Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA PARAENSE

Cachimbo da paz? Ainda não

Por Lúcio Flávio Pinto em 25/12/2007 na edição 465

O grupo Yamada apareceu novamente com publicidade em O Liberal, no qual veiculou um encarte natalino. Mas enganam-se os que deduzirem desse fato que a paz com os Maiorana foi selada. Os Yamada restringiram o encarte aos exemplares de assinantes do jornal, excluindo-o da venda avulsa, em bancas ou através de jornaleiros. Os exemplares de assinantes têm segurança muito maior. Já em relação ao Diário do Pará, os Yamada não fizeram qualquer restrição, dentre outros motivos porque o IVC (Instituto Verificador de Circulação) assegura a circulação paga. Essa garantia, O Liberal já não pode dar, justamente por ter-se desligado do IVC no ano passado.


Foi a primeira vez que um anunciante fez esse tipo de restrição ao programar sua mídia no jornal dos Maiorana, obrigados a aceitar a exigência. O grupo Yamada adotou ainda outro procedimento: não destinou a O Liberal os anúncios institucionais publicados no Diário no mesmo domingo. Ficou só no encarte.


A queda de braço prossegue e a corda continua encurtando para um dos lados. Para saber qual deles, basta ficar atento para o surpreendente comparecimento do principal executivo das Organizações Romulo Maiorana aos acontecimentos da cidade. Antes, não dava o ar da sua graça a esses eventos. Como dizia lorde Keynes, o bolso é a parte mais sensível do corpo humano.


 


A ciência lá e cá


‘Há menos doutores em toda a Amazônia Legal do que no campus da USP’, disse o jornal O Estado de S.Paulo em recente editorial. Podia também ter dito: ‘Há cada vez mais doutores na Universidade de São Paulo do que em toda a Amazônia legal’. Uma conseqüência dessa constatação seria incrementar a formação de doutores dentro da Amazônia – e não apenas fazendo-os doutorar-se em outros lugares, a via mais freqüente nesse tipo de formação. Mas a outra derivação é a de ouvir os doutores paulistas sobre a Amazônia, em relação à qual acumulam cada vez mais conhecimentos e se especializam.


O tradicional jornal paulista optou pelo segundo caminho na revista especial que publicou sobre a Amazônia, à qual o editorial referido procurou ser a repercussão. É salutar, benéfico e indispensável o intercâmbio e a simbiose dos cientistas sediados na Amazônia com todos os que a incluíram no âmbito dos seus interesses, mesmo quando estabelecidos em outros locais, do país ou do estrangeiro (lato senso). O intercâmbio, o diálogo e a controvérsia quebram as aparas provincianas e rompem os acordos corporativos em benefício do avanço da ciência, do seu necessário teste de consistência. É o espelho crítico: mesmo sendo reflexivo, ele adiciona a visão estrangeira, que oxigena a percepção e ilumina as condutas de pesquisa.


Mundos distintos


Mais fecundo, porém, é o exercício da ciência in situ na Amazônia, com nativos e adotivos, estes trazendo para a região seu saber, seus instrumentos de trabalho, seus recursos financeiros e sua solidariedade operativa. O Estadão ouviu, sobre a Amazônia, cientistas de São Paulo, como tinha que ser, até por regra estatística, já que num só campus há mais doutores do que os espalhados por 60% do território nacional.


Mas não é por esse tipo de probabilidade que se chega à verdade: gente qualificada para falar bem, com conhecimento de causa e lucidez, sobre questões tratadas pelo jornal, foram esquecidas, provavelmente por causa do critério topográfico da edição jornalística. Talvez por isso mesmo ela foi tão claudicante e falsa, como aqui se denunciou na edição anterior [ver ‘A Amazônia do Amazonas, do Estadão e do Bradesco‘).


São Paulo, obviamente, é o Brasil, a parte maior do dinheiro brasileiro – e da sua ciência. Mas não é todo o Brasil que está contido em São Paulo. A absorção amazônica pela esplêndida terra bandeirante é bloqueada pelo mesmo fenômeno que impede o azeite de se misturar à água: significações valorativas à parte, apenas porque são corpos estranhos. São mundos distintos e para que cada um se realize, conforme suas características físicas, históricas, sociais e econômicas, é preciso que continuem a ser distintos. Ou então a metrópole, com o melhor e o maior da ciência, absorverá a colônia. Ou ainda, dito de forma mais direta: a engolirá.


 


Destruição de sempre


O jornal A Província do Pará tinha uma seção chamada ‘O fato da foto’. Ela servia para abrigar flagrantes obtidos por seus fotógrafos, em suas andanças pela cidade. A imagem exigia um texto, que focalizava um problema, revelado ou destacado pela acuidade do profissional. Em 1962, Emanoel Ó de Almeida, um dos mais agitados fotógrafos da história de A Província, flagrou a demolição de um velho casarão na esquina da 15 de Novembro com a Padre Eutíquio, onde seria construído o edifício Francisco Chamiê.


O autor do texto mostrou que a fotografia documentava o constante desrespeito às determinações legais na cidade: ‘Uma firma deseja levantar um prédio e dá início às obras de demolição, sem que, esquecido o Código de Posturas Municipais, seja, pelo menos, armado um tapume protetor. E a poeira toma conta da rua, fica o pedestre arriscado a receber uma pedra, ou mesmo uma parede, na cabeça. Não importa que a obra esteja localizada em uma rua que, além de estreita, fica no centro da cidade. Importa somente construir, para usufruir lucros, sem despesas’.


Pela cabeça do redator não passou uma conjectura: de que o imóvel, por seu valor histórico e arquitetônico, não devia ser demolido. Mas a culpa não era de um indivíduo apenas: era a mentalidade geral de uma cidade pouco afeita aos seus valores, desmemoriada e insensível. Ontem como hoje.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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