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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > BUSH PARA A POSTERIDADE

As sapatadas do jornalista iraquiano

Por Fernando Massote em 16/12/2008 na edição 516

George W. Bush disputa um lugar de destaque na história mundial. Não vai ficar contrariado. Será um dos símbolos mais representativos da derrocada moral, política e militar do império americano, o mais sangrento, sem dúvida, da história da humanidade. Ele acaba de conquistar, a poucas semanas do final do seu repudiado mandato, mais pontos para sua vitoriosa corrida para esta posteridade execrada. Foi no Iraque, uma das numerosas tumbas do Império USA, que Bush exibiu o ser sinistro que é. Aparecendo de surpresa em Bagdá, por óbvias razões de segurança, ele lá foi para se despedir do exército ainda sob seu comando.


Nem no menor, mais restrito e vigiado recinto daquele país ocupado e despedaçado, amordaçado e trucidado pela agressão imperialista, o gabinete do premier fantoche Al-Maliki, os serviços de segurança americano e iraquiano conseguiram proteger Bush. Foi aquele o espaço que restou para o jornalista Mountazer AL-Zadi, do canal sunita e antiamericano Al Bagdadia, demonstrar sua ira santa contra o algoz do seu povo.


O encontro chegava ao seu auge, com os dois políticos apertando as mãos sob as luzes dos spots da imprensa, quando o jornalista, para surpresa de todos, se levantou e, jogando os dois sapatos contra Bush, em sinal de desprezo, gritou: ‘É o beijo de despedida, seu cachorro!’. O gesto é considerado, no país, como uma ofensa muito grave.


Zelo e esmero


Retirado do local pelos policiais do Iraque e dos Estados Unidos, o jornalista gritava, na direção de Bush, comunicando o sentido do seu gesto: ‘Você é responsável pela morte de milhares de iraquianos’.


Mesmo cercado, por todos os cantos e recantos, pelos seguranças que o protegem dia e noite, Bush teve, certamente, um dos maiores e indeléveis sustos da sua carreira. Recompondo-se com dificuldade do ultraje tão surpreendente, ele respondeu, acabrunhado: ‘E aí? O homem jogou os sapatos em mim!’. E desconversou: ‘É uma maneira de chamar a atenção’. Ele podia, no entanto, aplacar o seu ânimo ofendido. Sabia que os seus serviços de segurança estavam ali, bem adestrados, para vingá-lo…


E foi mesmo o que parecem ter feito. As agências de comunicação distribuíram a notícia com esta linha final muito sinistra: ‘Restos de sangue eram visíveis, depois, no local onde o homem foi apanhado pelos agentes de segurança’.


Os nossos votos são para que os organismos de direitos humanos se ocupem do caso e procurem saber o destino do corajoso jornalista. A moral da história? Ora, se nem naquele espaço tão restrito e protegido do Iraque há segurança para Bush, como é que o exército norte-americano ainda pensa poder reverter o quadro catastrófico que lembra permanentemente o Vietnam e chegar, ainda, ‘até a vitória final’ da democracia… norte-americana?


O caso incomodou certamente – e muito – as forças que querem uma saída honrosa para a guerra do Iraque. O gesto do jornalista marcou toda a viagem de Bush ao Iraque e ao Afeganistão, atingindo, sem dúvida, até o gradualismo da retirada articulada por Barack Obama. É este o contexto que explica a reação da grande imprensa mundial, que começou logo, em cima do fato, a trabalhar para defender Bush com mais zelo e esmero do que a sua própria segurança, operando em parceria com a do governo iraquiano.


Sapatos e canhões


Os telejornais se apressaram em propalar logo que ‘o agressor de Bush’ teria sido pago para realizar aquele gesto espetacular. Não conseguiram, no entanto, apagar, no comunicado das agências, a nota que dá conta dos sinais de sangue que cobriam o local onde Mountazer AL-Zadi foi apanhado – e de onde foi levado para interrogatórios e análise do seu estado de saúde que poderia estar abalado pela droga.


Que balbúrdia , quanta contradição! Afinal, qual foi a verdadeira causa: o patriotismo, como querem as ruas que exigem a libertação do jornalista; a corrupção, de quem teria comprado o seu gesto; ou a droga? O que parece ser mais verdadeiro é que os sapatos do jornalista pesam mais que todos os canhões de Bush e seus fantoches.


 


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Jornalista enfurecido atira sapatos em Bush — Monitor da Imprensa

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Cientista político, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, autor de A história pela metade, cenários de política contemporânea, Editora da Universidade Federal de Viçosa, 2008

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/12/2008 gisele lemper

    pena que não acertou. ei, alguém tem o link do vídeo, aí? grata.

  2. Comentou em 19/12/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Tá bom, Bandarra, agora você respondeu: Bush não matou ninguém. Vou botar o mais de um milhão de iraquianos mortos nesta ‘guerra’ na conta de Putin. Qauntos morreram no Afeganistão? Você sabe? Vou botar na conta de Fidel. Os mais de seis mil soldados americanos mortos nessas duas ‘guerras’, vão para a conta de Hugo Chávez. Mutilado vale, ou só vale morto? Pelo menos os mutilados eu posso botar na conta do…do…do que foi mesmo que Mountazer AL-Zadi chamou Bush? Ah, chamou de cachorro. Então? Posso botar os soldados americanos mutilados na conta do cachorro, digo, do Bush?

