Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Balzac e o Nobel

Por Marcos Nobre em 14/10/2009 na edição 559

Muito se discutiu sobre se Obama merecia ou não o Prêmio Nobel da Paz. Acho que esse prêmio tem pouca coisa que ver com merecimento. É política mesmo. E são políticas as razões da premiação.


O momento é de transição. A liberalização econômica dos últimos 30 anos primeiro minou a base do antigo bloco soviético. A partir de 1989, juntou-se ao rótulo ‘globalização’ para prolongar de maneira artificial a Guerra Fria em favor da supremacia dos EUA. Até o limite brutal do governo de George W. Bush e de uma crise econômica como há muito não se via.


Muita gente pensa a transição atual por analogia à transformação do início do século 20, quando a Inglaterra perdeu progressivamente o lugar de potência hegemônica em favor dos EUA. O enfraquecimento do dólar seria o indício mais claro de que um substituto já estaria à vista. Ou pelo menos seria indício de que os EUA deixariam sua posição de supremacia em favor de um novo multilateralismo. O problema é saber quem seria esse substituto (as bolsas de apostas dão a China como favorita). Ou quais seriam os países em condições de participar desse cartel multilateral do poder mundial.


Sem substituto 


Nesse ponto, talvez só mesmo Balzac possa ajudar. Lá da primeira metade do século 19 vem a digressão registrada em seu romance A Falsa Amante:




‘Digamos de passagem que a Polônia poderia conquistar a Rússia pela influência de seus costumes em lugar de combatê-la pelas armas, imitando os chineses, que acabaram chinesizando os tártaros e que chinesizarão os ingleses, como se deve esperar’.


Essas esperanças francesas de Balzac foram frustradas, e os ingleses acabaram vencendo os chineses pelas armas em 1842. A Inglaterra tornou-se a principal potência mundial da época. E o verbo ‘chinesizar’ (ou ‘sinizar’) é ocorrência raríssima. Ao contrário de ‘americanizar’, como se sabe.


Balzac errou, mas estava certo. A vitória pelas armas é incontestável, mas a conquista pelos costumes é essencial a qualquer império. E isso distingue essencialmente a hegemonia dos EUA de qualquer outra. Para além da superioridade bélica, os EUA alcançaram uma hegemonia cultural e civilizatória sem precedentes. Sua pretensão é a de universalizar um way of life. Não é por acaso que o inglês se tornou língua franca.


Não existe substituto à vista para essa hegemonia. Nem a economia mundial vai conseguir sair da crise sem que os EUA se recuperem. O Nobel para Obama é reconhecimento e reafirmação da supremacia dos EUA. Mas com o pedido de que, se possível, sejam mais delicados no trato.


***


Comentário de Alberto Dines no programa televisivo do Observatório da Imprensa, exibido em 13/10/2009:


Contrariando o entusiasmo com que foi recebida a concessão do Nobel da Paz ao presidente Barack Obama, jornalistas daqui e do exterior alegaram que o prêmio é prematuro, por enquanto os esforços de Obama ainda não teriam frutificado. Este é um tipo de jornalismo burocrático, não-participativo. A busca da paz é sempre um processo lento e coletivo. Se a mídia não consegue enxergá-lo, fica fora dele. Premiar intenções é o primeiro passo para produzir resultados.

******

Colunista da Folha de S.Paulo

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