Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > ALHOS & BUGALHOS

Capivaras, Roseana e correlações equivocadas

Por Vera Silva em 04/01/2005 na edição 310

‘É possível até que os leitores que se manifestaram contrários à presença da Capivara na Lagoa achem perfeitamente natural a presença da Roseana Sarney no ministério do Lula.’ (Cora Rónai, em ‘Se alguém gritasse ‘Tsunami!’, você corria?’, coluna publicada em 30 de dezembro de 2004 no Globo.)

Devo dizer que aprecio a Cora Rónai, mas o trecho final de sua crônica é perfeito para uma discussão sobre os exageros da correlação.

Um grupo de pessoas votar na capivara como ‘Mala do ano’ na coluna do Artur Xexéo pode ser causado por um milhar de coisas, até mesmo que essas pessoas sejam pouco afeitas a apreciar a harmonia da natureza. Outro grupo de pessoas considerar natural a presença de Roseana Sarney no ministério do Lula pode ser causado por um milhar de coisas, ou até mesmo por essas pessoas serem más avaliadoras políticas. Mas, correlacionar os dois grupos de pessoas como se as duas opiniões fossem efeitos da mesma causa é um erro de generalização, porque há pelo menos quatro outras combinações possíveis entre as duas opiniões.

A colunista, mesmo que cheia de humor, transforma-se em parâmetro para classificar as pessoas, preconcebendo a opinião delas sobre assuntos sobre os quais elas não opinaram. Mesmo sendo uma brincadeira, ao ser escrita e publicada influencia pessoas, e influencia mal. O preconceito é inimigo da fraternidade, tão necessária nos dias de hoje.

Não aponto, contudo, o dedo acusador para a colunista. Muitos âncoras e apresentadores de programas da TV, fundamentalistas, muitos políticos e dirigentes religiosos são usuários freqüentes deste tipo de raciocínio. E não poucas vezes tenho me deparado com adolescentes, jovens e adultos com menos treinamento para este tipo de armadilha, adotando correlações absurdas e tendo enormes prejuízos em suas vidas familiares, profissionais, religiosas.

O preconceito é um erro cognitivo de forte base familiar e social que afeta nossa capacidade para perceber erros nas relações causais que fazemos, levando-nos a considerar como verdade universal o que julgamos certo para nós. Em outras palavras, é a base da popular ‘ideologia do pensamento único’ que nos leva à ‘despessoalização’.

Precisamos ter muito cuidado com o que falamos ou escrevemos.

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Psicóloga em Brasília

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