Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

Candidatos se acertam primeiro com a mídia

Por Venício A. de Lima em 09/09/2008 na edição 502

Uma nota curta no pé da coluna ‘Toda Mídia’ de Nelson de Sá na Folha de S.Paulo de quarta-feira (3/9), sob o título ‘O Magnata’, informava que ‘Rupert Murdoch diz à Vanity Fair que encontrou Obama e tentou `trégua´. Mais: ele já `considera a fantasia´ de comprar o New York Times‘ [ver aqui, para assinantes). E ficou nisso. Não consegui encontrar mais nada sobre o assunto na grande mídia.

Quem, no entanto, procurou e leu a Vanity Fair ficou sabendo muito mais. Lá está uma longa entrevista assinada por Michael Wolff que, na verdade, antecipa uma nova biografia do proprietário da News Corporation, um dos maiores grupos multimídia do planeta, incluindo a Fox News, uma das duas maiores redes de notícia 24 horas dos Estados Unidos, conhecida por seu jornalismo conservador e comprovadamente favorável ao Partido Republicano.

Na entrevista, sabe-se que o encontro entre Rupert Murdoch e Barack Obama, candidato democrata à presidência da República, foi no Waldorf-Astoria, em Nova York, no início do verão americano. Obama teria relutado em comparecer e finalmente concordado após a interferência da família Kennedy. Murdoch estava acompanhado de Roger Ailies, presidente da Fox News. O objetivo seria estabelecer uma ‘trégua’ entre o grupo de mídia e os democratas.

Na entrevista Murdoch declara que apóia Obama ‘porque ele venderá mais jornais’ e Obama é citado reclamando de que a Fox ‘tem maltratado a ele e a sua esposa; que tem sido retratado incansavelmente como se fosse um estrangeiro suspeito, de quem se deve ter medo, quase um terrorista’.

Na quinta-feira (4/9), a agência espanhoa EFE informou que ‘o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, apareceria em horário nobre na Fox News, canal vetado por seus correligionários durante as primárias por considerarem que a rede apóia os republicanos. A aparição de Obama na rede do magnata australiano Rupert Murdoch ocorre na mesma noite em que seu adversário republicano, John McCain, aceita a candidatura do partido à Presidência durante a convenção de Minnesota’ [com adaptações minhas].

De fato, naquela quinta-feira foi ao ar na Fox News a primeira de quatro partes de uma entrevista que o candidato democrata Barack Obama concedeu ao The O’Reilly Factor, programa do conservador Bill O’Reilly. Foi a primeira entrevista de Obama na Fox News.

E no Brasil?

O eventual leitor deve estar se perguntando: qual é a novidade? No Brasil se faz isso desde sempre.

É verdade. Basta ler, por exemplo, a biografia de Roberto Marinho escrita por Pedro Bial (Roberto Marinho; Jorge Zahar Editor, 2004) e relacionar o número de políticos – candidatos ou no exercício de mandato eletivo, ou ambos – que foram de Brasília ao Rio de Janeiro para se entrevistar com o falecido dono das Organizações Globo.

Um caso recente e – creio – ainda pouco conhecido está no Sobre formigas e cigarras (Editora Objetiva, 2007), escrito pelo ex-ministro da Fazenda e atual deputado federal Antônio Palocci (PT-SP). Ele relata como consultou a Globo durante a elaboração da ‘Carta ao Povo Brasileiro’, documento que o então candidato Lula publicou para tranqüilizar o mercado financeiro em relação a um eventual governo liderado pelo Partido dos Trabalhadores, em junho de 2002.

No livro (páginas 31 e 32), o ex-ministro explica que, depois de preparar diferentes versões do documento, procurou empresários e formadores de opinião para dialogar sobre o assunto:

‘Um deles foi o João Roberto Marinho, das Organizações Globo, a quem eu fora apresentado semanas antes.

Peguei o telefone e liguei para ele.

– Estamos com um problema sério nesta eleição – iniciei. Há uma percepção de crise econômica e estamos preocupados com isso. Estamos pensando em editar um manifesto com os nossos compromissos.

Com seu radar bastante atento às mudanças de humor do mercado, João Roberto abordou o assunto de forma franca:

– A crise é muito maior do que vocês estão pensando – ele disse, sem esconder sua preocupação. Há muita insegurança sobre o futuro e, por isso, acho muito bom vocês fazerem, sim, um manifesto.

Comentei as linhas gerais do documento e paramos justamente no ponto sobre o superávit das contas públicas.

– Se vocês não forem falar sobre isso – advertiu ele – é melhor nem soltar o documento. Afinal, é este o ponto sobre o qual o mercado está mais preocupado.

– E qual você acha que deve ser o compromisso do novo governo? – perguntei.

– Em minha opinião, deve ser algo um pouco acima de 4%, que é o que parece estar se tornando um consenso no mercado. O fato é que a dívida está ficando insustentável e se há algo que vocês devem criticar no atual governo é isso. O quadro fiscal é frágil.’

Em seguida, Antonio Palocci lê trechos do documento para João Roberto Marinho.

‘`Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar seus compromissos.´

– O que você acha? – perguntei.

– Um número forte poderia ser melhor – respondeu. Mas se há dificuldade para isso, o texto está bom. Acho que dá conta.’

Depois de conversar com João Roberto Marinho, Antonio Palocci explica como alterou o documento:

‘Achei melhor trocar a palavra `enquanto´, que dava noção de tempo, por `o quanto´, que dava noção de tamanho e da disposição de aumentá-lo, que era como o problema se colocava naquele momento.’

O que está envolvido?

Quatro observações. Primeiro, se políticos querem ‘se acertar’ com concessionários e/ou donos de grupos de mídia, está implícito, por óbvio, que acreditam que eles (os donos) determinam ou influenciam ou interferem no sentido das coberturas jornalísticas. Segundo, tanto uns quanto outros – políticos e concessionários/donos – acreditam que a cobertura política da mídia determina ou influencia ou interfere no processo político. Terceiro, se isso é verdade, uma cobertura política negativa dificulta o sucesso político ou, ao contrário, uma cobertura política favorável, ajuda, contribui. Quarto, ambos – políticos e concessionários/donos de grupos de mídia – não parecem acreditar na existência de uma cobertura jornalística imparcial (ou nada disso seria necessário).

Finalmente, uma velha questão que se recoloca diante da realidade que, sabemos, existe tanto nos Estados Unidos como no Brasil: no caso dos concessionários dos serviços públicos de rádio e televisão, que existem para atender ao interesse coletivo e não ao interesse privado de indivíduos ou grupos – empresariais, religiosos ou quaisquer outros – não constituiria uma ameaça importante à democracia permitir que ocupem posição de tamanho poder como atores políticos nas democracias contemporâneas?

***

P.S. – O jornalista Clóvis Rossi escreveu em sua coluna de sexta-feira (5/9) na página 2 da Folha de S.Paulo: ‘Posso estar enganado, mas temo que a cultura `fast-food´ que ganhou o mundo esteja contaminando perigosamente o jornalismo’. Vale o registro pelo inusitado, não da afirmação, mas de ter sido feita por quem foi.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

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