Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 26/2

Atores estrangeiros dominam Oscar

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 26/02/2008 na edição 474

Leia abaixo a seleção de terça-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008


CINEMA
Ubiratan Brasil


O Oscar dos estrangeiros


‘Los Angeles – Se o ano passado foi dos latinos, o Oscar de 2008 premiou essencialmente os europeus. Basta conferir a lista dos vencedores: um inglês (Daniel Day-Lewis) e uma francesa (Marion Cotillard) como atores principais, e um espanhol (Javier Bardem) e uma inglesa (Tilda Swinton) entre os coadjuvantes. Uma combinação como nunca antes fora feita. Uma nova tendência? As opiniões se dividem.


‘Não acho que seja uma novidade, pois Hollywood foi construída por estrangeiros, faz parte de sua história’, comentou Tilda, vencedora por Conduta de Risco. ‘E hoje, andando pelos corredores do teatro, você encontra premiados italianos, por exemplo. Não espalhem, mas estamos em todos os cantos.’


Para Day-Lewis, premiado por Sangue Negro, trata-se, de fato, de um fenômeno, mas ele ainda não sabe se localizado ou algo que vai permanecer. ‘Basta ver a lista dos finalistas nas principais categorias: havia atores americanos defendendo um trabalho excepcional. Assim, não sei se a premiação serve como indicação de uma tendência.’


Javier Bardem, que comemorou o Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez trocando um selinho com a mãe Pilar, credita a premiação pelo trabalho ao longo de sua carreira e não apenas pelo filme dirigido pelos irmãos Ethan e Joel Coen. ‘Acho que tive papéis melhores, mas aqui foi o fruto de um trabalho conjunto entre mim e os diretores. Não vejo a predominância de um estilo cultural, mas da fusão entre vários.’


Bardem contou que a construção de seu personagem aconteceu aos pedaços, em meio a uma troca de impressões com os irmãos Coen. ‘Tínhamos um excelente ponto de partida, o livro de Cormac McCarthy’, comentou Joel. ‘Assim, o primeiro objetivo era fazer jus ao romance, o que implicou a inclusão de temas sombrios.’


Seria essa preferência pela angústia e o suspense outro elemento comum a todos os filmes finalistas? ‘Talvez seja um desejo do momento’, arriscou Joel. ‘Sabe, é a primeira vez que me interesso por todos os longas que disputaram o Oscar da categoria. Há, em todos, uma discussão sobre o homem que me atrai pessoalmente.’


‘O interesse está provavelmente na forma como esses filmes tratam de assuntos tão profundos’, arriscou Scott Rudin, produtor de Onde os Fracos. ‘Há uma discussão sobre o lado sombrio da alma humana, mas isso aparece na tela na forma de suspense clássico, aquele que faz prender a respiração.’


Discutir a face obscura do ser humano também valeu o Oscar de melhor filme estrangeiro ao austríaco Stefan Ruzowitzki, diretor de O Falsário. O filme mostra o dilema de prisioneiros de um campo de concentração durante a 2.ª Guerra Mundial: obrigados a confeccionar dinheiro falso que vai alimentar o nazismo, eles têm de escolher entre a manutenção do regime que os oprime ou a morte. ‘Como neto de simpatizantes do nazismo, senti a necessidade de contar essa história, que pertence não apenas à minha família, mas também à do país. Trata-se de um momento político e social que vai necessitar ainda de diversas revisões’, comentou diretor.


A política, aliás, passou timidamente pela cerimônia do Oscar, embora os Estados Unidos vivam a expectativa de novas eleições presidenciais. O apresentador Jon Stewart, por exemplo, fez uma rápida referência ao candidato democrata Barack Obama (lembrando da semelhança fonética de seu sobrenome com Osama).


Já Tom Hanks, quando apresentava os candidatos a melhor documentário de longa-metragem, ao ler em seu discurso a palavra ?hope? (esperança), que é a chave da campanha de Obama, disse: ‘Esperança, finalmente.’ Com isso, entregou seu voto. Os efeitos da greve dos roteiristas e o cuidado de deixar o assunto para o próximo Oscar pouparam, ao menos uma vez, os políticos de serem o centro das brincadeiras.’


 


TV BRASIL
Wilson Tosta


Programação da TV Brasil começa a mudar em março


‘A TV Brasil, emissora pública criada pelo governo federal no ano passado, vai mudar a sua programação atual, alvo de críticas por ainda carregar supostos vícios de televisões oficiais, segundo mostrou reportagem publicada pelo Estado ontem. O diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Orlando Senna, afirmou ontem que já está em curso um movimento de mudanças na grade de programação, em dois estágios: um a ser concluído em março, outro em julho.


Hoje, a EBC exibe programas herdados da antiga TVE Brasil e da Radiobrás, com algumas novidades, como o noticiário Repórter Brasil. O processo de mudança, garantiu ele, será feito aos poucos – a identidade visual da TV, por exemplo, ainda não é definitiva. ‘A TV Brasil terá uma cara reconhecível’, disse Senna.


A presidente da EBC, Tereza Cruvinel, que é jornalista, afirmou que a grande renovação da nova emissora será dada pelas produções independentes. ‘TV não é como matéria de jornal, que a gente escreve num dia e sai logo no dia seguinte’, explicou. Ela disse que o comando da empresa não contava com o ‘atraso institucional’ na votação da medida provisória que cria a EBC e que só deve ser concluída em março no Senado, mas declarou acreditar na aprovação final. O texto-base já foi aceito pela Câmara. Falta votar destaques, antes de ser encaminhado aos senadores.


Uma das mudanças prometidas para a emissora será a designação de correspondentes para Buenos Aires e Caracas, a ser feita assim que a MP for aprovada e a nova empresa tiver orçamento próprio. A diretora de Jornalismo da EBC, Helena Chagas, explicou que essas duas capitais latino-americanas serão as primeiras que receberão repórteres em caráter permanente. Nos Estados Unidos, a TV Brasil também deverá efetivar um profissional. O primeiro correspondente no exterior, contudo, começa a trabalhar em Angola em março. Depois, é provável que seja fixado um repórter na Europa, em Genebra ou Bruxelas.


PLANEJAMENTO


‘Estamos entrando na segunda fase do nosso trabalho’, disse Helena. ‘A primeira consistiu em colocar o Repórter Brasil no ar, à noite e de manhã. Tivemos um mês para isso, o que é uma loucura. Agora, queremos aprimorar o Repórter Brasil, corrigir e trocar a roda com o carro andando’, adiantou.


A EBC ainda comemora alguns números de audiência no carnaval quando focou a festa popular nas ruas no Rio e em Salvador, em parceria com emissoras estatais estaduais.


Ontem, a emissora assinou, no Rio de Janeiro, um memorando de entendimento com o Centro de Informações das Nações Unidas para o Brasil (Unic Rio) e o United Nations Radio and Television Service. O acordo prevê o recebimento, pela EBC, entre outros, do programa televisivo 21st Century, de documentários de rádio e televisão, imagens, textos e outros materiais. A emissora dará apoio técnico aos representantes da ONU, que treinará profissionais em questões internacionais.’


 


ESPANHA
O Estado de S. Paulo


Premiê espanhol e rival conservador trocam insultos em debate na televisão


‘O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, e seu rival nas eleições do dia 9, o conservador Mariano Rajoy, trocaram ontem acusações sobre separatismo basco e política externa durante o primeiro debate na televisão realizado na Espanha desde 1993.


Durante o debate, os dois candidatos interromperam um ao outro várias vezes e, em determinado momento, trocaram insultos em um tom mais elevado sobre como lidar com os terroristas bascos do ETA. Rajoy criticou duramente o fato de Zapatero continuar a negociar com o grupo separatista.


‘Você enganou o povo espanhol’, disse Rajoy. ‘Quem enganou os espanhóis foram vocês’, respondeu Zapatero, em referência ao ataque de terroristas islâmicos em Madri, em 2004, que os conservadores, então no governo, atribuíram ao ETA para tentar ganhar as eleições naquele ano.


Rajoy aproveitou também para atacar a política externa de Zapatero, acusando o premiê de se aliar a Fidel Castro e Hugo Chávez. Zapatero tentou se defender, dizendo que na Cúpula Ibero-americana, em novembro, até defendeu o ex-premiê conservador José María Aznar.


