Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Candidatos e partidos S/A

Por Felipe Dolandeli em 07/10/2008 na edição 506

Mais uma campanha eleitoral chega ao fim e, mais uma vez, as únicas novidades deste processo tido como a ‘festa da democracia’ são as restrições da legislação eleitoral, restrições tardias, por sinal. Tempos atrás era um vale-tudo e aos poucos foram se restringindo alguns abusos em um prazo longo e preguiçoso, mas nada que atrapalhe os candidatos carentes de projetos, mas produzidos por competentes agências de marketing.

Alguns mais otimistas ainda podem esperar medidas que tornem o processo eleitoral um pouco mais ‘democrático’, ou um pouco menos desigual, pois o processo atual beneficia sempre os candidatos ou aliados da situação, esmagando os que não estão com a máquina na mão. Os otimistas também esperam que se tomem medidas para que se tenha mais discussão e debate político e sobre política, com incentivo a uma ampla participação da população nos planos de governo dos partidos.

Os partidos políticos no atual processo são uma ‘coisa’. O grupo do candidato, na verdade, não faz parte do partido, e sim, é um outro partido dentro do partido em uma simbiose impressionante na qual um depende do outro. Sem partido, o candidato não tem legenda; sem candidato, o partido não pode manter o controle ou participação na máquina estatal. Nesse ciclo vicioso, o puro pragmatismo eleitoral é essencial para a sobrevivência deste tipo de organismo e que, já nesta altura, a Política com ‘P’ maiúsculo é algo distante e sem significado, coisa para intelectuais e utópicos, enfim, perda de tempo.

Como chamar tal processo de ‘democrático’, se os partidos se transformaram em um pregão de bolsa de valores, onde os membros disputam ações dentro do governo, barganhando influências e cargos, tudo em nome do ‘acordo político’? ‘Acordo político’ não é mais um consenso em seguir uma agenda ou projeto em comum com outro grupo, acertando estratégias de atuação em conjunto para um bem maior. Agora, ‘acordo político’ é acertar com o ‘político’ um ‘acordo’ de ordem pessoal, ou interesse de grupo específico, claro. Porque ‘essa coisa de partido é pra se dar bem’, dizem muitos por aí.

Os patrões não mudam

Agora chegamos na parte das aberrações da legislação eleitoral, onde a lei obriga os candidatos a terem um partido/legenda para se candidatar, mas, depois de eleito, o cidadão pode sair do partido e levar o mandato consigo. A legislação não permite candidatos independentes, mas eles se comportam como independentes, negociando cargos no governo para membros do partido e todos os aliados precisam estar filiados nos partidos da base aliada, ou base da bajulação.

Na eleição proporcional, os partidos são divididos de acordo com a possibilidade de alcançarem o quociente eleitoral. As coligações proporcionais não são feitas em cima de alianças que tenham uma diretriz em comum, fechando acordo político em cima de uma agenda a ser seguida na casa legislativa. Os partidos são rifados, de acordo com os interesses do grupo de maior influência (leia-se dinheiro), para ter uma governabilidade, ou melhor, tranqüilidade naquilo que é feito.

Em suma: no atual processo eleitoral não há disputas ideológicas, e sim, disputas de mercados, de qual grupo vai controlar o aparato do Estado e de quem vai dar as cartas. E tudo com total ‘democracia’ e ‘transparência’.

As instituições ‘democráticas’ e a mídia mainstream orgulham-se de termos pluripartidarismo, mas não estranham que as eleições são sempre polarizadas entre grupos bem parecidos. As coligações, tanto as majoritárias quanto as proporcionais, se assemelham ou são grandes conglomerados empresariais atrás de sua fatia do mercado, salivando na farra do loteamento estatal.

São os mesmos de sempre, elegemos o gerente, mas os nossos patrões não mudam…

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Técnico em telecomunicações, Queimados, RJ

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