Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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Brasileiras desafiam machismo na Copa do Mundo

Por Rogério Christofoletti em 10/07/2018 na edição 995

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Não é segredo para ninguém que nossas sociedades são machistas e que o sexismo está encravado nos esportes e no jornalismo. A lista da revista Forbes dos 100 esportistas mais bem pagos do mundo em 2018 não tem nenhuma mulher, por exemplo. Um dos terrenos onde o machismo mais se manifesta ainda é o futebol, justamente o esporte mais popular do planeta. A Copa do Mundo na Rússia tem servido para que as jornalistas brasileiras questionem a desigualdade de gênero e ocupem espaços até então inéditos, principalmente na televisão.

Nunca se viu tantas repórteres cobrindo a competição e essas profissionais vêm atuando também como comentaristas das partidas, a exemplo de Ana Thais Matos e Camila Carelli no canal a cabo SporTV. A concorrente Fox Sports foi além e selecionou três mulheres para narrar as partidas do torneio: Renata Silveira, Isabelly Morais e Manuela Avena. Apesar de as transmissões não acontecerem no canal principal da emissora, a atração já pode ser considerada um marco. O Brasil está na sua 21ª Copa e nunca tínhamos assistido a um jogo narrado por uma voz feminina na TV. No dia 17 de junho, Isabelly Morais, de apenas 20 anos, fez história ao narrar o empate com a Suíça. Ao seu lado, comentaram a partida outras duas profissionais, a jornalista Vanessa Riche e a goleira Bárbara. É bem verdade que em outras partes do mundo, esses avanços estão longe de acontecer, mas o Brasil não é só um país apaixonado por futebol, é também a terra de Marta, que já foi apontada como a melhor futebolista do mundo por cinco anos consecutivos e é a maior artilheira da história das copas do mundo femininas. Apesar dessas marcas, seu reconhecimento e fortuna estão muito distantes de um Neymar, e insistem em chamá-la de “Pelé com saias”. Marta não usa saias, nem precisa de Pelé para mostrar suas credenciais…

Ação e reação

Há algumas décadas, as jornalistas brasileiras ignoram as restrições machistas do futebol e o desafio não tem sido apenas ocupar espaços vagos, mas enfrentar desrespeito profissional, piadas infames e assédio sexual. Em março, um grupo dessas profissionais lançou uma campanha de autoafirmação chamada #DeixaElaTrabalhar, que foi bem recebida pelo público e por muitos veículos de comunicação. A iniciativa fortaleceu a luta por igualdade de gênero no meio jornalístico brasileiro, mas não foi o suficiente para impedir incidentes de assédio. Um torcedor russo tentou beijar a repórter Júlia Guimarães, que se esquivou e deu uma bronca ao vivo: “Eu não te autorizei a fazer isso. Nunca! Ok? Isso não é educado, isso não é certo. Nunca faça isso! Nunca faça isso com uma mulher. Respeito!” A jornalista brasileira foi defendida por seus colegas de profissão em programas de TV e sua reação foi elogiada pela firmeza e correção. Outros casos aconteceram com repórteres da Rússia e da Alemanha, pelo menos.

Infelizmente, beijos à força, toques maliciosos e abraços inconvenientes são comuns no cotidiano das repórteres em coberturas esportivas. Em grupo, muitos torcedores se comportam como se fossem animais em bandos, e suas atitudes machistas também se mostram com xingamentos ou ofensas à dignidade das mulheres. O machismo não está apenas nas arquibancadas. Em entrevista após a eliminação de sua seleção, o técnico mexicano Juan Carlos Osório disparou: “El fútbol es un juego de hombres que se disputa con intensidad y no con tanta payasada”. Declarações infelizes como esta reforçam a ideia de exclusão feminina do esporte e incentivam a violência em campo como a única forma de jogar bem.

De amuleto à protagonista

Na Copa do Mundo da Coréia e Japão, em 2002, uma das jornalistas mais conhecidas dos brasileiros acompanhou de perto o time do Brasil no torneio. Fátima Bernardes era a apresentadora do principal telejornal do país, o Jornal Nacional, e o sucesso na campanha logo foi associada à sua presença. Seus colegas de Rede Globo passaram a chamá-la de “musa da seleção”, como se tivesse poderes mágicos e atuasse como um talismã do time. Não importava a qualidade do trabalho jornalístico que desempenhava, já que seu papel havia sido reduzido a amuleto da sorte.

Três Copas do Mundo depois, ainda buscam novas musas para a seleção, mas as jornalistas brasileiras não toleram mais a condição decorativa. Elas continuam sendo inspiradoras, mas para si mesmas e para gerações que não aceitam sexismo e passividade.

A Copa da Rússia tem servido como um bom laboratório para esses oportunos e esperados avanços. E as mudanças não podem parar por aí, elas precisam ser irreversíveis. Afinal, se na Rússia, já é complicado, imagine um campeonato mundial num país absolutista, de maioria religiosa fundamentalista, onde as mulheres não têm os mesmos direitos que os homens. Daqui a quatro anos, o Mundial será no Catar, onde a Xaria determina inclusive como as mulheres devem se vestir. Conforme se pode perceber no torneio dos russos, lutar contra o machismo e garantir condições respeitosas de trabalho ajudam a definir novos parâmetros éticos para as coberturas jornalísticas esportivas. Essas são tarefas inadiáveis. Para homens e mulheres.

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Rogério Christofoletti é pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS)

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