Segundo pesquisa do Instituto Metroscopía, publicada no jornal El País, os socialistas têm 44% das intenções de voto, enquanto os conservadores têm 40%. Na sondagem do Instituto Opina, o partido de Zapatero tem 44,5% e o de Rajoy, 41,5%.’


 


FOTOGRAFIA
O Estado de S. Paulo


Getty Images é vendida por US$ 2,4 bilhões


‘A agência de fotografias e vídeo Getty Images aceitou a oferta de US$ 2,4 bilhões, incluindo dívidas, feita pelo fundo de investimentos Hellman & Friedman. A empresa, um banco de imagens que atua em mais de cem países, foi fundada em 1995 por Mark Getty e Jonathan Klein. Segundo os termos do acordo, os acionistas da Getty Images receberão US$ 34 em dinheiro por ação. Isso representa uma valorização de 55% em relação ao preço de fechamento na Bolsa de Nova York em 18 de janeiro, um dia antes de a companhia anunciar que estava ‘explorando alternativas estratégicas’.’


 


INTERNET
Renato Cruz


Internet cria a economia do gratuito


‘A Lei de Moore, que recebeu esse nome em homenagem a um dos fundadores da Intel, diz que o preço do poder de processamento cai pela metade a cada 18 meses. Os preços do armazenamento de dados e da conectividade caem ainda mais rápido. Essa tendência ao zero dos custos de infra-estrutura permite que os produtos digitais sejam oferecidos de graça. ‘Tudo o que faz parte da economia da internet é grátis’, afirmou, por telefone, Chris Anderson, editor-chefe da revista americana Wired e autor do best-seller A Cauda Longa. ‘Nunca havia acontecido de toda uma economia ser construída em torno do conceito de gratuito.’


Em A Cauda Longa, ele mostrou como a internet permitiu que o mercado passasse da massificação para a personalização. Ele escreve agora um novo livro, que se chamará Free (Grátis), e deve ser lançado no começo do ano que vem. Ele escreveu sobre o assunto na Wired de março e o texto está disponível no site da revista desde ontem. A seguir, trechos da entrevista.


Existe alguma coisa que, na sua opinião, nunca será oferecida de graça?


A maioria das coisas. Basicamente, existem duas maneiras principais de se oferecer coisas de graça. É possível fazer um gratuito falso, com subsídios cruzados. Qualquer coisa pode ser falsamente gratuita, mas não gratuita de verdade. E existem os produtos digitais, que podem realmente ser grátis. Então, tudo o que não pode ser transformado num produto digital, pode ser só falsamente grátis.


Temos visto muitos produtos sendo vendidos como serviços, como celulares dados pelas operadoras na assinatura de contratos. As pessoas serão capazes de pagar todas as mensalidades criadas por essa tendência?


Eu não sei. Existe diferença entre um pagamento único e pagamentos graduais. É como comprar um carro ou alugá-lo. Acho que haverá uma migração crescente do dinheiro do começo da decisão de comprar alguma coisa para um pagamento em andamento. É preciso fazer as contas na cabeça para saber se compensa. Não sei sobre você, mas minhas assinaturas mensais estão realmente subindo, chegando a US$ 300, US$ 400 por mês. Sozinhas, não são muito grandes, mas juntas se transformam em bastante dinheiro. Acho que existem limites, e haverá uma retração do modelo de assinaturas, se houver exagero.


Ao mesmo tempo, existem vários serviços sendo vendidos como conteúdo, com receitas de publicidade. Existe mercado publicitário suficiente para todos que estão tentando isso?


Não. É importante notar que a publicidade não vai pagar por tudo. Haverá mais dólares de publicidade na internet do que existe hoje e, possivelmente, mais dólares de publicidade em todos os meios, porque a publicidade na web abre espaço para novos anunciantes e novas formas de anúncio. Dessa forma, acho que o bolo total vai crescer. Mas ele não vai crescer instantaneamente e não acredito que a publicidade irá patrocinar toda a economia do grátis. Um dos grandes enganos sobre a economia do gratuito é que ela será toda sustentada por publicidade.


Quem está mais apto a sobreviver nesse ambiente?


A resposta imediata é o Google.


E quais são os melhores modelos de negócio para este ambiente?


Não haverá apenas um vencedor. Estamos somente no começo da economia do grátis. No nosso web site, temos uma lista de modelos de negócio. Hoje, são cerca de 20 e há provavelmente 2 mil. Não tenho uma resposta sobre quem vai viver. Provavelmente não será uma entidade única.


Hoje nós pagamos para ter uma versão impressa da Wired.


Não este mês. (Há uma promoção no site para distribuição de exemplares gratuitos para leitores americanos.)


O senhor acredita que existe uma tendência de as revistas se tornarem gratuitas?


As revistas já são virtualmente grátis. Na versão impressa da revista, nós cobramos um montante muito pequeno, que não tem ligação com o que realmente nos custa produzi-la. Nós cobramos porque é uma maneira de garantir que os assinantes estão interessados no produto, o que nos permite cobrar mais dos anunciantes.


Esse é o modelo tradicional para revistas e jornais. O senhor não vê nenhuma grande mudança nessa área?


Não. No lugar de o gratuito desafiar o modelo de mídia, o gratuito abraça o modelo da mídia. Vários outros setores vão adotar o modelo da mídia.


E a mídia vai perder espaço nesse cenário?


A partir do momento em que existe cada vez mais competição pelos dólares de publicidade, e a mídia não é a única que vai consegui-los, acho que a mídia vai perder participação de mercado. Mas o mercado publicitário vai crescer e, dessa forma, não será uma perda absoluta.


Por que o senhor resolver escrever Free depois de A Cauda Longa?


A idéia veio de um dos capítulos de A Cauda Longa, sobre a economia da abundância. Estava pensando que a cauda longa (oferta na internet de produtos que interessam a poucos consumidores) foi permitida pelo espaço infinito e gratuito de prateleira. Quando as coisas são gratuitas, você pode desperdiçá-las, e existe muito mais variedade de produtos disponível hoje. Pensei mais sobre espaço gratuito de prateleira e desperdício de espaço de prateleira e percebi que tudo o que está em volta da economia da internet é gratuito. E isso é surpreendente. Nunca havia acontecido de toda uma economia ser construída em torno do gratuito. Resolvi mostrar como as pessoas fazem dinheiro e quais são as implicações disso. Isso levou para ao livro e ao artigo.


Quanto vai custar o livro novo?


Será de graça em todos os formatos digitais. O livro eletrônico, o audiolivro e o livro na web serão gratuitos. Talvez um dos formatos físicos venha a ser grátis também. Haverá uma versão para ser comprada, se quiser. Mas, se quiser de graça, terá de graça.


Quem é: Chris Anderson


Formado em Física pela George Washington University, trabalhou nas revistas The Economist, Nature e Science. Nasceu em 1961, em Londres.’


 


O Estado de S. Paulo


‘Oferta da Microsoft foi estimulante’


‘O executivo-chefe do Yahoo, Jerry Yang, afirmou ontem que a oferta hostil de compra feita pela Microsoft, de US$ 44,6 bilhões, foi um ‘evento estimulante’ para sua empresa, que passa por problemas. A oferta, que o Yahoo rejeitou por considerar muito baixa, levou a companhia a correr para estudar todas as suas alternativas e forçou as empresas de internet e de publicidade a pensar sobre o que significaria uma combinação das duas companhias para o setor, declarou Yang.


Falando em uma conferência do Interactive Advertising Bureau (IAB), em Phoenix, Arizona, Yang afirmou que sua prioridade é garantir que ‘onde o Yahoo for seja o melhor lugar’ para os funcionários, anunciantes e acionistas.


A presidente da companhia, Susan Decker, acrescentou que a oferta da Microsoft ‘acelerou as negociações que já estavam aí’, em uma referência a conversas que o Yahoo tem tido nas últimas semanas com o Google, a News Corp. e outras empresas de internet para tentar escapar do controle da Microsoft. A News Corp. controla a Dow Jones & Co., que edita o Wall Street Journal e a agência Dow Jones Newswires.


Os comentários de Yang coincidem com dados do IAB, que indicam que os gastos com publicidade online devem alcançar US$ 21,1 bilhões em 2007, um aumento de 25% sobre 2006. As estimativas do IAB e da PriceWaterhouseCoopers confirmaram outros relatos recentes que mostram o crescimento dos serviços de publicidade online, que podem agora ultrapassar o volume anual de anúncios no rádio.


