Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FEITOS & DESFEITAS > POLÍCIA & CULTURA

Beletrismo na chefatura

Por Luís Francisco Carvalho Filho em 24/08/2010 na edição 604

Alguém imagina uma revista de cultura editada por policiais? Investigações, do departamento de investigações da polícia de São Paulo, circulou mensalmente entre janeiro de 1949 e março de 1954. O editorial de lançamento deixa claro: ‘Não se trata de uma publicação feita pela Polícia e para a Polícia’.

António Soares Amora, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, escreve sobre ‘investigação crítica’. Menotti del Picchia, sobre ‘banditismo caipira’. Sérgio Milliet trata de edições raras de ‘As Flores do Mal’, de Baudelaire. O vulcanólogo Fiore de Cropani, catedrático da Universidade de Catânia (Itália) e contratado para lecionar história natural na USP, disserta sobre ‘pressão atmosférica e a hora da morte’.

Historiadores, críticos literários, juízes e professores misturam-se a delegados oriundos do Estado Novo [1937-45], com o propósito nítido de conferir prestígio e verniz intelectual à instituição.

Provincianismo

São 52 edições. Para entender esse pequeno fenômeno editorial é preciso olhar para São Paulo na metade do século 20. Uma cidade com cerca de 2 milhões de habitantes, cenário do movimento modernista, mas um ambiente cultural sobretudo provinciano e que ainda girava em torno da Faculdade de Direito. A revista Clima, editada por jovens críticos como Antonio Candido e Décio de Almeida Prado, não circulava mais. Os concretistas e o ‘Suplemento Literário’ de O Estado de S. Paulo ainda estavam por aparecer.

A polícia se debatia em torno de um formato institucional mais adequado ao liberalismo que sucedeu ao regime de Getúlio Vargas. Caminhava para a profissionalização e o desenvolvimento de técnicas científicas, mas ainda prevaleciam critérios pessoais e políticos de promoção e remoção. O primeiro concurso público para ingresso na carreira de delegado só aconteceu em 1946. A Guerra Fria manteve o Deops, a polícia política, como organismo operante.

Contradição que a revista não oculta. Ao mesmo tempo que se divulgam textos focados no que era novidade, como o existencialismo de Sartre, e para estimular o conhecimento da história, da literatura e da psicanálise como instrumentos de compreensão do crime. Investigações revela também um viés de direita em artigos como ‘A missão defensiva da polícia em face do comunismo’. E se o cronista carioca Luís Martins, terceiro marido de Tarsila do Amaral, trata do ‘Mundo tenebroso de Balzac’, um juiz pode falar dos ‘Fatores da decadência moral’, entre os quais se destaca a vaidade feminina…

Coruja

O crime é o ponto de concentração: novelas policiais, contos de fadas, vida e obra de escritores como Dostoiévski, Camilo Castelo Branco e Flaubert, criminosos célebres e processos tormentosos, casos pitorescos. Na contracapa, sempre, a impressão de uma vinheta – uma vigilante coruja que pousa na lombada de um livro entreaberto, ao luar.

De interesse estritamente técnico, há estudos sobre métodos periciais, textos doutrinários de juristas que se tornariam importantes, como Heleno Fragoso, notícia de controvérsias que permanecem atuais, como o uso desnecessário de algemas ou a transmissão, pelo rádio, dos trabalhos do júri, e artigos estrangeiros, como o de John Edgard Hoover, diretor do FBI, sobre ‘A execução da lei e a tradição democrática’.

Em meio à transcrição de normas administrativas, movimentação de funcionários, pareceres e decisões judiciais, a revista reproduz, em papel cuchê, telas de artistas conhecidos, como Volpi, Quirino da Silva, Rebolo, Mugnaini, Bonadei, Takaoka.

Tem o hábito de trazer notas sobre crimes contra museus e coleções de arte: Picassos, Matisses ou Van Goghs falsos, em circulação na Europa, obras de Degas desaparecidas, artigo sobre ‘Um roubo no museu do Ipiranga’.

