Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Atenção, colegas editores

Por Cláudia Rodrigues em 25/01/2005 na edição 313

De 26 a 31 de janeiro Porto Alegre espera receber 150 mil pessoas vindas dos cinco continentes. Parece pouco para a causa ‘um novo mundo possível’, mas é o que temos de gente que consegue se unir por acreditar que o projeto político, econômico e social mundial único, o neoliberalismo, pode ser questionado, enfrentado e quebrado. As questões – a maioria delas já foi respondida – têm respostas vastas, abrangem quantos corpos vivem nessa terra, mas em um ponto se juntam: o capitalismo tal qual se apresenta, depois de anos de testes e promessas, faliu no que deveria ter sido o eixo do comando: a vida. A humana, a ambiental, a planetária.

Neste ano os participantes do Fórum estarão lá ainda para fazer e responder a questões que nem a mídia, altamente vinculada aos princípios da globalização, consegue mais esconder completamente. Agora, é bom lembrar que o enfrentamento já começou e a quebra do atual sistema necessita de práticas novas de pensamento e ação. Esse pessoal esquisito que atravessa o mundo para protestar tem as chaves e quer fazer cópias. A idéia de repartir permeia tudo e ninguém mais tem paciência para o meio termo, como as velhas balelas sobre concentrar lucros para gerar empregos.

O 5º Fórum Social Mundial chega a um grau de maturidade que quase 100% do esquema armado para receber os participantes, da computação às sacolinhas de lixo, é autogerido, feito por ali mesmo, fornecido por pequenos e via sistemas alternativos, o que automaticamente é fator de distribuição de renda. Dessa vez os artistas não ganham cachês e os grupos mais pobres recebem ajuda de custo.

É óbvio que nas salas de trabalho onde operam os voluntários e funcionários do Fórum é difícil encontrar uma massa de homens de gravata e mulheres de terninho na cor fashion, o mais comum é o incomum, a variedade – que pode até incluir ternos e gravatas. A liberdade que se prega e pela qual se luta em temas fundamentais, como o social, o econômico e o político, acaba aparecendo em roupas, cortes de cabelo, modo de ser. Convém que nossos repórteres, independentemente do universo em que vivam, entendam que o diferente pode não ser simplesmente tolo ou utópico, já que a razão e os sentimentos que fundaram essa luta são incontestáveis e tomam dimensões tsunâmicas.

Caixa 2 por terra

Nesse novo mundo possível no qual acreditam milhares de pessoas, a igualdade passa longe dos padrões de comportamento, atendo-se às áreas sociais e culturais, enquanto a liberdade, vejam só, estaria na justiça que, ao contrário de ser cega, deveria ter os olhos abertos a todos. Quanto à fraternidade, nada mais deve fazer exceto pairar soberana sobre a economia, é o nascimento da tal economia solidária e auto-sustentada de que tanto se fala. E o adeus à piedade.

No novo mundo possível os impérios desmoronam como castelos de areia e as pessoas ressurgem de um jeito pessoalizado, próprio, desmassificado, incluindo aí os donos dos impérios. O novo mundo possível não precisará gastar rios de dinheiro e poluir o ambiente queimando CDs para combater a pirataria, porque os piratas teriam o direito de ser tão legalizados quanto os detentores dos direitos de reprodução. Tampouco haverá imitações, porque as imitações partem do princípio de que alguma coisa ou marca é melhor porque é maior e, nesse planeta solidário com o qual sonham essas milhares de pessoas, a originalidade tem seu lugar tão honrado como o do excesso de lucros, que não deve ser concentrado sob desculpa alguma, nem mesmo a de gerar empregos, posto que é falha como se pode constatar nos números.

No novo mundo possível não será necessário combater o narcotráfico, porque o narcotráfico, como caixa 2 da economia bélica, cairá por terra juntamente com os interesses políticos e econômicos de certas nações em eternas guerras muito pouco explicadas por nós, jornalistas, e por isso muito pouco compreendidas pelos que sabem ler, e menos ainda pelos que não sabem, estejam eles ou não no centro do furacão.

Moeda própria

Enfim, resta saber o que há conosco que todo ano cobrimos tão mal o Fórum Social Mundial. Será medo de perder o emprego ou de ganhar a razão? Para não perder o emprego e cobrir direito o Fórum, basta lascar alguns palitos fora da caixa, com espírito de justiça e um pingo de ingenuidade, para não perder o último fio de dignidade soterrado pelo preconceito.

Para ganhar a razão e não se perder na utopia de que no novo mundo todos têm que vestir batik à moda bicho-grilo, é só pensar de corpo inteiro diante das alternativas propostas, partindo do princípio de que o pensamento único, só por ser único, é obtuso, obscuro e tirânico. E aí sim é necessária alguma esperteza para entender como o que funciona no verbo econômico invalida nossa existência, a de nossos filhos e netos. Poderíamos, por exemplo, começar questionando qual a filosofia do neoliberalismo, confrontando-a com a do novo mundo possível. Não faltarão exemplos de atitudes, que por certo patinam ainda no lamaçal da utopia capitalista, que tudo bane, tudo proíbe, tudo pode diante da vida.

Agora, não dá para cobrir o Fórum esperando que saia de lá a solução para sanar a economia dos Estados Unidos, dessa ou daquela multinacional à beira da falência. O Fórum tem moeda própria.

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Jornalista em Florianópolis

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