AÇÕES


As ações da Microsoft caíram cerca de 15% desde que a empresa fez a oferta pelo Yahoo, em meio a preocupações sobre a complexidade da integração dos dois grupos. Os acionistas temem que a Microsoft acabe pagando muito pelo Yahoo.


Analistas têm advertido, por sua vez, que as ações do Yahoo devem cair se a Microsoft desistir da oferta. Fontes indicaram que a empresa de software está preparada para lançar uma batalha de procurações a partir de 14 de março, tentando influenciar o conselho do Yahoo, se a direção da empresa não concordar em negociar.’


 


TRIBUNAL
O Estado de S. Paulo


Juiz absolve acusados de seqüestrar repórter


‘O juiz Djalma Rubens Lofrano Filho, da 7ª Vara Criminal de São Paulo, absolveu Simone Barbaresco, Ivan Barbosa e Anderson de Jesus, suspeitos de participar do seqüestro do repórter Guilherme Portanova e do cinegrafista Alexandre Coelho Calado, funcionários da Rede Globo, em 12 de agosto de 2006, em uma ação comandada pelo PCC. Eles foram acusados de roubo, seqüestro e formação de quadrilha. O juiz disse que a ação do MP era ‘improcedente, pois não foram reunidas nos autos provas’.’


 


TELEVISÃO
Etienne Jacintho


MTV sai às ruas


‘A MTV estréia, no dia 3 de março, parte de suas novas atrações. Segundo o diretor de Programação da rede, Zico Goes, a emissora terá faixas diárias e programas feitos na rua para aproximar mais a MTV de seu público. ‘Todo ano tem de renovar porque o mundo muda e nosso público também’, diz.


Haverá duas faixas musicais diárias ao vivo. Uma delas, às 17h15, será apresentada pelo veterano Felipe e pela recém-contratada Kika. A outra, às 20 horas, será comandada por Luisa.


Entre os novos contratados estão a modelo Caroline Ribeiro, que atuou durante o Verão MTV e vai apresentar o programa de namoro A Fila Anda, e Marcelo Adnet, humorista carioca que terá um programa com 15 minutos de duração, a partir do dia 10. ‘Será um programa de improvisos, com as reflexões de Marcelo’, conta Goes.


Penélope Nova vai apresentar o MTV na Rua, em que sai a campo para conversar com o público. Outro programa gravado fora do estúdio será o MTV Notícia, com Leo Madeira. Ambos estão em fase de produção e devem estrear na segunda semana de março. Já Marcos Mion terá um programa diário, o Descarga MTV.’


 


CUBA
Arnaldo Jabor


Meu caso de amor com Fidel Castro


‘Já contei este ‘causo’ aqui e vou repeti-lo. Por quê? Porque Fidel Castro morreu. Não da ‘fatal ceifadeira’ que se aproxima, mas de uma morte simbólica que ecoou dentro de mim. Quando o vi, vestido de abriguinho Adidas (meu Deus, porque o merchandising do capitalismo esportivo?), quando o vi, trôpego, olhado com o carinho oportunista pelo pavoroso Hugo Chávez, usando-o para seu lucro de gordo psicopata, tive um baque de angústia.


Eu que, na adolescência, fui animado a viver pelas imagens da conquista de Havana, com os heróis lindos e suas metralhadoras, hippies armados, intelectuais corajosos, também morri um pouco. Fidel era jovem, macho, libertador, barbado, tudo.


Fui a Cuba em 87, com meu filme Eu Sei Que Vou Te Amar, que passou no Festival de Havana.


Mas, muito antes de ir, eu sonhava com essa ilha tropical igual à Bahia (vi depois), onde o socialismo paranóico de Stalin seria criticado e salvo. Naquela época, o socialismo era nossa religião e os operários, os santos, símbolos do futuro. Eu era editor do jornal dos estudantes e às vezes ficava até de madrugada na Lapa, na oficina gráfica. E via os operários como líderes, sentia em sua força calma uma beleza ‘pura’, uma grandeza simples, superior aos intelectuais neuróticos. Como amávamos os operários!… Na alta madrugada, eu os olhava, imprimindo as páginas ainda no chumbo e eles, com seus braços fortes, pareciam gravuras soviéticas. Andava atrás deles, com ensinamentos políticos, elogios, sorrisos. Alguns (hoje vejo) ficavam desconfiados de tanto amor. ‘Serão bichas, esses garotos, veadinhos?’, pensavam com certeza. Não – éramos apenas comunistas.


Passaram-se 20 e tantos anos e, finalmente, fui a Cuba. Depois da derrocada de uma fé atrás da outra, restava-me ainda a paixão pela paixão que eu tivera por aquela utopia e seu Comandante. Comi lagostas no ex-palácio do milionário Dupont em Varadero e ouvi o jazz do grande Arturo Sandoval. Mas, minha primeira impressão foi um choque: as casas de Cuba não estavam pintadas; todas as fachadas de tradição espanhola se descascavam em verdes pálidos ou em rosa desmaiada. Senti ali o primeiro calafrio de decepção – o descuido com a beleza e a preservação. Achava que o trabalho socialista era do amor à coisa pública, o cuidado com a tradição. Não sabia ainda do burocratismo, dos privilégios da ‘nomenklatura’, do egoísmo e da fragilidade do sentimento generoso do trabalho coletivo. Aliás, o que mais se entristeceu no socialismo foi a incompetência geral que percebia em detalhes, na lentidão das providências, no medo de decidir que eu via entre os funcionários. O filme Guantanamera, de Gutierrez Alea, é um retrato perfeito da ineficiência cubana. Claro que sei do bloqueio brutal americano e da ‘ajuda’ soviética oportunista. Além dos desmandos posteriores de Fidel, da repressão, dos fuzilados, quando vi Cuba caindo nos braços de Khruschev, o sonho acabou.


Mas, minha fé e meu amor, mesmo em 87, ainda me fizeram esquecer as dúvidas e decepções.


Uma noite, fui a um coquetel no Hotel Nacional. A grande atração seria o próprio Fidel. Suspense geral entre os convidados. Tudo ficava meio provisório, porque Fidel iria chegar. Lá pelas tantas, estou de costas para a porta e senti, como um vento, a chegada do Comandante, cercado de seguranças, que entrou pela sala como um trem. Fidel foi cercado por todos, latinos, europeus, asiáticos. Uma amiga a meu lado fez uma crítica fashion: ‘Uniforme de tergal, com esse verde horroroso… Tinha de ser de puro algodão, sei lá, outro verde…’ Senti a crise do socialismo estampada naquele tergal barato.


Mas, tudo era pequeno diante da presença de Fidel. Era a materialização de um herói, como se Aquiles tivesse saído da Ilíada pra conversar comigo. Enfiei-me no grupo que o cercava e consegui chegar até bem perto dele.


‘Comandante… Ó…’ – falei com firmeza. Fidel me olhou, sorriu e me deu a mão. Arfante, agarrei-lhe a mão e comecei a falar: ‘Soy de Brasil… y hago peliculas.’ Mas o grupo de tietes era voraz e Fidel foi empurrado para o outro lado da sala. Firme em meu propósito, continuei agarrado em sua mão, enquanto ele respondia à pergunta de um asiático pigmeu chatíssimo falando do ‘bloqueio’. Fidel jogava como um barco e eu ali, grudado, não largava sua mão. Lembro-me até hoje que sua mão era quente e larga, a palma generosa e macia. Sua mão se aninhava confortavelmente na minha, enquanto eu tentava lhe falar. ‘Comandante’… – comecei de novo, gago de emoção. Fidel me olhou, vagando naquele mar de gente e eu, feito um náufrago da revolução, pressionava sua mão com vigor, sorrindo-lhe, fixando-me em seus olhos para ele me ouvir. Mas, os tietes canalhas atrapalhavam.


Foi então que a mão de Fidel começou a sentir demais a presença da minha. Sua palma começou a estranhar aquele contato. O que fora uma irmanação política, fraternal de ‘companheiros’, foi virando uma intimidade física, com as duas peles se colando. Uma finíssima camada de suor umedeceu a palma do Comandante, pois se apagava a fina fronteira entre a amizade revolucionária e o perigo homossexual: dois homens ali de mãos dadas. E a mão de Fidel começou a querer se livrar do firme aperto da minha. Ela tentou sair pela direita, pela esquerda, se contorceu, se apinhou em dedos juntos e foi se desprendendo da minha, que insistia no aperto emocionado. Eu lutava para não largar a palma do Comandante, mas sua mão, cada vez mais sinuosa, impaciente, se apequenou e num esforço, quase um solavanco, conseguiu afinal se libertar da minha, enquanto o olhar espantado de Fidel cortou o meu olhar por um segundo.