  3. Comentou em 18/12/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Felipe Fonseca, mentiroso é você. Leia seu texto. Eis o que você disse: “O fato é o seguinte: sob o regime de Saddam Hussein, que foi derrubado pelos EUA de Bush, o tal ‘jornalista’ não poderia jogar sapatos em autoridades sem pagar com a própria vida. Graças à guerra do Iraque, o regime de Saddam se foi, e o sujeito pôde enfim dar suas sapatadas.” Taí. Não adianta mentir. Está registrado. Como registrado está “o bem” que você diz que Bush levou ao Iraque: “Graças à guerra do Iraque, o regime de Saddam se foi, e o sujeito pôde enfim dar suas sapatadas.” Isso realmente é um bem? Só não entendo como o jornalista Mountazer AL-Zadi pôde ser tão ingrato: jogar sapatos no homem que tanto bem fez ao Iraque. E por falar nisso: há uma guerra, no Iraque? Ou há um massacre? Quanto á questão da verdade: eu não defendi aqui nenhum dos meus “ídolos” marxistas. Nem você falou neles. Você falou da “massa ignara”, dos “militantes” que vitimam a verdade, em comentários aqui no OI. E que essa massa ignara diz que a verdade é coisa de “reacionário, burguês, capitalista, expoliador, etc.”. A massa teria mesmo que ser muito ignara, para atribuir a virtude da verdade aos reacionários, burgueses, capitalistas e espoliadores.

  4. Comentou em 18/12/2008 José de Souza Castro

    Peço perdão, caro Rogério Ferraz Alencar. Me expressei mal. Não acho que Lula seja ditador, de modo algum, embora o excesso de medidas provisórias editadas por seu governo tenha um travo ditatorial, pois acabam atropelando o poder legislador da Câmara e do Senado (embora, na verdade, deputados e senadores não estejam muito preocupados com isso. Estão mais interessados em manter os próprios privilégios do que em propor leis que de fato contribuam para a melhoria das condições da maioria dos brasileiros. Essa criação de novos vereadores é um exemplo disso. Felizmente, a Câmara dos Deputados barrou o projeto de lei aprovado na calada da madrugada pelos senadores. Vamos ver até quando eles vão resistir à pressão. Só para lembrar aos que acham que na ditadura militar apoiada pela direita era melhor: foi Geisel quem estendeu aos vereadores dos outros municípios o pagamento que era feito apenas aos das capitais. Só para relembrar, durante toda a ditadura que se seguiu ao golpe de 1964, o Congresso funcionou ‘normalmente’, pois havia interesse em fazer de conta que vivíamos numa democracia. Lula, quando líder sindical e político do PT na oposição, foi um crítico dessa situação. Ao contrário de FHC, que pediu na presidência que esquecessem tudo o que ele escrevera antes, Lula nunca quis o esquecimento. Da minha parte, prometo nunca esquecer o que ele dizia naquela época…

  5. Comentou em 17/12/2008 José de Souza Castro

    Caro Dr. Paulo Bandarra. As informações transcritas aqui estão na Folha de S. Paulo de hoje (falha minha, não ter dito isso). Acho legítimas todas as manifestações públicas contra atos injustos e autoritários, sejam eles praticados por governos de direita, de esquerda ou de centro, por ditaduras ou democracias. Como jornalista, procurei sempre me manifestar escrevendo (sou ruim de oratória), e não acho que jogaria sapatos contra um entrevistado, fosse ele Bush, Saddam Hussein ou Lula. Mas achei divertidos o ato do colega iraquiano e a cara de bobos dos seguranças de Bush. E apreciei a ironia do agressor ser preso por causa de uma lei feita para proteger Saddam. Uma lei que nem protegeu o ditador iraquiano – que acabou na forca – e muito menos o presidente Bush, que não consegue driblar o ridículo em que se meteu indo visitar às escondidas o ladrão de Bagdá.

  6. Comentou em 16/12/2008 Marco Antônio Leite

    Senhor Bandarra, diga-me onde existem direitos humanos. No Brasil direitos humanos existem somente para meia dúzia de espertalhões, para a grande massa atrasada o que vigora é a ditadura civil dos banqueiros, empresários, imprensa burguesa e agregados. Você esta equivocado, o maior matador da face da terra é o Bush, somente no Iraque seu exército já matou um milhão e 200 mil pessoas inocentes. Na África ele também matou milhões de habitantes daquele Continente, não foi de bala, mas de inanição, bem como, em outros Continentes. Esqueça a esquerda e, fale um pouco da direita nacional? Saddan matou menos nessa disputa de insanos e assassinos!

  7. Comentou em 16/12/2008 Marco Antônio Leite

    O aniquilador Bush foi premiado no final de sua ‘brilhante’ carreira política com duas sapatadas e um xingamento que nem cachorro merece. Mas isso foi pouco para um monstro e larapio de territórios alheios, ele merecia na cara um penico cheio de fezes e urina, acompanhado de muitos puxões de orelhas, a fim de ficar com longos pavilhões auriculares iguais de burro. Esse esta sendo o fim mais melancólico que um presidente da República já teve, bem como sua história será enviada para a lata de LIXO mais fétido que possa existir.

  8. Comentou em 16/12/2008 Lucas Artur

    Se foi armado eu não sei, mais que milhões de pessoas lamentaram o fato de o sapato não acertado em cheio a lata do bush, não da pra negar.
    Seria o sepultamento perfeito ou quase perfeito para a carreira de um politico que tanto mal fez ao mundo nos ultimos 8 anos.

  9. Comentou em 16/12/2008 Lucas Artur

    Se foi armado eu não sei, mais que milhões de pessoas lamentaram o fato de o sapato não acertado em cheio a lata do bush, não da pra negar.
    Seria o sepultamento perfeito ou quase perfeito para a carreira de um politico que tanto mal fez ao mundo nos ultimos 8 anos.

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