Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > ESTADÃO vs. MARIA RITA

Breve comentário sobre uma demissão

Por Arthur Cristóvão Prado em 12/10/2010 na edição 611

Repercutiu amplamente a entrevista em que a psicanalista Maria Rita Kehl acusava o jornal O Estado de S. Paulo de tê-la demitido após a publicação de um artigo, entrevista essa que foi publicada na quinta-feira (7/10) no site de notícias Terra Magazine. Eventos recentes envolvendo o jornal contribuíram para o alastramento da notícia pela mídia e pelas redes sociais, como, por exemplo, a alegação de que o Estadão estaria sendo censurado pelo governo, a declaração de apoio ao candidato José Serra nas eleições presidenciais e os ataques do presidente Lula ao que foi chamado por jornalistas partidários ao PT de Partido da Imprensa Golpista. Em face da visibilidade desse evento, entidades políticas situacionistas têm-no usado para acusar o jornal de hipocrisia e autoritarismo.

É justificável dizer que a demissão da psicanalista, se de fato ocorreu, foi autoritária. Mais do que isso, foi exagerada. Foi um erro estratégico que abriu margem para ataques ao Estadão e ao PSDB, partido que será inevitavelmente associado ao episódio. O que não tem justificativa é dizer que o jornal foi hipócrita.

Quando o editorial anunciando apoio a José Serra foi publicado, houve uma declaração formal e pública de qual seria a afiliação do Estadão. A partir de então, podem-se fazer duas suposições: primeiro, de que o conteúdo das matérias e artigos daria respaldo ao candidato; segundo, de que os leitores do jornal que não cancelassem suas assinaturas teriam interesse em absorver esse conteúdo. Essas suposições permitem-nos afirmar que manifestações contrárias aos ideais propostos no editorial do dia 3 de outubro não seriam bem-vindas. Nada mais natural.

Apenas um jornal tucano

Afinal, em várias outras situações parecidas, longe do contexto das eleições presidenciais, a demissão teria sido considerada normal. Não se espera que haja vozes dissidentes dentro de veículos declaradamente afiliados a um partido (ou a uma religião, ou a uma doutrina). Ora, se tivessem sido publicadas matérias em defesa da TFP n´O Pasquim durante o regime militar, ou tratados positivistas na Folha Gospel, um jornal evangélico, a demissão dos responsáveis seria tanto aceitável quanto esperada. O que causa, então, estranhamento, neste caso? Todo o contexto que colocou o Estadão em foco, e todo o oportunismo do partido governista.

A demissão de Maria Kehl foi, no mínimo, um exagero. Uma advertência à articulista, feita entre as paredes da redação, teria sido muito menos danosa. Se o jornal não tinha interesse em publicar o artigo ‘Dois Pesos’, e evidentemente não tinha, era, sobretudo, papel do editor vetá-lo. Mas dizer que o jornal é hipócrita? Não. Precisamos nos acostumar ao fato de que o Estadão é agora um jornal tucano e deverá agir como tal durante o mês de outubro.

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