Terça-feira, 28 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE VEJA

Boa escola, ‘mas’ criacionista

Por Michelson Borges em 11/09/2007 na edição 450

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) nº 9.394/96 estabelece que os alunos devem criticar objetivamente as teorias científicas como construtos humanos de representação aproximada da realidade, e que essas teorias estão sujeitas a revisões e até descarte, e que o ensino médio tem entre suas finalidades habilitar o educando a ser capaz de continuar aprendendo, a ter autonomia intelectual e pensamento crítico.

Fui professor de História num colégio adventista em Florianópolis, hoje sou editor na Casa Publicadora Brasileira (editora adventista) e posso garantir que tanto nas aulas quanto em nossos livros didáticos cumprimos o que recomenda a LDB, uma vez que estimulamos o pensamento crítico dos alunos ao apresentar-lhes os dois modelos das origens e permitir que façam comparações e identifiquem as insuficiências epistêmicas do darwinismo. A rede educacional adventista cultiva altos índices de aprovação de seus alunos em vestibulares, o que significa que esses estudantes conhecem suficientemente as idéias evolucionistas.

Segundo a Dra. Marcia Oliveira de Paula, professora de Biologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), ‘a teoria da evolução deve ser ensinada nas escolas, já que essa teoria é aceita pela comunidade científica atualmente para explicar as origens. Porém, o aluno deve ser esclarecido sobre as bases da teoria e sobre suas limitações. O estudante deve conhecer a teoria da evolução, mesmo que decida não se posicionar a favor dela’.

As escolas adventistas fazem isso. Mas a revista Veja, em sua reportagem ‘Graças a Deus – e não a Darwin’, de Marcos Todeschini e Camila Antunes (edição nº 2025, de 12/09/07), apesar de reconhecer que ‘algumas das escolas adventistas já aparecem entre as melhores do país nos rankings de ensino do MEC’, sugere que há certo obscurantismo por parte do sistema educacional adventista, pelo simples fato de ali se ensinar de acordo com a LDB.

Difusão de valores

A Dra. Marcia garante que seus alunos aprendem todo o conteúdo de evolução como em qualquer outra universidade. ‘Nas aulas de Evolução eu não ensino criacionismo. Ensino evolução de forma crítica. Ou seja, discutimos os pontos fortes e fracos da teoria. Os alunos do Curso de Ciências Biológicas do Unasp têm, além da disciplina Evolução, duas disciplinas denominadas Ciência e Religião e Ciência das Origens (2h semanais cada). Nessas disciplinas se discute a interação entre ciência e religião, sendo feita uma comparação crítica entre as especulações da ciência sobre as origens com as idéias da visão de mundo teísta cristã.’ Ela diz ainda que ‘temos questionamento de ambas as partes, tanto de alunos que se consideram criacionistas como dos que se consideram evolucionistas. Por outro lado, há espaço nas aulas de Ciências das Origens para que eles possam também questionar o criacionismo’.

Mesmo assim, numa evidente demonstração de desconhecimento de causa, os autores do texto da Veja afirmam que ‘os estudantes são apresentados, sem nenhuma espécie de visão crítica, à explicação criacionista do mundo, segundo a qual homens e animais foram criados por Deus, tal como está na Bíblia’. E sentenciam: ‘Esse, sim, é um evidente atraso.’

Veja reconhece também que ‘são 318 dessas escolas [adventistas] no país, com 37% mais alunos do que dez anos atrás [em contraste com a estagnação da rede educacional católica]. Elas sobressaem em meio a milhares de outras não só porque proliferam rapidamente, mas também por seu bom nível acadêmico’. Segundo especialistas consultados pela revista, ‘um dos fatores que impulsionam essas e as outras escolas religiosas que dão certo no Brasil são valores que os pais acreditam ver nelas reunidos. É algo difícil de mensurar, mas foi bem mapeado por uma nova pesquisa que ouviu 15.000 pais de estudantes brasileiros de colégios religiosos. Ao justificarem sua escolha por uma escola confessional, eles foram específicos: acham que esses colégios são mais capazes de difundir valores `éticos´, `morais´ e `cristãos´ (mesmo que eles próprios não sejam seguidores de nenhum credo)’. Tanto é que, segundo a reportagem, 70% dos estudantes matriculados em escolas adventistas não seguem a religião.

Chance perdida

Veja não perde a chance de incensar Darwin, ao afirmar que ‘historicamente, o criacionismo vigorou no meio acadêmico até o século 19, quando foi superado pela teoria da evolução de Charles Darwin, que pela primeira vez esclareceu a origem dos seres vivos com base em evidências científicas’.