‘Será que é uma bicha brasileira, infiltrada?’ – tenho certeza que ele pensou. Não, comandante, eu não era uma bicha; apenas um ex-comunista. Foi a única vez que vi Fidel. E sei que sua morte vai me fazer morrer um pouco.’


 


 


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 26 de fevereiro de 2008


CARTÕES DO GOVERNO
Claudio Weber Abramo


Os donos da informação


‘TENDO TOMADO o espaço político nas últimas semanas, o assunto dos cartões, por si só, não justifica CPI. Trata-se de um meio de pagamento como qualquer outro. O que mereceria investigação parlamentar são as condições de controle a que despesas de modo geral são submetidas no Brasil, não apenas no governo federal, mas também nos Estados e municípios.


Quais estruturas de controle existem? As justificativas para compras são razoáveis? Os bens e serviços adquiridos foram fornecidos conforme as especificações? Os custos estão dentro de margens aceitáveis? Há indicadores de desempenho de projetos e programas? Qual é a incidência percentual de irregularidades?


Caso houvesse interesse na questão mais ampla, se obteria a resposta de que, no Brasil, as condições de prevenção e controle são heterogêneas e geralmente precárias.


No plano federal, alguns ministérios têm controles melhores do que outros. Princípios básicos de acompanhamento são aplicados desigualmente, em boa parte porque a Controladoria Geral da União, o órgão de controle interno do governo, não tem autoridade sobre os ministérios.


Desde a sua criação, no governo Fernando Henrique Cardoso, a CGU sempre foi uma repartição da Presidência da República (leia-se Casa Civil). Embora tenha experimentado considerável ampliação de escopo no governo Lula, essa subordinação funcional e política prejudica seu desempenho. Uma CPI do controle precisaria recomendar a desvinculação desse organismo da Presidência e sua transformação em instrumento de Estado, e não de governo.


Seja como for, é indiscutível que, ainda que deficientes, os controles do governo federal são muito melhores do que os da média dos Estados, para não mencionar os municípios, cuja maioria nem sequer conta com alguma espécie de controle interno. Disso sabem muito bem (pois são protagonistas do descontrole) tucanos, democratas, petistas e o resto. No quintal de cada um, as coisas são em geral muito piores do que no plano federal.


O episódio dos cartões serviu também para exibir uma das mais graves vulnerabilidades brasileiras, que é a ausência da obrigação formal de o poder público exibir as informações que detém. Sem informação, não há possibilidade de controle social. Quando a informação é publicada, tanto a imprensa quanto grupos de interesse específicos (como ONGs), assim como a oposição, se tornam capazes de exercer certa vigilância. Foi o que aconteceu com os cartões, cujos demonstrativos são publicados no Portal da Transparência mantido pela CGU. Por isso puderam ser examinados pela repórter Sônia Filgueiras, de ‘O Estado de S. Paulo’, originando a matéria que desencadeou o caso.


Não há nada semelhante nos Estados. Em particular, não há nada parecido em São Paulo, que, por sua riqueza, teria a obrigação de dar exemplo. Na tentativa de dar a entender que as coisas são diferentes do que de fato são, o secretário de Fazenda do Estado, sr. Mauro Ricardo Machado Costa, declarou à imprensa que as informações relativas à execução do Orçamento paulista seriam públicas, sendo o acesso condicionado apenas a um pedido (embora não haja qualquer sinalização nesse sentido na página de internet da secretaria).


Ato contínuo, em 12 de fevereiro a Transparência Brasil endereçou ofício ao secretário em que solicitava o fornecimento da inteira base de dados do sistema de acompanhamento financeiro do governo do Estado desde que o sistema existe. Até a presente data, o secretário não respondeu.


Em outro episódio recente, a Transparência Brasil enviou a todos os governos estaduais e das capitais, bem como às respectivas Procuradorias Gerais, ofício solicitando informações sobre o volume de precatórios devidos em cada uma dessas circunscrições. Apenas meia dúzia respondeu. Entre estas, a Procuradoria do Maranhão -não para fornecer os dados, mas para requisitar esclarecimentos a respeito de por que queríamos a informação, como se isso fosse da conta deles.


A prática dos hierarcas brasileiros de escamotear informação do público é incompatível com o que se exige do poder público no século 21. Em São Paulo, como no Maranhão e no resto do país, é evidente que o comportamento tem a finalidade de evitar que os atos dos governantes sejam avaliados. Em vez de tratarem a informação como bem público, no máximo usam-na para fazer autopromoção.


Contra isso, é urgente regulamentar tanto o direito constitucional de acesso à informação quanto o dever de publicidade, conforme prometeu duas vezes o presidente da República durante a campanha eleitoral de 2006, uma delas em entrevista a esta Folha. Projeto de lei nesse sentido encontra-se desde aquele ano parado na Casa Civil, sem que se tenha notícia de por que a promessa do presidente não é cumprida.


CLAUDIO WEBER ABRAMO , matemático pela USP e mestre em lógica e filosofia da ciência pela Unicamp, é diretor-executivo da Transparência Brasil, organização dedicada ao combate à corrupção.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


A primavera de 68


‘O ‘New York Times’ destacou o texto ‘No passado de dor, uma preocupação calada por Obama’, sobre a pergunta em torno do democrata, ‘ele está a salvo?’. O passado é ‘a primavera de 68’, quando mataram Martin Luther King -e Bob Kennedy em campanha.


A reportagem foi precedida por ataque a Obama, no site Politico, dizendo que ele esteve uma década atrás na casa de ex-integrantes dos Weathermen, um grupo terrorista dos anos 60. E a reportagem coincidiu com outro ataque a Obama, ontem no Drudge Report, com a veiculação de uma foto em que o democrata se veste como um muçulmano, dois anos atrás, no Quênia.


‘GUERRA CIVIL’


Hillary Clinton foi acusada dos ataques, mas os sites são próximos dos republicanos. De todo modo, ela está em ‘guerra civil’, como havia alertado o colunista Frank Rich no ‘NYT’, e ontem focou a política externa de Obama.


Rich, em nova coluna, deu Hillary quase por derrotada. Ontem à noite, pesquisa da CBS com o ‘NYT’ confirmou que Obama saltou à frente.


‘NÃO É JUSTO’


Já os republicanos, estejam ou não por trás dos ataques a Obama, ‘temem acusações de racismo’ no conflito eleitoral.


Seus ‘estrategistas’ tentam achar ‘o limite para o ataque a candidato de minoria’. Um dos marqueteiros afirmou ao site Politico que as pesquisas qualitativas e outras indicam ‘tarefa delicada à frente’, na campanha. E republicanos já reclamam que ‘não é justo’.


BATENDO PORTAS


O ‘NYT’ destacou o risco de ‘crise’ na Argentina com a recusa do Brasil em ceder parte do gás da Bolívia. Mas o jornal sublinhou que o próprio país é responsável, por ter negado o problema. Quando foi inevitável, cortou o gás que passava ao Chile. Para o otimista argentino ‘Clarín’, Brasil e Bolívia deixaram ‘porta aberta em caso de crise’.


Já o ‘Financial Times’, mais ‘Times of India’, o chinês ‘Diário do Povo’ etc., noticiaram do encontro de Lula e Cristina Kirchner o acordo nuclear, até com submarino.


‘NÃO ESTAVA LIMPO’


O presidente da Petrobras deu longa entrevista a Bob Fernandes no Terra, sobre o furto, e citou entre as ‘lições’: ‘Garantir que o desembarque dos equipamentos aconteça só quando tudo estiver limpo de informações, de dados. No caso, isso não aconteceu’.


Os computadores estavam com os dados de Júpiter.


ÁGUAS PROFUNDAS


O site da Americas Society, instituição de política externa dos EUA, analisa a renúncia de Fidel Castro, mas destaca há dias os ‘problemas em águas profundas’. A saber, a possibilidade de o governo mexicano abrir a Pemex como a Petrobras, ‘que passou a aceitar investidores privados nos anos 70’ e que a Americas Society dá como ‘modelo’.


