Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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FEITOS & DESFEITAS >

As relações simbólicas com o MST

Por Isabela Vargas em 08/09/2009 na edição 554

O confronto entre a Polícia Militar do Rio Grande do Sul e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) resultou na morte do agricultor Elton Brum da Silva. O sem-terra foi baleado durante a desocupação da Fazenda Southall, em São Gabriel, no dia 21 de agosto. A notícia foi destaque na mídia nacional, que colocou o fato na agenda do dia. As circunstâncias da morte ainda não foram esclarecidas. O MST divulgou fotos que reforçam a tese de que Elton foi atingido pelas costas.

Apesar da brutalidade do crime, a revista Veja não destacou o assunto em sua capa. Duas semanas depois, o MST conseguiu ocupar a capa da revista. O boné vermelho, símbolo da identidade dos sem-terra, recheado com dólares e reais, trazia a denúncia: o MST ‘desvia dinheiro público e verbas estrangeiras para cometer seus crimes’.

O episódio mais recente do conflito MST x Veja apenas evidencia a relação tensa do movimento com a imprensa. Não é por acaso que existe uma cartilha orientando os militantes sobre como posicionar-se em relação à revista. Além desse material, a assessoria de imprensa tem estratégias que orientam o trabalho junto à grande mídia. Para o MST, a guerra é declarada: ‘Não existem jornalistas trabalhando na grande imprensa que sejam amigos do MST’, por isso a recomendação é ‘nunca baixar a guarda’.

O jornalista como mediador

Será que as orientações contidas no documento ‘Linhas Políticas para a Assessoria de Imprensa do MST’ são exageradas? O trabalho de agendamento feito pela mídia, em especial na revista Veja, mostra que a preocupação é pertinente. A reportagem-denúncia sobre as contas do MST revela as prioridades definidas pela mídia em sua cobertura jornalística e que influenciam a opinião pública (McCOMBS E SHAW, 1993 apud TRAQUINA, 2000, p.132).

Na perspectiva da Teoria do Agendamento, a cobertura jornalística de um movimento social (idem), por exemplo, pode selecionar entre um conjunto de estratégias de enquadramento aquelas que bem entender. As notícias podem falar dos problemas sociais, criticar propostas alternativas para lidar com estes e concentrar-se nos esforços de militantes e governantes para resolver a questão. É possível inferir que sejam quais forem os atributos de um tema apresentado na agenda jornalística, suas conseqüências para o comportamento da audiência devem ser levadas em consideração.

A construção de novas atualidades e realidades exige que o jornalista esteja atento a reivindicações da sociedade. Hoje, os jornalistas exercem um novo papel, o de mediador entre os anseios da sociedade civil organizada e os problemas atuais. Para cumprir esta tarefa de mediação, o jornalista precisa tomar decisões e fazer escolhas. Enquanto modelo típico-ideal (GENTILLI, 2005, p.143), cabe ao jornalista, como mediador, filtrar, selecionar e organizar as informações necessárias para que o público também tome a sua decisão a respeito do que está sendo apresentado no relato jornalístico. ‘A informação jornalística não é uma informação que chega ao receptor em estado bruto. Ela é manipulada pelo jornalista, que faz as suas pré-escolhas, as suas pré-opções, a sua pré-filtragem, o seu prejulgamento’ (GENTILLI, 2005, p.143).

A perspectiva negativa do agendamento

As construções sociais apresentadas pela imprensa a respeito do MST podem levar a transformações significativas na sociedade democrática. Até o presente momento, a imprensa brasileira tem dado demonstrações de que condena não somente as reivindicações do MST, como também suas estratégias de luta. A opção por destacar em reportagem de capa uma denúncia contra o MST, apenas 15 dias após o assassinato de um integrante do movimento, salienta o caráter ideológico da relação simbólica da revista Veja com o MST.

Logo após o assassinato do agricultor sem-terra em São Gabriel, o jornalista Humberto Trezzi, do jornal Zero Hora, afirmou que ali nascia um mártir. Até o momento, a fraca cobertura jornalística a respeito da morte do sem-terra e das investigações sobre o caso não comprovam esse tese. Pelo contrário. A reportagem de Veja contribui para retirar o assunto da agenda jornalística e incluir, novamente, o MST na perspectiva negativa do agendamento.

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Jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília

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