Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > MÍDIA & CIÊNCIA

Atos falhos de um ateu

Por Gabriel Perissé em 15/12/2009 na edição 568

A linguagem pode dizer mais do que queremos, ou o contrário do que gostaríamos. Não temos controle absoluto sobre o que falamos e escrevemos. Aliás, não temos controle absoluto sobre nada. Vamos administrando nossas palavras dentro das possibilidades.

Ler bem consiste em superar a ‘leitura deslizante ou horizontal’, como explicava o filósofo espanhol Ortega y Gasset, substituindo-a pela ‘leitura vertical, a imersão no pequeno abismo que é cada palavra, fértil mergulho sem escafandro’.

Tudo o que lemos pode e deve passar por esse crivo. É preciso ter fôlego, manter a mente alerta e aberta, tornar-se leitor das entrelinhas, intérprete, para que as informações não se tornem ‘enformações’ (aprisionamento em fôrmas) e as opiniões e crenças dos que têm acesso a espaços da mídia sejam ocasião para pensarmos por conta própria (como se fosse legítimo pensar um pensar ‘por conta alheia’!).

Crença e linguagem

Um dos desafios do físico Marcelo Gleiser, articulista da Folha de S.Paulo, tem sido traduzir em linguagem compreensível para o leitor comum (e vem realizando esta tarefa de divulgação com maestria), princípios e conceitos científicos. O risco está em desdizer com o texto, por força da simplificação didática, aquilo em que pensa.

Embora não seja cientista ateu radical (aquele tipo de ateu que se torna tão ou mais intolerante do que os mais intolerantes religiosos), Marcelo Gleiser se posiciona como não crente em Deus, conforme revelou em sabatina promovida pela Folha em 26/06/2005:

‘Eu não acredito em Deus. Acredito que coisas maravilhosas podem ser criadas com base apenas nas leis da natureza.’

Somemos estas palavras a uma passagem de seu mais recente artigo ‘A vida e as rochas’ (Folha, 13/12/2009):

‘Se os seres unicelulares deram origem, ao mesmo tempo, tanto à complexidade da vida quanto à complexidade dos minerais, a hipótese de que a Terra, como um todo, é, de certa forma, uma criatura viva, ganha força.’

‘Criar’ e ‘criatura’ destoam deste contexto. São termos impregnados de ideias religiosas: a rigor, criatura pressupõe Criador, ou não faz sentido chamar-se ‘criatura’. E se os seres unicelulares criaram… quem os teria criado?

O advérbio ‘apenas’ denuncia, na declaração da sabatina, uma redução que é fruto de crença. O autor afirma não acreditar em Deus, mas usa o mesmo verbo ‘acreditar’ em relação às leis da natureza. Crê, portanto, mas crença não se explica cientificamente…

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Doutor em Educação pela USP e escritor – www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/12/2009 Felipe Faria

    há muito Marcelo Gleiser deixou de ser um cientista para ser um propagador, um propagandista, da ciência. De boa aparência e fala fácil, foi tirado dos meios científicos para os meios midiáticos, tendo que necessariamente mudar a linguagem. O rigor exigido pelos cientistas sérios foi para o ‘beleléu’.
    Em progama radifônico talvez uma década atrás, onde relatava a teoria de origem da água na terra, que teria vindo dos cometas outrora abundantes que ao se chocarem na superfície do planeta preencheriam os oceanos.
    Até que no fim ele me sai com a seguinte frase:
    – Bem, pessoal, é bom lembrar que a água da terra é finita, pois não há mais tantos cometas que se chocam com a Terra. Assim, toda vez que vocês forem tomar banho, economizem água , pois ela é um bem precioso, ( tal e tal…).
    Não resisti e escrevi uma carta a radio perguntando como é que o Marcelo consegue devolver a água de seu banho para o espaço sideral, pois tal tecnologia deveria ser muito útil para a Nasa e para futuros exploradores espaciais.
    Claro que a resposta foi evasiva, não é nada disso. De qualquer modo, o forte dele não é o rigor com as palavras. E muito menos entende de origens da vida na Terra, tudo chute.

  2. Comentou em 23/12/2009 Felipe Faria

    há muito Marcelo Gleiser deixou de ser um cientista para ser um propagador, um propagandista, da ciência. De boa aparência e fala fácil, foi tirado dos meios científicos para os meios midiáticos, tendo que necessariamente mudar a linguagem. O rigor exigido pelos cientistas sérios foi para o ‘beleléu’.
    Em progama radifônico talvez uma década atrás, onde relatava a teoria de origem da água na terra, que teria vindo dos cometas outrora abundantes que ao se chocarem na superfície do planeta preencheriam os oceanos.
    Até que no fim ele me sai com a seguinte frase:
    – Bem, pessoal, é bom lembrar que a água da terra é finita, pois não há mais tantos cometas que se chocam com a Terra. Assim, toda vez que vocês forem tomar banho, economizem água , pois ela é um bem precioso, ( tal e tal…).
    Não resisti e escrevi uma carta a radio perguntando como é que o Marcelo consegue devolver a água de seu banho para o espaço sideral, pois tal tecnologia deveria ser muito útil para a Nasa e para futuros exploradores espaciais.
    Claro que a resposta foi evasiva, não é nada disso. De qualquer modo, o forte dele não é o rigor com as palavras. E muito menos entende de origens da vida na Terra, tudo chute.

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