A afirmação é exageradamente triunfalista e, em seu blog Desafiando a Nomenklatura Científica, o coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, Enézio de Almeida Filho, tece o seguinte comentário:

‘Apesar de a teoria da evolução de Darwin ser aceita a priori entre os cientistas para explicação da origem e evolução da vida, ela não é assim uma `Brastemp´ cientificamente. Darwin não esclareceu a contento `a origem dos seres vivos com base em evidências científicas´, tanto é que discutimos desde 1859 até hoje a vera causa do mecanismo evolutivo. [Dizem que a evolução é um fato], mas não sabemos até hoje o que provoca esse processo evolutivo.

‘Todeschini e Antunes nunca leram o Origem das Espécies. Se tivessem lido, saberiam que Darwin com as suas múltiplas especulações transformistas lidou mais com variações, tanto que o livro mereceria melhor o título de Origem das Variações. Segundo Ernst Mayr, o último papa evolucionista, o livro é muito confuso e não explica o que se propôs: a origem das espécies.’

A matéria de Veja também diz que ‘em escolas de estados mais conservadores nos Estados Unidos, ainda hoje o criacionismo predomina – e Darwin é banido do currículo’. Mas Enézio, que é mestrando em História da Ciência pela PUC e também fez pós-graduação nos Estados Unidos, contesta:

‘Todeschini e Antunes generalizaram demais, e não identificaram as escolas e nem tampouco os `estados conservadores´. Darwin continua sendo ensinado nas escolas americanas até nesses estados `mais conservadores´ por força de decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos no fim da década de 1980.’

Veja perdeu a chance de publicar uma reportagem neutra e puramente informativa, nos moldes do bom jornalismo. Então, fica para a próxima.

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Jornalista; www.michelsonborges.com

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/11/2009 Noemário Araújo Maciel

    após ler a maioria dos comentários, percebe-se que todos tem procurado defender aquilo em que acreditam, e isso é válido. porém, o fórum poderia ser mais respeitoso e tolerante!
    penso também que as duas teorias devem fazer parte do currículo escolar e serem tratadas de igual maneira pela mídia e meios acadêmicos deixando com as pessoas o direito de tomar partido por uma delas ou não.

  2. Comentou em 14/09/2007 Laura Cardoso

    Discordo totalmente de você, Sr. Rogério Ferraz. Eu também acredito em Deus, mas não acredito que ele tenha criado o ser humano já pronto, tal como somos hoje e como é citado na bíblia. Isso a ciência já demonstrou. O evolucionismo não trata exatamente da origem da vida, mas sim da origem das espécies. O próprio Vaticano já aceitou o evolucionismo como válido e o trata como bem mais do que uma simples teoria.

  3. Comentou em 14/09/2007 Paulo Bandarra

    Caro Rogério Ferraz Alencar, você realmente é um número! Eu estou mais preocupado como é que descobriram o nome correto do SOL, o primeiro deus primitivo que iluminou a humanidade! Partindo daí, se começa a procurar os outros nomes! Caro advogado Ricardo Camargo, peço vênia para a menção da falácia, mas se referia aos outros comentaristas que já tinham usado outros exemplos semelhantes! Não entendi a sua alusão ao deísmo, pois o mesmo não é criacionista. O fato Dele ter criado o Universo, não faz Dele o desenhista (ou teria desenhistas especializados)! Ao criar as leis iniciais, daria movimento a coisa toda acontecendo automaticamente! E não adianta degolar cordeiros em holocausto que nada resultara! (Seria bom ein? Degola uma ovelha e cura o câncer) Como eram Lessing, Voltaire, Thomas Jefferson, Fichte. No teísmo que a origem da vida tem que ser pessoal, manual, presente pelo demiurgo! Desculpe-me se não concordo nem um pouco que seja válido queimar na fogueira pela própria idéia de metempsicose! Não melhorou nem um pouco o ato facínora praticado!

  4. Comentou em 13/09/2007 Ricardo Camargo

    Tomando em consideração a paixão dos debates travados, eu – como deísta, que Galileu nunca deixou de ser (e eu tive a oportunidade de ler os Discorsi quando estava elaborando um estudo sobre Hobbes) – gostaria de lembrar ao Dr. Bandarra de duas coisas: 1) não se pode dizer que a expulsão da idéia de Deus tena engendrado na URSS, na China e em Cuba regimes preservadores das liberdades públicas – e refiro este fato considerando seu sempre afirmado anti-comunismo, para mostrar que, pelo menos uma das suas premissas é falsa, isto é, a de que todas as experiências ditatoriais têm uma base deísta -; 2) filosoficamente, não há como derivar os conceitos do Bem e do Mal, do honesto e do desonesto tão-somente da Razão, porquanto o estabelecimento de uma determinada tábua de valores envolve sempre uma escola baseada em crenças. Esta lição, por sinal, foi colhida em um dos grandes sábios do Iluminismo cuja obra gosto de consultar amiúde, Benedictus de Espinosa (ou Baruch Spinoza, como quiser).

