Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO ESPORTIVO

Atletas ‘jornalistas’, uma fraude

Por Luiz Carlos Ramos em 18/09/2007 na edição 451

Oscar, Hortência, Geovani, Virna, Gustavo Borges, Aurélio Miguel e Robson Caetano. Eles merecem entrar em qualquer lista dos melhores atletas brasileiros dos últimos 20 anos: conquistaram títulos e medalhas de basquete, vôlei, natação, judô e atletismo. Foram competentes nas quadras, pistas, tatamis e piscinas. As pessoas certas, nos lugares certos, nas épocas certas. Com eles e com mais um punhado de grandes atletas do passado e do presente, o Brasil tem provado que já não é apenas o ‘País do Futebol’, apesar de ser ridícula e irresponsável a campanha de dirigentes, de uma parte da mídia e do presidente da República para tentar nos convencer de que somos potência esportiva, em condições de até promover a Olimpíada de 2016.

Tudo bem. Como atletas, eles foram excelentes. Mas como se portam na tarefa de comentar competições para emissoras de TV e rádio, para jornais e para sites de internet, como aconteceu no Pan do Rio, em julho? Eles são péssimos, com raras exceções. Podem ter conhecimento sobre a modalidade esportiva em que se consagraram, mas, geralmente, não têm domínio da palavra e acabam ficando ‘em cima do muro’ ou fazendo política para beneficiar esta ou aquela ala de dirigentes, técnicos e atletas. O resultado é negativo. Culpa deles? Não. Culpa de quem os contrata. No caso, a culpa é das empresas e dos jornalistas chefes de equipes que resolvem superpovoar seus quadros de cobertura dos Jogos Pan-Americanos e de Olimpíadas com um número exagerado de ex-atletas, pessoas conhecidas do grande público, mas ignorantes em termos de comunicação.

O ‘esporte-base’

É claro que poderia ser lembrado o fato de esse tipo de ‘reforço’ às coberturas esportivas também contribuir para burlar a já tão maltratada lei que regulamenta a profissão de jornalista. Mas fiquemos apenas com o lado técnico. O pior é que alguns desses ex-atletas não se limitam a tentar ser comentaristas: também se aventuram na missão de fazer reportagens e entrevistas. Uma loucura!

E mais: essa situação não se resume ao Pan. No dia-a-dia, temos uma infinidade de ex-jogadores de futebol que mantêm colunas em jornais e espaço em rádio, TV e internet. Na maioria dos casos da mídia impressa e da internet, nem são eles que escrevem: os tais famosos recorrem à cumplicidade de alguém alfabetizado, um jornalista, que funciona como ghost writer.

No entanto, grande parte da responsabilidade por essa situação não é só de empresas e de ex-atletas: é de uma parcela de jornalistas esportivos que, ao longo de suas carreiras, nunca tentaram ir além da condição de ‘boleiros’, já que fazem do futebol o restrito campo de sua atividade monotemática. A cada Pan e a cada Olimpíada, percebe-se o despreparo de inúmeros profissionais para reportar e comentar modalidades esportivas como atletismo, natação e judô, por exemplo. O atletismo é o ‘esporte-base’, mas são poucos os repórteres em condições de mostrá-lo em detalhes, em profundidade.

Poupar o telespectador

O último dia da Olimpíada de Atenas, em 2004, teve um dos fatos mais inusitados de todos os tempos: um atleta sendo agarrado por um maluco quando liderava a maratona. E esse atleta era brasileiro! O herói Vanderlei Cordeiro de Lima. Naquele dia, foi péssima a cobertura dada pela mídia do Brasil ao ocorrido. Nossa mídia acordou só no dia seguinte, quando a chama olímpica já havia sido apagada do estádio.

Uma vez que teremos nova Olimpíada em agosto de 2008, em Pequim, é de se esperar que os futuros enviados especiais comecem a ter algo além de lições de chinês. Que tal saber a diferença entre salto em altura e salto em extensão ou conhecer a verdadeira posição do Brasil entre os países da melhor natação do mundo? Assim, talvez consigamos convencer o cestinha Oscar e seus ‘colegas’ de trabalho no Pan a ficar em casa, junto às suas galerias de troféus, assistindo à Olimpíada pela TV. Apenas assistindo. E poupando os telespectadores.

******

Jornalista, coordenador de Jornalismo da Rádio Capital e professor de Jornalismo na PUC-SP, no Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado e nos cursos do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo; autor de Levantando a Vida, livro-reportagem sobre o jogador de vôlei Ricardinho

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/09/2007 Luiz Carlos Ramos

    Olá, pessoal. Quem escreve este recado, mais uma vez, é o autor do artigo, o jornalista Luiz Carlos Ramos. Desejo agradecer aos que elogiam e aos que contestam minhas opiniões contidas nesse texto. Gostaria de insistir que não sou dono da verdade. Quem me conhece, sabe disso. Portanto, minhas opiniões não são absolutas. E considero saudável uma discussão sobre o tema, tanto por jornalistas quanto por pessoas de várias outras profissões que já deixaram seus recados neste Observatório da Imprensa. Só para esclarecer para alguns dos participantes desta discussão: com muita honra, faço parte, sim, do Conselho Editorial do jornal do Sindicato dos Jornalistas de SP e fui diretor desse Sindicato de 1975 a 1978, época da presidência de Audálio Dantas, que liderou as equilibradas reações ao assassinato de Vladimir Herzog, ocorrido em outubro de 1975. Apesar disso, sou aberto à discussão sobre a validade do diploma para jornalistas e mantenho posição favorável à participação de atletas, professores, médicos, advogados como colaboradores da mídia e entrevistados convidados. Apenas lamento o abuso do uso de tais profissionais, como ocorreu nos Jogos Pan-Americanos, e advirto que nós, jornalistas, temos grande parte da culpa por essa situação. Sou professor de Jornalismo na PUC de São Paulo e no Curso do Estadão e boto fé nas novas safras que estão surgindo.

  2. Comentou em 21/09/2007 Jorge Nogueira Rebolla

    A qualidade dos ex-atletas comentando atividades esportivas é realmente péssima, iguaizinhos aos jornalistas ‘formados’, todos de baixo nível. Mas não é isto que importa, a verdadeira questão é a reserva de mercado em uma atividade que exige apenas talento, para ser um bom jornalista não é preciso aprender as técnicas e os macetes ensinados nas fábricas de diplomas de comunicação.
    É ridícula a postura dos ‘líderes’ da catchiguria jornalística, não apenas no caso dos ex-atletas, mas em geral, com a tentativa de expulsar os que possuem talento verdadeiro mas utilizaram o seu estudo acadêmico em formações menos toscas em benefício dos com um ‘canudo’ que não representa absolutamente nada.

  3. Comentou em 21/09/2007 Leonardo Cazes

    No momento em que o jornalismo se encontra ameaçado pela aberração eu-repórter, a coluna é bem interessante. Não se trata de defender um interesse de classe, mas sim de informar melhor aqueles que gostam de esportes. Cada caso tem que ser visto individualmente, porque o atleta-jornalista não pode servir mais para confundir do que para explicar. Realmente, em alguns casos, é importante a presença do atleta, e também de técnicos com experiência. No caso do basquete, ouvir Miguel Angêlo da Luz é muito mais interessante que ouvir o Oscar.

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