RICAS PROFUNDEZAS


A descoberta de Tupi abriu uma corrida de reportagens sobre o petróleo e o gás nas ‘ricas profundezas do mar’.


O ‘Wall Street Journal’ deu que é um brasileiro quem ‘desenha para a ONU o mapa econômico dos oceanos’. O capitão reformado Alexandre Albuquerque é o negociador das ‘maiores expansões de território nacional em tempo de paz da memória moderna’.


DANÇA COM OPEP


Já o site CNN Money deu análise dizendo que o ‘Brasil dança com a Opep’ e ‘é sério quanto a se juntar ao cartel’.


Por coincidência, a reunião de chanceles sul-americanos e árabes de Buenos Aires, diz a BBC Brasil, tirou documento de solidariedade à Venezuela no conflito com a Exxon.


HORA DE RECOLAR


Nos enunciados on-line, no Brasil, ‘Investimento estrangeiro bate recorde’, ‘Bovespa volta à casa dos 65 pontos’, ‘Deus ajudou país, diz Lula’. Mas no ‘Financial Times’ o criador dos Brics, Jim O’Neill, se mostra mais humilde diante dos ‘90% de clientes’ do Goldman Sachs que só pensam em recessão. E diz que, China inclusive, não é mais tempo de ‘descolar’, mas ‘recolar’ aos EUA.’


 


CUBA
Laura Capriglione


Nova geração de opositores está na internet


‘‘Ontem, em seu discurso de posse, Raúl Castro disse pretender acabar com algumas gratuidades insustentáveis, referindo-se a itens da libreta de racionamento. A frase me mobiliza a lançar uma proposta. Troco as três libras de açúcar, os 3 kg mensais de arroz e o pacote de café que me dão no mercado racionado por uma dose de liberdade de expressão, alguns gramas de direito de associação, um par de colheres de livre opinião e até por uma porção pequenininha de possibilidade de decidir. Seria o que eu mais teria gostado de ouvir.’


Raúl Castro, desde anteontem o novo chefe de Estado cubano, têm uma nova geração de opositores para enfrentar. Eles põem a cara para fora, comunicam-se via internet, constroem blogs bem-humorados e dizem coisas como a que abre esta reportagem.


A provocação está no blog Geração Y, mantido pela filóloga Yoani Sánchez, 32. Ontem, o blog, em cuja página pode-se ler o perfil de Yoani, conseguiu bater seu próprio recorde em dois anos de existência. Foram 900.000 hits no mês em que ela bateu mais forte no governo -o da renúncia de Fidel.


Nomes com ípsilon


Yoani define Geração Y: ‘É um blog inspirado em gente como eu, com nomes que começam ou contêm ípsilon. Gente nascida na Cuba dos anos 70 e 80, marcados pelas escolas no campo [todos os secundaristas foram mandados para escolas rurais], os bonecos russos, as saídas ilegais e a frustração. Assim é que convido especialmente Yanisleidi, Yoandri, Yusimí, Yuniesky e outros que arrastam seus ípsilons para que me leiam e me escrevam.’


Geração Y é o blog das pessoas que nasceram ou foram educadas na Cuba hegemonizada pelos burocratas russos, bem antes da queda do Muro de Berlim (em 1989).


A reportagem da Folha foi encontrar Yoani em um apartamento construído pelo regime castrista para resolver o problema habitacional na ilha nos anos 70 e 80. Reinaldo Escobar, 61, jornalista e marido de Yoani, trabalhou quatro anos na construção do prédio, no bairro de Novo Vedado, concentração de profissionais de nível superior.


Para subir ao 14º andar, onde moram Yoani, o marido e o filho de 12 anos, tem-se de apertar o 11º andar na botoneira do elevador de fabricação russa. Desce-se no piso 13º e sobe-se mais um andar de escada.


Yoani e seu marido não conseguem emprego fixo. ‘Ele acreditou na glasnost e na perestroika (abertura política e reestruturação econômica) que estavam em vigor na Rússia soviética nos anos 80. Escreveu artigos críticos e perdeu o emprego no ‘Juventud Rebelde’, onde trabalhava. Teve de aceitar um emprego como mecânico de elevadores, onde atuou por três anos.’ Hoje, os dois dão aulas de espanhol para estrangeiros em Havana.


‘Economia de conexão’


O blog Geração Y é chamado de ‘balsa virtual’ por alguns de seus leitores -em referência às balsas precárias que levam cubanos para os EUA. Mas o pessoal é mais bem-humorado do que a tragédia dos ‘balseros’ pode dar a entender. Eles chamam, por exemplo, o presidente venezuelano Hugo Chávez de ‘Ego’ Chávez, Raúl de ‘Hermaníssimo’ e de ‘Castro 2º’.


Yoani diz-se especialista em ‘economia de tempo de conexão’. ‘Eu não navego na internet, não faço pesquisas. Escrevo off-line todo o tempo e só me conecto para pôr meus posts no ar. Um cartão de 6 pesos conversíveis (R$ 12), que me dá direito a uma hora de conexão, permite que eu me conecte seis vezes e ponha no ar seis posts diferentes.’


Na Universidade de Havana, estudantes replicam o blog também off-line, copiando os posts e reproduzindo-os em computadores fora de linha com o auxílio de pendrives. ‘É claro que isso restringe muito o debate. Mas é questão de tempo’, diz Yoani. ‘É impossível controlar a internet.’


A blogueira diz que os dois cybercafés franqueados aos cubanos são uma conquista em favor da livre discussão. Também reconhece que não vem sofrendo ameaças nem intimidações por parte do governo, apesar da transparência de seu blog. ‘Vamos ver até quando dura isso.’


Sobre o futuro imediato e as promessas de Raúl Castro de levantar nas próximas semanas algumas proibições que perturbam a vida dos cubanos, Yoani faz suas apostas: ‘Eles permitirão o funcionamento de algumas pequenas empresas privadas, a compra e venda de automóveis novos [atualmente, só os carros velhos podem ser comercializados], eliminarão a permissão de saída [que impede os cubanos de viajar para o exterior caso o governo não queira] e permitirão que os cubanos se hospedem em hotéis de turistas [hoje, os cubanos só podem se hospedar em colônias de férias vinculadas a suas categorias profissionais]’.


‘Cuba vai mudar’, diz ela. ‘Isso é certo. O problema é que não queremos mais esperar.’’


 


Janio de Freitas


As previsões imprevidentes


‘O DILÚVIO de chavões sob a forma de artigos e de reportagens publicados desde o afastamento de Fidel Castro sugere que a imprensa, inclusive a internacional, não está muito melhor do que Cuba, se Cuba estiver no estado que esse aparente jornalismo lhe atribui. A enxurrada parece ter o propósito de juntar, em uma só descarga, toda a lengalenga das previsões falhadas e das desinformações interessadas que a imprensa reiterou, sem descanso nem pudor, durante o meio século, que vai se completando neste 2008, do regime criado por Fidel Castro (primeiro, regime revolucionário-nacionalista; e só mais tarde, de base comunista).


A palma de ouro não poderia senão permanecer com ‘The New York Times’, que pôs em campo um certo Anthony DePalma. Capaz de frases assim: ‘Não é certo que Fidel esteja bastante bem para ter escrito a carta de renúncia, (…) desconfia-se que ele não teria condições de escrever a série de ensaios’. Eis um jornalista de quem não se desconfia, tem-se logo certeza. Mas merece mais um aperitivo: a ‘pouca evidência nas ruas de uma mudança monumental na hierarquia (…) credita-se à experiência acumulada com a ação dos agentes de segurança, que (…) faz a maioria das reações serem encobertas sob a forma de apertos de mão entre amigos numa rua lotada’. Se os amigos não estivessem se manifestando com aperto de mão na hora tão especial, se esmurrariam ao encontrar-se, como de praxe.


Como rescaldo do dilúvio, as análises sobre a escolha de Raúl Castro para a Presidência cubana são fiéis às previsões diárias de 50 anos sobre Fidel Castro e o regime cubano: em vez de marionete da Rússia, vai sê-lo do irmão, que não quer mudança alguma; se houver novos planos, inspirados na China ou no que for, não têm como concretizar-se. Afinal de contas, informam-nos aqui, em Cuba ‘as famílias lutam diariamente para obter um mínimo de refeições’. O que nos impede de imaginar como esses famélicos têm expectativa de vida de 77,1 anos. Mais do que os tão bem nutridos brasileiros. E o equivalente à expectativa de vida em países desenvolvidos.