Todos os números de Investigações são ilustrados pelo pintor italiano Mick Carnicelli (1893-1967), que em 2004 teve a exposição ‘São Paulo, Paisagem da Alma’ montada no Museu de Arte Moderna. Além de retratos de escritores e personagens, realizados a partir de fotografias e quadros, Carnicelli desenha para Investigações o ‘lobisomem’, a ‘casa de Oscar Wilde’, a ‘Scotland Yard’ e as vistas da cidade que são sua marca.

Delegados editores

A espinha dorsal da revista são três delegados de polícia com uma notoriedade que extrapola o recinto das delegacias.

Artur Leite de Barros Júnior (1892-1962) figura no expediente como redator-chefe até se aposentar, em 1951. Integrante de uma família ilustre de Campinas, nomeado delegado em 1925, ficaria conhecido como policial já no ano seguinte, ao comandar cerco que culminou com uma das prisões do lendário ladrão Gino Meneghetti. Foi secretário de Segurança Pública, responsável pela repressão de esquerdistas e opositores ao regime de Vargas.

Seu perfil é traçado na biografia de Adoniran Barbosa, de Celso de Campos Jr. Em 1948, Leite de Barros estava na mídia como apresentador do programa da rádio Record ‘O Crime não Compensa’, inspirado no sucesso norte-americano ‘Crime Does Not Pay’, ambos patrocinados pela multinacional Colgate-Palmolive. Transmitido nas noites de sexta-feira, fazia a dramaturgia de casos reais com a participação de artistas como Randal Juliano e Nair Belo. Adoniran era escalado para fazer a voz do bandido.

João Amoroso Netto (1910-63), antes de ser redator-chefe de Investigações, figurava no expediente como secretário. Nomeado delegado em 1933, ocupou cargos estratégicos, como as delegacias de Roubo e de Capturas. Em 1951, foi designado para o serviço de radiodifusão da Secretaria de Segurança Pública, que transmitia diariamente o boletim ‘A Polícia Entra no Ar’. Dirigiria, depois, o escritório da Interpol no Brasil.

Autor do livro Dioguinho, bandido que assombrou o interior de São Paulo no final do século 19, Amoroso Netto colecionava periódicos antigos. Foi dono da única coleção conhecida de Diabo Coxo (1864, Luiz Gama e Agostini) e que hoje pertence ao acervo de obras raras da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Publica uma série de 17 artigos para Investigações, com ‘apontamentos para a história da polícia em São Paulo’.

Raimundo de Menezes (1903-84) nasceu no Ceará. Mais conhecido como escritor do que como policial, foi nomeado delegado em 1929. Autor do Dicionário Literário Brasileiro, o mais completo do gênero, entraria para a Academia Paulista de Letras e ganharia o Prêmio Jabuti de 1984 pela biografia de José de Alencar. Para a revista, prepara dezenas de artigos com intenções literárias e históricas, como os do duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, do divórcio de George Sand ou o do suicídio de Raul Pompeia.

Beletrismo

A revista era impressa em tipografia do próprio departamento de investigações, na rua do Hipódromo. A assinatura anual custava Cr$ 100,00. Um anúncio de página inteira, Cr$ 1.000,00. Os anunciantes, não tão frequentes, eram de lojas de armas e munições, como a Casa Leghorn, hotéis e até jornais, como o Diário Trabalhista, ‘vibrante matutino que se edita na capital da República’. Dificuldades financeiras comprometeram a regularidade da distribuição em alguns momentos.

Apogeu e réquiem de uma geração de bacharéis ilustrados que comandou a polícia de São Paulo e que não se incomodava com o que acontecia nas carceragens, ‘Investigações’ não é de vanguarda. O objetivo é o beletrismo, é fortalecer a autoestima da corporação. O ex-prefeito Prestes Maia, ao escrever para a revista sobre planos urbanísticos, diz que o fazia em atenção a estes ‘distintos moços que redimem seus pecados policiais por uma notável dedicação literária’.

Investigações hoje só é encontrada em algumas bibliotecas ou em sebos, os volumes esparsos. A revista faz parte de uma cidade que não existe mais, sensivelmente menos violenta. A profissionalização policial se consolidou (e nem poderia ser diferente) e este impulso ingênuo de cultura desapareceu. A coleção é um manancial inestimável para compreender o que era a polícia há 60 anos e o que dela se fez.

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