Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Assombrosa escalada dos espíritos

Por Gabriel Priolli em 24/03/2010 na edição 582

Se existe vida depois da morte, não se comprova, é matéria eternamente controversa. Mas que existe imagem após a morte, não há o menor ectoplasma de dúvida. Ao contrário. Não só viceja uma produção audiovisual dedicada à paranormalidade e aos espíritos que vagam pelos caminhos do além, como essa é a tendência da hora, no cinema e televisão brasileiros. O espiritismo está no ar, pronto a encarnar nas platéias e a assombrar com seu poder de magnetizar audiências.


No próximo 12 de abril, estréia na Rede Globo a nova novela das seis, Escrito nas Estrelas. Em princípio, mais um folhetim adocicado, como os que fomentam o diabetes no horário, mas com uma característica especial: a trama de Elizabeth Jhin se passa no interior de Minas Gerais, com um jovem médico acusado de matar um colega, que descobre ter o dom de curar pessoas por meio de cirurgias espirituais – feitas justamente pelo espírito do colega, morto logo nos primeiros capítulos e fantasma residente nos restantes.


Com exceção do crime, qualquer semelhança com o médium Chico Xavier não é mera coincidência. Completa-se em 2010 o centenário do famoso cirurgião de almas mineiro e mídia que se preza não deixa passar em branco efeméride gorda como essa. A Globo, sempre atenta, cuidou de preparar o espírito da audiência desde agosto de 2009 até recentemente, quando exibiu a reprise da novela Alma Gêmea, com a temática da reencarnação, na faixa vespertina ‘Vale a Pena Ver de Novo’.


Suspiro final


Não por acaso, também, paira no elenco do novo folhetim extraterreno o ator Carlos Vereza, que vai se tornando o Allan Kardec do nosso écran. Em mais um papel de fantasma, ele incorpora-se à história vindo diretamente da aridez do sertão, onde deu vida ao protagonista de Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito, o maior sucesso recente do cinema brasileiro fora do mainstream. Produção cearense de 2008, dirigida por Glauber Filho e Joe Pimentel, a película fez 505 mil espectadores ao custo modesto de R$ 2,7 milhões e chegou a ter 65 cópias circulando pelos cinemas do país. Para contar a vida de um médico e político nascido na atual Jaguaretama (CE), em 1831, que se tornou o principal divulgador e articulador do kardecismo no Brasil, entre sua conversão em 1887 e a morte em 1900, no Rio de Janeiro.


O mesmo idealizador dessa encarnação audiovisual bem sucedida, o empresário espírita Luiz Eduardo Girão, associou-se ao produtor e diretor Daniel Filho para tentar construir outro blockbuster paranormal. Com orçamento de R$ 10 milhões, efeitos especiais e lançamento previsto para 2 de abril – a data precisa do centenário de seu personagem – Chico Xavier promete atrair multidões ao cinema equivalentes às que acorriam a Uberaba (MG), em busca de cura para doenças ou contato com parentes falecidos. Os atores Nelson Xavier, Ângelo Antonio e Matheus Costa dão vida ao médium desencarnado em 2002 aos 92 anos, pelo qual baixaram ao plano terreno 451 livros psicografados e 10 mil cartas de mortos às suas famílias.


Junta-se à primeira linha do proselitismo espiritualista o Canal Brasil da programadora Globosat, integralmente dedicado a conteúdos nacionais. E não apenas por trazer das trevas da memória audiovisual O Estranho Mundo de Zé do Caixão, sucesso nos cinemas em 1968 agora convertido em programa semanal de TV, no adequado horário de sexta-feira à meia noite. José Mojica Marins, no seu histrionismo trash, é apenas folclórico perto dos legítimos Chico Xavier, Eurípedes Barsanulfo e Divaldo Franco, nomes reputados do sobrenatural brasileiro, cujas cinebiografias serão exibidas a partir de 3 de abril, às 18 horas, na série ‘Grandes Mestres Espíritas’.