Alguma das previsões do último meio século sequer pressentiu a presença do papa João Paulo 2º em Cuba e a recepção que lhe foi dada sob direção do comovido Fidel? Ou antecipou-nos a abertura de Cuba aos investimentos estrangeiros em hotéis, atividades turísticas, empreendimentos imobiliários, moda, recursos naturais, e outros? Ou pressentiu a possibilidade de uso legal do dólar americano em Cuba? Ou, agora mesmo, ao menos captou a renúncia de Fidel? Cuba mudou muito. Com muita rapidez dos anos 90 para cá. E ninguém, fora dos seus níveis de direção política e administrativa, pressentiu mudança alguma.


Estamos na mesma. Apesar de tantos milhares de quilômetros de papel e horas de rádio e TV com previsões analíticas do futuro de Cuba, estamos na mesma: fora dos níveis dirigentes cubanos, nenhum de nós sabe para onde vai Cuba. Se é que neles alguém sabe.


Talvez uma evidência, nada com previsão, possa ter um pouco de utilidade. Muito ao contrário do que está generalizadamente afirmado, a escolha de Raúl Castro não é forçoso sinal contrário a mudanças. O Exército, em Cuba, é considerado a própria alma da ‘Revolução no Poder’, a extensão dos guerrilheiros de Sierra Maestra e, daí, a instituição de mais influência horizontal e vertical. Não consta que alguém, exceto Fidel, tenha mais prestígio e mereça mais confiança no Exército do que Raúl Castro. O que lhe dá, se houver planos de mudanças, sejam quais forem, melhores condições de tentá-las do que qualquer outro teria na Presidência cubana.


A Cuba surgida da Sierra é um fenômeno em muitos sentidos. Entre eles, o de imprevisibilidade, como conviria, radical.’


 


YOUTUBE
Folha de S. Paulo


Aspereza de Sarkozy vira hit na internet


‘O que os franceses chamam de ‘estilo Sarkozy’ tornou-se um inesperado sucesso na internet: 2,7 milhões de pessoas já acessaram o vídeo de 45 segundos em que o presidente francês, sorridente e sem levantar a voz, diz a um agricultor: ‘Some daqui, seu idiota’.


A cena foi gravada no sábado por uma equipe da produtora independente YouPress no Salão da Agricultura de Paris. Depois de discursar, Nicolas Sarkozy, de terno e gravata, deu uma volta pela exposição e foi cercado por curiosos e simpatizantes -67% dos produtores rurais franceses votaram nele em maio do ano passado.


Um expositor vestindo um casaco de couro marrom claro recusou-se a apertar a mão dele e exclamou em voz baixa: ‘Isso não, vê se não encosta em mim’. Sarkozy respondeu baixinho: ‘Dê o fora!’ O agricultor anônimo prosseguiu: ‘Você me suja!’ O presidente então replicou: ‘Some daqui, seu idiota’.


O cinegrafista da YouPress, ao perceber o que tinha em mãos, procurou o jornal ‘Le Parisien’ e vendeu o vídeo, colocado no ar no comecinho da noite. Minutos depois ele já era postado no YouTube.


Em novembro último Sarkozy meteu-se em outro incidente, com um pescador da Bretanha a quem pediu para que pulasse ao cais para explicar uma palavra ofensiva. Foi quando o pescador disse aos gritos: ‘Quando eu descer eu te arrebento’. Os seguranças da Presidência evitaram a agressão. Na época, Sarkozy estava com uma taxa de popularidade bem maior do que agora.


Partidários e adversários do presidente apressaram-se em comentar o incidente de sábado. ‘Ele não transmite uma imagem positiva da função presidencial’, disse a socialista Ségolène Royal, sua adversária no segundo turno de 2007. ‘Ele não passa de um garotinho mal-educado’, disse o líder dos Verdes, Noël Mamère.


A ministra do Ensino Superior, Valérie Pécresse, disse que ‘não se deve extrair polêmicas de uma reação de raiva’. O ministro da Agricultura, Michel Barnier, disse que o presidente fez bem em reagir ao ser agredido verbalmente.


Biógrafos de Sarkozy e jornalistas que o acompanham diariamente dizem que suas reações são por vezes intempestivas e grosseiras. Uma equipe da TV americana ficou chocada quando, ao perguntar sobre seu divórcio -tema que a Presidência não queria abordar-, Sarkozy olhou no fundo dos olhos de seus secretário de Comunicação e sapecou: ‘Velho idiota!’, antes de arrancar o microfone da lapela e interromper a entrevista.


Presidentes como Charles de Gaulle e François Mitterrand tinham o ‘physique du rôle’ -comportavam-se com a altivez de chefes de Estado descendentes do rei Luís 14. Quanto a isso, Nicolas Sarkozy parece estar sendo uma ruptura.’


 


FOTOGRAFIA
Folha de S. Paulo


Getty Images aceita oferta de US$ 2,4 bilhões de fundo


O conselho de direção da agência fotográfica americana Getty Images aceitou uma oferta de aproximadamente US$ 2,4 bilhões da Hellman & Friedman, um fundo de ‘private equity’ (que adquire participações em empresas). O negócio ainda precisa ser aprovado pelos acionistas da Getty Images.


A proposta da Hellman & Friedman, de US$ 34 por ação da agência, é 39% superior ao preço dos papéis da Getty na última sexta-feira -ontem, eles tiveram alta de 29,53%. Em relação à cotação de 18 de janeiro, quando a Getty anunciou que estava ‘explorando opções estratégicas’, a oferta representa um prêmio de 55%.


A agência, uma das maiores do setor, vinha enfrentando forte concorrência de empresas baseadas na internet e do corte no papel por alguns dos principais jornais do mundo.


No último trimestre do ano passado, ela ganhou US$ 28,51 milhões, ante lucro de US$ 30,90 milhões nos mesmos meses de 2006. No mesmo período, sua receita passou de US$ 203,64 milhões para US$ 218,12 milhões.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Economia ameaça jogo milionário na Globo


‘‘Power of Ten’, game que promete a maior premiação da TV, poderá não ser exibido pela Globo por economia. Nos EUA, o game estreou em agosto do ano passado oferecendo US$ 10 milhões (R$ 17 milhões).


Desde o início das negociações com a Sony, proprietária do formato, a Globo já descartava pagar US$ 10 milhões. Esperava-se que a rede oferecesse R$ 1 milhão ao vencedor máximo da atração, que viraria quadro do ‘Domingão do Faustão’, com o nome provisório de ‘Jogo do Dez’. No entanto, a TV quer pagar agora só R$ 100 mil.


O quadro está previsto para estrear em 18 de maio, quando o ‘Domingão’ completa mil edições no ar. O apresentador Fausto Silva já avisou à direção da Globo que se recusará a ancorar o game caso a atração prometa menos de R$ 1 milhão de prêmio máximo.


O motivo alegado para a desvalorização do game é o de que, pagando um superprêmio no ‘Domingão do Faustão’, outros programas da Globo também poderiam exigir mais verbas para suas premiações.


O ‘Power of Ten’ é um jogo de perguntas e respostas baseado em pesquisas. Ganha aquele que responder um número mais próximo ou idêntico ao apurado em pesquisa (por exemplo: qual o percentual de brasileiros que praticam natação?). É, portanto, muito difícil ganhar o prêmio máximo. Nos EUA, a primeira temporada pagou ‘só’ US$ 1 milhão.


LAÇOS A Brainers, a nova produtora de TV de Roberto Justus, ocupará os dois estúdios da GGP, de Gugu Liberato, em Alphaville (Grande SP). O negócio foi fechado anteontem. O primeiro produto será um programa diário para a Band, a ser apresentado por Milton Neves.


HUMILDADE Executivo que assina seus e-mails com um selo que informa que é o ocupante da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Marketing, Walter Zagari, vice-presidente comercial da Record, enviou carta à Associação Brasileira de Propaganda pedindo para não ser indicado ao Destaque Profissional, um dos principais prêmios do setor. ‘É que hoje, na Record, eu não cuido só da área comercial. Estou envolvido na empresa como um todo’, justifica.


SUBIU Deu 12 pontos a transmissão do Oscar pela Globo, um ponto a mais do que em 2007.


