Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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FEITOS & DESFEITAS >

Carlos Eduardo Lins da Silva

05/05/2009 na edição 536

‘A cobertura de problemas de saúde pública como a possível pandemia de gripe que dominou o noticiário mundial esta semana é um dos maiores desafios do ofício do jornalismo.

Como traçar a linha entre preparar convenientemente o público para algo que pode ter consequências trágicas sem apavorá-lo desnecessariamente é um exercício extremamente complicado. Ainda mais quando se está lidando com um vírus novo, mal conhecido, com grau de letalidade indefinido, que deixa até mesmo epidemiologistas experientes inseguros ao tratar dele.

Pedi a dois dos mais calejados e capazes jornalistas especializados em ciência no Brasil para me ajudarem a avaliar como a Folha se saiu desde que começaram a surgir as primeiras informações de contaminação no México.

Marcelo Leite, que foi editor de ciência deste jornal três vezes (a mais recente entre 2000 e 2004), além de ombudsman (entre 1994 e 1997), e Maurício Tuffani (editor de ciência entre 1997 e 1999) concordam comigo que de modo geral os leitores estão bem servidos pelo seu diário neste item.

O louvável esforço em ser didático, a aconselhável cautela para não despertar histeria injustificada e a ampla abrangência das informações foram pontos positivos reconhecidos por todos. Marcelo Leite nota que, no início, o jornal pareceu um pouco perdido com as cifras de vítimas fatais atribuídas à nova gripe: muitas das mortes registradas de pacientes com sintomas de gripe podiam ter resultado de vírus antigos.

Mas essa confusão tinha como origem informações oficiais do governo mexicano, que também demonstrava incerteza ao lidar com os fatos. Todos os anos, cerca de 10 mil pessoas morrem no México de gripe sazonal. Como dizer com segurança, quantas entre os de 2009 eram vítimas da nova doença?

O que certamente estava faltando era um jornalista próprio no México para descrever como é a vida no epicentro do drama. Claro que ele não será capaz de provocar reflexão profunda como a que resulta de obra de grande ficção sobre uma situação de epidemia, como o romance de Camus ou o filme de Von Trier recomendados hoje, mas qualquer boa história real de pessoas afetadas diretamente ajudaria a aumentar a empatia e a compreensão dos leitores.

Também acho que pode haver mais ênfase na cobertura local: como as pessoas estão reagindo às notícias que vêm de fora, como as que têm de ir para o exterior enxergam essa perspectiva, como os cidadãos se preparam para uma possível eclosão da epidemia na sua região. Na média, o jornal vem se portando de modo adequado: nem enfia a cabeça na areia nem sai gritando que o céu está desabando.

PARA LER

‘A PESTE’, de Albert Camus, tradução de Valerie Rumjanek, Record, 1997 (a partir de R$ 32,37)

‘A HISTÓRIA E SUAS EPIDEMIAS’, de Stefan Cunha Ujvari, Senac, 2003 (a partir de R$ 59,29)

PARA VER

‘EPIDEMIC’, de Lars Von Trier, 1987 (em importadoras, a partir de US$ 27, mais impostos)’

***

‘Onde a Folha foi bem…’, copyright Folha de S. Paulo, 3/5/09.

‘DOENÇA DE DILMA

A Folha foi a primeira a informar a doença da ministra e tratou bem do assunto

…E ONDE FOI MAL

‘CAPANGAS’

Reportagem deveria apurar a que o ministro Joaquim Barbosa se referia ao falar de ‘capangas de Mato Grosso’ no bate-boca com presidente do STF

CAMPEONATOS ESTADUAIS

Cobertura minimalista das finais dos campeonatos estaduais de futebol desserve os leitores de fora de São Paulo

ENEM

Inconvincente a resposta da Redação a leitores que se queixam de discriminação contra a escola Walter Belian em reportagem sobre o Enem

PRÓ-MEMÓRIA

O que houve na assembleia da Fiesp de 13 de abril, quando, segundo o jornal do dia 11, Paulo Skaf esclareceria as suspeitas da PF contra ele?’

***

‘Até ver se a ficha cai’, copyright Folha de S. Paulo, 3/5/09.

‘Recebi 77 mensagens de 55 leitores sobre a reportagem em que a Folha reconhece erros por publicar suposta ficha de Dilma Rousseff do tempo da ditadura. Nenhum se satisfez com as explicações. Nem eu.

Fiz perguntas à Redação para tentar esclarecer o caso. As respostas não o elucidam.

A reportagem original saiu na primeira página; a correção também deveria ter saído na capa do jornal.

O ‘Manual’ prevê que o jornal identifique a fonte que lhe passe informação errada, o que não se fez neste caso.

Alertado por leitor no dia da reportagem original de que ficha fraudulenta circulava na internet, o ombudsman pediu para a Redação apurar e ficou sem resposta até o dia 21.

Na sexta, a Redação me disse que nenhum jornalista envolvido na produção e edição da reportagem original sabia da ficha falsa na internet, o que revela incrível desinformação de jornalistas especializados.

O pior é a Redação dizer que encerrou a apuração desse episódio seriíssimo e não acha necessário rever procedimentos de checagem de informações.

No caso Memogate, que citei domingo passado, a rede de TV CBS constituiu comissão independente para apurar o que houve. Seu relatório foi divulgado publicamente e dele resultaram ampla revisão de procedimentos internos da Redação, a demissão de uma produtora e um pedido de desculpas da emissora à audiência. Sugiro à Folha fazer algo similar.’

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