campo onde existe disputa pelo poder e ganância, o destino do Brasil na Copa pode mudar.

Clima no Brasil: muitas chuvas no sul. Destaque para a seca do nordeste. O Brasil deverá reverter verbas para a irrigação o mais rápido possível, para ter boa terra para o plantio. Tornados nas regiões sul, sudeste e oeste do Brasil, fracos’.

Frieza estática

O leitor já vê que o suave tarólogo não errará uma só previsão. Porque vejam: o Brasil, maneira com que nos referimos à seleção brasileira de futebol, poderá ganhar a Copa do Mundo em 2006. Ou perdê-la. Muitas chuvas no Sul, e que não nos contrarie o Nordeste, porque uma vez mais receberá a visita da seca. Haverá demissões nas multinacionais, e nas nacionais também, por supuesto. A cultura, o show business, ele quer dizer, estará em alta. E com prêmios. Alguns ministérios, como ovos, serão mexidos. Sem mistério. E Lula, bem, o presidente está em baixa, e sofrerá arremetidas da oposição, que não o derrubará. O vidente poderia ainda dizer, se o leitor permite uma suave encarnação destas linhas no corpo do tarólogo:

** Bush – Crescente impopularidade em todo o mundo. Até mesmo nos Estados Unidos.

** Espanha – melhor pátria para os jogadores brasileiros, se não jogam no Real Madrid.

** Bolívia, Chile – governos de esquerda em 2006.

** Gisele Bündchen – depois de um surfista, amará um fotógrafo, um mágico e um cirurgião plástico, por ordem de necessidade. Pero a todos dirá que não sabe o que é o amor.

Isto quer apenas dizer que na previsão de um vidente a primeira coisa a prever é a reputação do previdente. Acertar o que é certo, sempre. Por isso, ainda de passagem pela sala, mas de uma passagem que em um discreto lugar se imobiliza, abrimos bem os olhos e as ouças para a sensível sensitiva seguinte.

Apresentou-se a psicóloga, junguiana (alguém ainda precisa explicar os precisos fios que ligam Jung à loucura), vidente e astróloga Lydia Vainer. E disse logo a que veio, sem respeito à doce mansidão do tarólogo:

‘O ano de 2006 é regido por Saturno, o deus do tempo e que rege as coisas da matéria, da terra. Por causa dele, já se pode prever um ano com aumento de terremotos e problemas como seca e estiagem que atinjam a agricultura’.

A imagem da televisão foi clara: Ana Maria Braga estava encolhida, como se estivesse com frio, no sofá do estúdio. O som na sala da minha casa também era nítido: ouvíamos o respirar dos nossos narizes. Sim, depois de terremotos, maremotos, furacões, que mais poderemos esperar em 2006? A discípula de Jung, em frente a mapas astrais, não renegou o mestre:

‘Mundo: os conflitos sociais que aconteceram nos últimos meses na França podem se estender para outros países.

Brasil: A economia brasileira se mantém estável, ainda devagar. Só começa a crescer mesmo em 2007, depois de mudanças na conduta econômica. Essas mudanças podem representar também uma mudança de governo.

É difícil prever quem ganha a eleição porque não se sabe quem serão os candidatos para estudar o mapa astral deles. O certo é que a oposição se fortalece no próximo ano e cria oportunidades de vencer’.

E aqui, a esta altura, podemos fazer o que não era possível às oito e meia da manhã de sexta-feira (30/12): quebrar o silêncio e interromper a pitonisa. Porque vejam, da extensão óbvia dos conflitos sociais no mundo, diríamos até, do seu agravamento, que os mapas dos astros na sua frieza estática não anunciam, a senhora astróloga vem para o Brasil com previsões um pouco mais afoitas. Ela aqui faz a previsão que é fruto do prever para o momento imediato a seguir. Algo assim como a um golpe potente desferido em um homem, e a inclinação que o seu corpo toma, o anúncio para todos na frase ‘ele cairá’. E cai, e por isso comemora-se o acerto, do golpe e queda. Vejam, a pitonisa profetiza o porvir que é a foto vizinha desta que ora vemos. Queremos dizer, se não temos dados, outros dados, se não temos informações mais profundas do real, ah, que vejamos o futuro pelo vôo e pelas fezes das aves, que em alguma coisa, ainda que nos sujemos de merda, nos agarramos.

O que mudou?

Queremos apenas dizer: o futuro, em vez de ser uma força construída antes até deste momento, o futuro, em vez de ser um projeto que construímos, antes, agora e a seguir, passa a ser apenas a força das presentes e visíveis circunstâncias. Em termos gerais isto significa que o futuro nas previsões astrológicas é o futuro das previsões astrológicas: uma visão ignorante da realidade. Em termos mais concretos, isto significa que essas previsões políticas para 2006 têm o seu apoio no clima das CPIs, do vozerio e barulho estúpido no Congresso Nacional, da sua repercussão na mídia, que pretende ser a opinião pública. E que contaminam, isto é o Brasil de 2005, até mesmo as previsões astrológicas! Anunciem, por favor, a chamada de primeira página, com todos os titulares: ‘Bomba, Bomba! No Brasil, a política invadiu o mapa astral’. E aos gritos, nas rádios e televisões: ‘Saturno, urgente: Serra presidente’.

Não é à toa que ela, a pitonisa, prevê que a economia começará a crescer somente em 2007 ‘depois de mudanças na conduta econômica’, e olvidemos esse terrível ‘conduta’, digna de uma delegacia de repressão aos maus costumes da língua e da expressão, porque, está claro, e isto é o que ela pretende dizer, esses câmbios somente ocorrerão com um novo governo. Subliminar, meu caro Watson.

Agora, se permitem um pouco mais de informação, nunca será demais lembrar que a mesma astróloga, com mais dois companheiros de previsões, publicou o livro O Governo Lula e os astros. Bueno, isto foi no começo deste governo, depois da retumbante vitória nas urnas. As resenhas e referências críticas ao livro, que veio ao mundo sob os astros da lua-de-mel de Lula com a opinião pública, quando tudo era otimismo e esperança, diziam:

‘Este é um livro que reúne informações no mínimo curiosas sobre o atual momento político brasileiro, e já aposta na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo Lula e os astros traz previsões para cada ano, até o final deste mandato e, por fim, aponta o caminho para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006′.

O que mudou? Os astros de 2003, no caminho para 2006 em suas previsíveis rotas elípticas, sofreram uma transformação a ponto de derrubar as leis de Kepler? Ou mais precisamente, mudou o presente imediato, que não permite mais prever o futuro como antes?

Bueno, bueno. Voltemos ao bom velho horóscopo, não contaminado pelo momento político. Nele podemos ver que para este 2006, para este concreto, agora, teremos ‘realização pessoal, qualidade de vida e de relação afetiva, e mais liberdade para viver o prazer’. Com o coração aberto acatamos e celebramos esses votos. Só não sabemos por que ainda há gente que não acredita em mapas tão sensatos e valorosos.

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Jornalista e escritor

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