  5. Comentou em 13/09/2007 Paulo Bandarra

    Interessante o seu argumento, caro Michelson Borges, ao negar que tudo de mal que foi feito nada foi feito pelos seguidores das verdades bíblicas. Todos eram falsos, apenas humanos degenerados, impostores. Mas os que escreveram os livros da saga judaica, que considera como inspirados, não eram humanos falíveis e capazes de errar como os milhões de seguidores deles! Só todos que o seguem são falsos! Caro Jornalista Ruben Holdorf, já ouvi coisas assim, de que teriam sido sionistas que fizeram os ataques para obrigar os EUA a se envolver no Oriente Médio a seu favor, pois Bush tinha se retirado de lá, nesta época! Provam isto com a retirada dos judeus presentes na área no dia dos ataques! Outros dizem que o holocuasto é uma farsa! Quem sabe a verdade, não é mesmo?

  6. Comentou em 13/09/2007 Ruben Holdorf

    Senhor Paulo, recomendo-lhe a leitura do livro 11 de Setembro de 2001 – Uma Terrível Farsa, do jornalista Thierry Meyssan. Talvez o senhor deixe de acreditar em histórias de fada e de governos vítimas de terroristas estúpidos instalados em cavernas num país pré-histórico. Parabenizo o Tales pelos argumentos contundentes, mas recomendo-lhe deixar o senhor Paulo em paz, já que ele em sua notável sapiência responde as críticas com perguntas, recusando-se a usar a razão.

  7. Comentou em 13/09/2007 Ruben Holdorf

    Senhor Paulo, recomendo-lhe a leitura do livro 11 de Setembro de 2001 – Uma Terrível Farsa, do jornalista Thierry Meyssan. Talvez o senhor deixe de acreditar em histórias de fada e de governos vítimas de terroristas estúpidos instalados em cavernas num país pré-histórico. Parabenizo o Tales pelos argumentos contundentes, mas recomendo-lhe deixar o senhor Paulo em paz, já que ele em sua notável sapiência responde as críticas com perguntas, recusando-se a usar a razão.

  8. Comentou em 13/09/2007 Tales Tomaz

    Pois então, assim como nós não sabemos explicar como Deus criou o DNA – e portanto admitimos que temos FÉ – o sr. também não sabe explicar qual é a chance de o DNA ter surgido ao caso, já que são necessários milhares de zeros para indicar uma probabilidade. A diferença é que o sr. ñ reconhece que tem FÉ (em Darwin e em seu modelo). É única diferença! São teorias filosóficas, portanto, que deveriam ser ensinadas juntas criticamente. Se um dia alguém conseguir criar um DNA ao acaso, em laboratório, terá provado em parte a evolução e então você poderá começar a chamar a sua FÉ de ciência. Quanto ao mais, se você tiver capacidade intelectual para suportar uma outra idéia, pesquise por conta própria evidências – como a da 2ª Lei da Termodinâmica – de que a vida NÃO pode ter surgido ao acaso. Se não tiver essa capacidade intelectual, fique onde está mesmo que está de bom tamanho.

  9. Comentou em 13/09/2007 Tales Tomaz

    Pois então, assim como nós não sabemos explicar como Deus criou o DNA – e portanto admitimos que temos FÉ – o sr. também não sabe explicar qual é a chance de o DNA ter surgido ao caso, já que são necessários milhares de zeros para indicar uma probabilidade. A diferença é que o sr. ñ reconhece que tem FÉ (em Darwin e em seu modelo). É única diferença! São teorias filosóficas, portanto, que deveriam ser ensinadas juntas criticamente. Se um dia alguém conseguir criar um DNA ao acaso, em laboratório, terá provado em parte a evolução e então você poderá começar a chamar a sua FÉ de ciência. Quanto ao mais, se você tiver capacidade intelectual para suportar uma outra idéia, pesquise por conta própria evidências – como a da 2ª Lei da Termodinâmica – de que a vida NÃO pode ter surgido ao acaso. Se não tiver essa capacidade intelectual, fique onde está mesmo que está de bom tamanho.

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