Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > RECORD NEWS

As diferentes repúblicas de um só país

Por Jair Alves em 27/05/2008 na edição 487

É atribuída a frase ‘O Brasil não é um país sério’ ao general De Gaulle, quando ele aqui esteve na década de 60. Verdadeira ou não a autoria do escárnio, é possível afirmar mais uma vez que todo humorista tem lá o seu lado que deve ser levado a sério. Quanto a isso, peço que prestem atenção no maior deles, sem dúvida – Bussunda. O querido Bu acrescentava, ao final de suas falas, a expressão ‘Fala Sério’, ou seja, pára de falar bobagens, meu!

Nesta sexta-feira (16/5), a Record News, no programa Brasília ao Vivo, revelou as provas que até então nos pareciam evidências. Um grande cambalacho se desenvolve debaixo de nosso nariz; pior, ao lado do Palácio da Alvorada, muito próximo à Granja do Torto. Pior ainda, alguém pede que esse humilde dramaturgo, que profissionalmente foi obrigado a ler todo tipo de porcaria de enredo teatral, meio às obras-primas da dramaturgia universal, colabore ou aceite calado esse embuste. Não vou fazer isso. Vou esbravejar, como faria Bussunda, dizendo ‘Fala Sério!’

A duração do porre

O tema deste texto é o ministro do futuro – Mangabeira Unger, ‘convidado’ e empossado, em meio a protestos, como um alto funcionário do atual governo. Alguém está sacaneando este caboclo que aqui escreve estas mal traçadas linhas. Não é possível que isso seja verdade. Vamos por partes:

Brasília ao vivo é um programa de entrevistas, com duração de 30 minutos, no qual o repórter conversa com políticos que atuam na capital federal. A produção toma o cuidado de alternar deputados, senadores, ministros e agentes do governo, com membros da oposição. Nem sempre é possível assistir a todos, uma vez que alguns deles transformam a entrevista num verdadeiro palanque, porém, como resultado final, o saldo é positivo.

Mangabeira Unger parece ter saído de um daqueles filmes de Mel Brooks, onde você sempre espera a hora em que o vilão vá ser detonado pelo magistral cineasta e ator. Nas obras do autor de O Jovem Frankenstein, você tem certeza de que a vida também pode ser divertida. No caso de Mangabeira Unger, não. A impressão que se tem é de que o mundo virou de cabeça para baixo. Ele (o ministro do Futuro) não existe, no entanto você sabe que ele está ali e pode significar uma ameaça. Tudo depende da duração do porre que colocou essa ficção ali num alto posto do governo federal.

Uma alternativa ‘viável’

O que pensa o ministro do Futuro? Ele pensa que está podendo! Fala de um Brasil que não existe. No entanto, para nossa desgraça, ele (Mangabeira Unger) existe. Eu tenho mais peças encenadas no Brasil do que ele tem de anos vividos no país. Este personagem que, com certeza, Mel Brooks não imaginaria, defende o serviço militar obrigatório e fala de uma classe média que ele vai inventar. Segundo suas palavras (ou seria rosnado?), essa classe média existente é decadente, sem futuro. Fala, também, de um motor social que não é a classe trabalhadora, a mesma que organizou o partido majoritário do atual governo, muito menos a legião de empresários inescrupulosos que sonha a República dos Carecas. Mangabeira Unger fala de uma classe média militarizada, subvencionada pelo Estado. Fala sério, companheiro Luis?

Onde ele quer chegar? Com certeza, à Presidência da República. Deixou isso claro em entrevista em 2005, quando disse: ‘Eu, abertamente, postulo a candidatura à Presidência da República, pelo meu partido, o PDT (Partido Democrático Trabalhista), porque estou determinado a lutar por uma alternativa que creio viável. Porque me sinto capaz, não só de representar essa alternativa diante de meus concidadãos, mas de executá-la, com a ajuda de muitos dos senhores, quadros do partido.’

Na pele de Bussunda

Ele pode ter mudado de partido e de opinião a respeito do atual presidente (por conta de sua nomeação), mas com certeza não mudou de objetivo – pretende, sim, conduzir o meu futuro e o de toda a torcida do Corinthians. Mas, como já dizia Lélia Abramo, ‘não passará’. Deixa estar, a qualquer momento eu vou acordar e descobrir que tudo isso não passou de um pesadelo. E que o dito cujo, ministro do Futuro, não passa de um maluco que fugiu de um hospício. O atual presidente do Brasil, ufanista e muito feliz neste final de semana com a vitória de seu glorioso Timão, massacrando o temido CRB (da República de Alagoas), resolveu não contrariar e achou melhor chamá-lo para o seu lado, do que ter esse embuste na oposição. O que não dá para agüentar é o seu ridículo sotaque de morador de Arlington ou de Cristal City.

Que não se enganem os partidários da República dos Carecas. Ele é tanto ou mais perigoso do que o mais notável representante da República de Alagoas, com a diferença de que aquele (hoje senador) fala alemão, mas não é alemão. Unger é alemão. Apesar de seu pai ter sido naturalizado cidadão norte-americano, esse é um perfeito representante da República de Weimar.

Tem horas que prefiro o atual presidente, na pele de Bussunda. Parece-me mais sério. Fala sério, Luis!

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Dramaturgo, SP

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