CELULAR Parecia um celular, mas era um fone de ouvido o aparelho que Maria Beltrão apareceu usando durante o Oscar. Ela usava o equipamento para ouvir o áudio original e fazer traduções em tempo real. Mas isso não a impediu de confundir Jennifer Garner com Hilary Swank e ‘Across The Universe’ com ‘O Som do Coração’.


REDUNDÂNCIA A melhor gafe do domingo, no entanto, foi da apresentadora Ana Luiza Castro, jurada da ‘Dança dos Famosos’, no ‘Domingão’. ‘A escolha da música do Cartola foi um plus a mais’, disse ela, sem notar que ‘plus’ e ‘mais’ são a mesma coisa.’


 


Cristina Fibe


‘Famosos’ aguçam sentidos paranormais


‘‘Celebridades’ que vêem a fama passar rápido às vezes se desesperam quando os holofotes começam a se apagar. Na ânsia de voltar aos tablóides ou à TV, topam então qualquer coisa que os coloque na posição de ‘estrelas’ novamente.


E vão parar em programas como ‘Celebridades Paranormais’, que o VH1 exibe, em quatro capítulos. ‘Famosos’ -cinco por episódio- saídos de reality shows como ‘American Idol’ (ídolo?) e ‘America’s Next Top Model’ e de antigas séries como ‘Baywatch’, além de atletas e músicos, exploram ‘lugares assombrados’.


Entre os cenários, um hospital para tuberculosos da década de 30, desativado, e um hospício de criminosos abandonado; as cinco ‘celebridades’ chegam lá ao pôr-do-sol, carregando ‘ferramentas de pesquisa paranormal’, como medidores eletromagnéticos, e têm até o outro dia para decidir qual é o ‘coração da assombração’ em cada local -ou seja, onde há maior atividade paranormal- e quem é ‘o condutor’, o participante mais sensível a espíritos.


No primeiro episódio, que estreou ontem e será reprisado hoje e amanhã, o ator Gary Busey leva o título -ele já fez filmes como ‘Chasing Ghosts’ (caçando fantasmas), de 2005. Capítulos inéditos podem ser vistos nas próximas segundas-feiras, às 23h, até o dia 17 de março.


CELEBRIDADES PARANORMAIS


Quando: reprise hoje, às 10h, e amanhã, às 15h


Onde: no VH1′


 


CINEMA
Daniel Bergamasco


‘Só adaptamos o romance de um grande americano’


‘Uma reação tímida, quase fria, estava estampada em Joel e Ethan Coen nos bastidores do Kodak Theater logo após a maior consagração da dupla de irmãos cineastas pela indústria do cinema dos EUA. Com estatuetas em mãos, os americanos haviam acabado de vencer os Oscars de melhor filme, direção e roteiro adaptado por ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’, e ainda tinham visto o espanhol Javier Bardem levar o prêmio de ator coadjuvante pelo longa.


No palco, Ethan havia sido monossilábico: ‘Eu não tenho muito a acrescentar ao que já disse mais cedo. Obrigado’. Joel complementara: ‘Estamos muito gratos a todos vocês por nos deixar a continuar brincando na nossa caixa de areia, então obrigado a todos’.


Nos bastidores da 80ª edição do principal prêmio da indústria do cinema, os Coen seguiram o ritual imposto pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. Na coxia do teatro, posaram para fotos com Martin Scorsese -que lhes entregara o prêmio de direção- e seguiram para uma entrevista coletiva com jornalistas de todo o mundo, incluindo a reportagem da Folha.


Mantiveram sempre o ar blasé e o tom de que nada daquilo era tão importante assim. Fizeram questão de valorizar a obra original que resultou no filme e de elogiar os outros quatro indicados ao prêmio principal da noite: ‘Sangue Negro’, ‘Desejo e Reparação’, ‘Conduta de Risco’ e ‘Juno’.


‘Eu acho que foi um ano especial em termos que -isso parece clichê, mas….- todos os filmes foram muito interessantes para mim pessoalmente, e esse não é sempre o caso’, disse Ethan, 50. ‘Havia filmes fantasticamente bons. Nós só adaptamos o romance de um grande americano, Cormac McCarthy, e tentamos fazer justiça ao livro’, completou.


Sobre a rotina de trabalho da dupla, os cineastas reafirmaram sua filosofia de trabalho, cooperativa, sem hierarquia. ‘Nós sempre fizemos filmes do mesmo jeito. Não há divisão de trabalho. É um esforço colaborativo de cima a baixo. Ninguém manda em ninguém. E é assim que queremos continuar fazendo nossos próximos filmes’, declarou Joel, 53.


Os diretores ainda brincaram com os jornalistas ao comentar a derrota na categoria montagem (para ‘Ultimato Bourne’), em que concorriam sob o pseudônimo de Roderick Jaynes. ‘Nós não falamos com ele [Jaynes] ainda. Nós sabemos que ele está infeliz [por ter perdido o prêmio na categoria], provavelmente não está bem’, ironizou Ethan.


‘É bom, é bom ganhar o Oscar. Quatro prêmios. Está bom’, resumiu Joel.


Triunfo espanhol


O ator espanhol Javier Bardem chegou aos bastidores do teatro sorrindo, beijando a estatueta e falando em espanhol com os repórteres de jornais publicados no idioma. Indicado em 2001 por ‘Antes do Anoitecer’, Bardem foi premiado pela Academia por viver em ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ Anton Chigurh, um matador de aluguel que persegue um homem que porta uma maleta com milhões de dólares achada entre corpos de uma chacina.


O ator não poupou elogios aos diretores. ‘Trabalhar com os irmãos Coen é uma festa. São muito sérios no trabalho e com eles próprios e não criam a sensação quase sacra como alguns diretores na filmagem’, afirmou. ‘Mais importante do que o Oscar é ter feito esse filme, que com certeza me marcou’, declarou Bardem, que completa 39 anos no sábado.


Assim como os diretores, Bardem também exaltou a força de seus concorrentes.


‘Quem deveria ganhar? Não sei. Isso é uma loteria, e eu venci. Não quer dizer que eu sou o melhor de todos, com certeza. […] Neste ano, veja quem estava. Philip [Seymour Hoffman] é para mim um dos atores mais incríveis de todos os tempos.’


O ator, que no palco dedicou o prêmio à sua mãe e ao seu país, ainda voltou às origens: ‘O cinema espanhol tem força, tem muitos talentos’.


O jornalista DANIEL BERGAMASCO viajou a convite do MySpace.’


 


Marcos Nobre


Cara ou coroa no Oscar


‘O GANHADOR do Oscar ‘Onde os Fracos não Têm Vez’ começa com grandes planos que lembram os momentos heróicos dos faroestes. Mas as paisagens vão se tornando melancólicas como a voz do narrador, que diz que a única forma de avaliar a própria vida é se comparar com ‘os velhos’. Justamente aqueles que segundo o título original (‘No Country for Old Men’) não têm mais lugar.


Como os ‘velhos’, também o narrador desaparece sem maiores explicações. Se não há mais um passado com que se comparar, não há também como adotar a máscara do narrador. Não é mais possível contar uma história até o fim.


O filme toma todos os grandes temas e gêneros do cinema sem levar nenhum deles até o fim. O caçador que passa a ser caçado, o faroeste, o filme de ação, o pastelão, o suspense, a violência gratuita, o road movie, cada um parece se configurar e desaparece em seguida.


É possível descobrir quando se passa a ação porque o matador decide jogar a vida de um dono de posto de gasolina em um cara ou coroa. Ele diz que a moeda de 1958 está circulando há 22 anos. Uma das chaves do filme é essa: o apagão político em que nos encontramos começou lá no mundo xiita do governo Reagan. Mas só mostrou por inteiro a sua face agora. E o matador é o seu emblema.


O filme é muito bem-sucedido em desmontar o grande motor ideológico do capitalismo dos EUA, o acaso. A única esperança de se dar bem na vida é um lance de sorte, é agarrar-se a uma oportunidade. Por isso é também um país obcecado por conspirações: elas são a contrapartida lógica da crença no domínio universal do acaso. Daí o sucesso de um Michael Moore.


‘Onde os Fracos não Têm Vez’ desmonta essa alternativa entre o sem sentido completo do acaso e a explicação completa da conspiração. O matador se apresenta como agente da morte, como agente do acaso. Mas ele mesmo, na sua conduta, segue princípios rígidos e inflexíveis.