Essa intensa movimentação no plano da matéria audiovisual lança alguma luz sobre a mídia espírita, ramo pouco conhecido da comunicação. Nada menos que dois canais de televisão regulares – TV Mundo Maior, da Fundação Espírita André Luiz, distribuída via internet, e a pioneira TV Cei.Com, já presente também na TV paga via satélite e em operadoras de cabo de 10 cidades, além da web – propõem a conexão dos mortais com aqueles que já atingiram a eternidade, através de programas de apelo inequívoco: Alma Querida, Vida Nova, Portal de Luz, Uniluz, Seara Espírita, Evolucine, Mundo Além, Vida Além da Vida e conexos.


Igualmente na TV paga, nas operadoras Telefônica TV Digital (canal 365) e Nossa TV (canal 23), está à disposição o canal internacional Infinito, que não se dedica ao espiritismo doutrinário de seus congêneres kardecistas, mas faz do plano astral um campo de lavoura equivalente ao que Discovery, History Channel ou National Geographic cultivam nas ciências humanas e naturais. Mescla informação com entretenimento, não hesitando em apimentar a programação com um bem dosado sensacionalismo.


Mais ortodoxos, contudo, são os portais como TV Paz, VideosEspíritas.Com ou Rede Visão, que agregam farto conteúdo espiritualista e oferecem múltiplas possibilidades a quem deseja enxergar além do suspiro final. Vídeos e programas de TV, destacadamente, estão disponíveis para audiência online, via streaming, ou para download.


Ação solidária


O volume e a diversidade de veículos de comunicação espíritas ainda não rivaliza, certamente, com a produção audiovisual cristã, seja ela católica ou evangélica. No sistema de parabólicas abertas, de satélites Banda C, por exemplo, de 29 canais disponíveis ao público em todo o território nacional, 5 são religiosos, o equivalente a 17,2% da programação total. Entre eles, 80% são orientados pela igreja de Roma (Rede Vida, TV Século XXI, TV Canção Nova e TV Aparecida) e 20% pelo protestantismo (a solitária RIT-Rede Internacional de Televisão, do pastor R.R.Soares, que também aluga espaço diário no horário nobre da Rede Bandeirantes).


Já na TV a cabo, a presença religiosa é bem mais reduzida. Dos 46 canais do pacote analógico da operadora NET, apenas um (Rede Gospel) teme a Deus e leva Seu nome às alturas. Considerados 110 canais dos diversos pacotes digitais, excluindo pay-per-view, canais HD, interativos, de áudio e de serviço, o número de atrações religiosas também é ínfimo: apenas duas estações, a mesma Rede Gospel e a Rede Vida católica.


Seja como for, entre espíritas, católicos e crentes, a religião se propaga por imagens e busca converter corações aflitos em fiéis telespectadores, contribuindo para a permanência do pensamento mágico tão arraigado na consciência popular e obstruindo o avanço da razão. Na contramão desse processo intenso de doutrinação midiática, não se verifica no Brasil ainda nenhum canal de TV ou web integralmente voltado à ciência e ao culto da racionalidade. Mesmo nas emissoras educativas, ainda é modesto o tempo dedicado aos conteúdos científicos e a produção nacional na área praticamente inexiste. Darwin perde de longe a batalha para Deus, na explicação sobre origem e destino de todas as coisas.


Uma pujante mídia religiosa pode, talvez, fazer algum bem a almas atormentadas, em busca de explicação e conforto para a agonizante falta de sentido da vida. Mas, com certeza, não facilita a afirmação do pensamento crítico, questionador, investigativo, que forja a verdadeira consciência de si e do mundo, e fundamenta os direitos de cidadania. Elevar preces ao céu e cultivar fantasmas é direito democrático e constitucional, mas não constitui uma democracia mais forte. Até prova em contrário, é a ação solidária entre os homens, sem auxílio divino e neste mundo mesmo, que pode lográ-la.

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Jornalista

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