Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Carta aberta a um jornalista

Por Artur Salles Lisboa de Oliveira em 17/02/2009 na edição 525

Dirijo-me ao jornalista Lúcio de Castro, da SporTV, com todo o respeito devido, para lançar à opinião pública e ao profissional mencionado uma questão primordial que vem ocupando espaço relevante na mídia: até que ponto as estrelas da seleção brasileira de futebol devem ser privadas de críticas devido a condutas consideradas inadequadas?

No programa Redação SporTV do dia 10 de fevereiro, o mencionado profissional fez uma defesa raivosa em uma oratória cheia de ‘assim, assim, assim…’ quando na bancada estava se discutindo a polêmica em torno do atacante Robinho, acusado de estupro. O caso ainda está sendo investigado.

Resumidamente, o senhor Lúcio de Castro defendeu que, fora do ambiente de trabalho, que no contexto de um jogador de futebol acredito ser o campo de treinamento, a concentração, a academia e locais de encontro com patrocinadores, o jogador é livre para agir da forma que quiser, exceto quando essa conduta interfere em seu desempenho no campo. Achei, partindo de um profissional da comunicação, a assertiva lamentável e digna de correção perante as câmeras o mais rápido possível e explico as razões.

Refletir sobre motivos

Essas estrelas da seleção brasileira recebem fortunas de patrocinadores para exibir suas marcas ao público mundial, o que inclui crianças, jovens, adultos e até pessoas de mais idade – apesar de em menor número. Ora, quando uma marca da dimensão da Nike, por exemplo, coloca sua história na camisa de um atleta, creio que houve uma seleção rigorosa segundo critérios esportivos e, especialmente, de caráter. Lembremos, por exemplo, que o atacante Ronaldo ‘Fenômeno’ sempre teve sua imagem atrelada à superação de dificuldades devido aos infortúnios físicos pelos quais o atleta passou. Portanto, não interessa apenas a conduta do profissional, mas sim, do homem e de que forma os atributos de sua pessoalidade podem contribuir em uma campanha de uma grande empresa. É, dessa forma, estarrecedora a afirmação do jornalista Lúcio de Castro de que o que importa é o rendimento do atleta no desempenho de sua atividade profissional.

O profissional da bola também tem que respeitar o seu público, que são os torcedores, em grande parte crianças que sonham se tornar um atleta do futebol. Já vi, inclusive, apesar de não ser capaz de citar quem exatamente afirmou, vários jornalistas da emissora citada falando da importância de se dar o exemplo para os mais novos. Ora, como dar exemplos quando um profissional defende no ar que as críticas aos atletas cujas imagens foram recentemente maculadas por episódios obscuros devem se limitar à seara do campo? O torcedor que paga ingresso para assistir ao seu clube de coração quer, além de jogadores qualificados tecnicamente, homens dignos e de caráter que defendam a história de seu time. Um esporte visto por bilhões de pessoas não pode ter como peças principais apenas atletas, mas sobretudo homens.

Lúcio de Castro, conhecido por matérias de cunho social, deveria ter mais vigilância quanto às suas palavras e esquecer o papel do profissional que está acostumado a pôr panos frios nas questões mais polêmicas para amanhã ou depois um de seus colegas não receber um ‘não’ das estrelas da seleção, quando requisitarem uma entrevista especial. Preocupa-me em refletir junto ao público imenso da emissora por quais motivos esses atletas agem de forma inapropriada e o que pode ser feito para que as próximas gerações de craques que estão surgindo no Brasil não sejam acometidas por tais tentações.

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Jornalista, Salvador, BA

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