Nesse momento surge uma tênue esperança. Paradoxalmente, a maior fraqueza do filme também. Voltando do funeral de seu marido e de sua mãe, a mulher encontra o assassino em sua casa. Uma vez mais ele propõe um cara ou coroa.


Ela se recusa a jogar. Diz que não é o acaso quem decide. É ele. Ou seja, há uma pessoa de carne e osso tomando decisões. As decisões poderiam ser outras.


Mas aí é que está o segredo: não é de fato uma pessoa, um indivíduo que está tomando decisões. Também o matador segue um mecanismo que ele não compreende. Ele apenas executa, nos dois sentidos da expressão.


Talvez essa tênue esperança possa explicar por que um filme tão bom ganhou o Oscar.’


 


Sérgio Rizzo


No palco, ex-hippies pareciam republicanos


‘Entrevistado pela CNN às vésperas da cerimônia de entrega do Oscar, o ator inglês Ben Kingsley explicou por que não gosta de acompanhar a transmissão. ‘Não é um show sobre um vencedor, mas sobre quatro derrotados’, disse ele.


Kingsley experimentou o sabor da vitória por ‘Gandhi’ (1982) e sentiu o da derrota por ‘Bugsy’ (1991), ‘Sexy Beast’ (2000) e ‘Casa de Areia e Névoa’ (2003).


De fato, há uma dose de sadismo na exposição dos cinco indicados, em suas poltronas, confortados pelos acompanhantes enquanto aguardam a abertura do envelope com o resultado. Só escapa do constrangimento quem prefere ficar em casa, como Woody Allen fez nas 21 ocasiões em que disputou o prêmio (com três vitórias), e acaba substituído por uma foto no mosaico dos rostos em disfarçada expectativa.


O apelo funciona apenas para figuras que o espectador seja capaz de reconhecer, o que reduz o show dos derrotados às categorias dos atores e direção. Se é o que no fundo interessa, talvez seja a hora de a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se inspirar no enxuto prêmio do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores, e abreviar a cerimônia para manter a audiência.


Ritmo apressado


Foi notável o esforço, neste ano, para apressar o ritmo e reduzir ao máximo os tempos vazios provocados pelos prêmios obscuros. Ainda assim, a quantidade de categorias e a enfadonha apresentação das canções indicadas tornaram muito difícil a compactação. Para complicar, a greve dos roteiristas espremeu em duas semanas o período de redação do programa e expôs um acabamento mais bruto do que o habitual.


Paralelamente, havia o 80º aniversário a comemorar com a apresentação de quadros especiais. A tentativa de reverenciar os ídolos do passado enquanto se valorizavam os do presente deu a impressão de que o conceito da cerimônia deste ano foi trabalhado de maneira apressada, sem que as conexões entre uma coisa e outra sustentassem todo o programa.


Não deixa de ser curioso que essa estrutura solene e anacrônica, sobretudo para o espectador jovem do século 21, tenha ainda o poder de se sobrepor a qualquer ameaça de rebeldia, por mais comportada que seja.


Foi o Oscar dos irmãos Coen, os responsáveis por filmes dissonantes como ‘Gosto de Sangue’ (1984) e ‘O Grande Lebowski’ (1998). No entanto, no palco, eles pareciam ex-hippies que se transformaram em republicanos e trabalham em Wall Street.


Cabe a novos talentos como Diablo Cody, a tatuada roteirista de ‘Juno’, apontar no futuro para um outro cenário, em que as piadas políticas do apresentador não sejam o único respiro de vida em um ambiente com cheiro de naftalina. Afinal, o negócio deles não é o show business?’


 


Daniel Bergamasco


‘Nunca me envergonhei de ser stripper’


‘No Oscar que se seguiu à longa greve dos roteiristas de Hollywood, a vencedora por melhor roteiro original, de vestido de oncinha com decote por todos os lados e tatuagens à mostra, foi tão fotografada no tapete vermelho quanto os indicados a melhor ator e atriz.


Trata-se da ex-stripper Diablo Cody, 29 anos, criadora de ‘Juno’, filme sobre uma adolescente que engravida aos 16 anos e se compromete a entregar o bebê a um casal, que acabou indicado a melhor do ano. Diablo Cody -pseudônimo de Brook Busey, nascida em Chicago- fala de seu passado com bastante naturalidade.


‘Não, não, nunca fui dançarina’, disse a um repórter que perguntou o que mudou desde seu passado na dança. ‘Eu era stripper. Infelizmente, não consigo dançar. Adoraria, mas… Olha, vocês podem me lembrar que fui stripper, não é um problema’, disse ela, na sala de imprensa localizada nos bastidores do Kodak Theatre, em Los Angeles.


A Folha participou de duas entrevistas com ela: no sábado, quando venceu na categoria de roteirista estreante no Independent Spirit Awards, e no domingo, no Oscar, onde ela foi a única vencedora aplaudida pelos funcionários ao surgir no corredor do teatro com o troféu na mão. Abaixo, os principais trechos das duas entrevistas.


‘JUNO’ – O filme é um sucesso agora, mas tem uma idéia simples. Quem, dois anos atrás, pensaria que um filme sobre uma adolescente grávida faria todo esse sucesso e concorreria ao Oscar? Grande parte do mérito é da Ellen Page [protagonista, indicada a melhor atriz], que foi tão perfeita nesse filme. Ela é tão boa atriz que tem gente que ficou achando que ela é igual à Juno, e ela não tem nada a ver com a personagem.


STRIPPER – Olha, vocês [jornalistas] podem me lembrar que fui stripper, não é problema. Eu nunca me envergonhei de ser stripper e entendo que vocês tenham curiosidade. É meu passado, minha história. E hoje estou aqui recebendo o Oscar. Eu sou quem eu sou. Tudo se completa. Hoje tenho outra profissão, mas me lembro bem de onde eu vim.


PERSONAGEM – Não, não, imagine, eu nunca escreveria um filme sobre minha vida. Seria tão bobo que não acreditariam que sou eu.


FUTURO – Agora eu quero escrever. É um grande prazer, vocês não têm idéia. Ganhar prêmio me deixa muito feliz e incentivada, mas a principal alegria foi fazer o filme, vê-lo pronto, na tela. É essa alegria que quero viver mais vezes.’


 


***


Sarkozy elogia Oscar para atriz de ‘Piaf’


‘O inesperado Oscar de melhor atriz para a francesa Marion Cotillard, 32, por sua atuação como a personagem-título de ‘Piaf – Um Hino ao Amor’, foi recebido ontem com saudações do presidente da França, Nicolas Sarkozy.


‘Marion Cotillard encarna uma Edith Piaf de surpreendente realismo, emoção e paixão. Com sua interpretação, reaviva diante de nossos olhos a trajetória daquela que deu à canção seu título de nobreza e de autenticidade, aquela que também uniu estreitamente França e Estados Unidos’, disse Sarkozy, em comunicado.


Cotillard, que havia vencido o Globo de Ouro, o britânico Bafta e o francês César pelo mesmo papel, se mostrou visivelmente surpresa e emocionada (chegou a chorar na saída do palco) por sua vitória anteontem, superando a favorita Julie Christie (por ‘Longe Dela’).


Numa noite que deu os quatro troféus de interpretação a atores europeus, ela se tornou a primeira francesa a vencer um Oscar de melhor atriz -antes dela, a alemã radicada na França Simone Signoret ganhara em 1960 por ‘Almas em Leilão’.


O fato não mereceu maiores considerações por parte do britânico Daniel Day-Lewis, favorito e vencedor como melhor ator por ‘Sangue Negro’. ‘Não sei o que dizer. Há atuações maravilhosas por parte de atores dos Estados Unidos. Suponho que seja um fenômeno, mas não sei se há sentido em destacá-lo’, disse.


Declarando-se ‘absolutamente encantado’ por seu segundo Oscar na categoria (venceu por ‘Meu Pé Esquerdo’, em 1990), Day-Lewis elogiou seus concorrentes, com destaque para George Clooney, que ganhou um beijo antes do britânico subir ao palco. ‘Eu tinha que beijar alguém.


Eu beijei minha esposa, então, em nome da paridade, eu tive que beijar George’, disse.


Um repórter perguntou se, fazendo sempre papéis sérios no cinema, ele faz algo para se divertir na vida particular. Rindo, rebateu: ‘O mais legal é que não tenho que falar sobre isso. Porque não é da sua conta’.


Com DANIEL BERGAMASCO, enviado especial a Los Angeles, e agências internacionais’


 


 


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