Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DO LEITOR > LEITURAS DE VEJA

‘Carta ao leitor’ pode causar doença

Por Carlos Cardoso Filho em 23/02/2010 na edição 578

A revista Veja que está nas bancas com data de 17 de fevereiro de 2010 conseguiu tratar de forma chula e irresponsável um dos temas mais sérios e importantes para a manutenção de um Estado Democrático de Direito e para a boa prestação de serviços públicos em qualquer país do mundo.

Para surpresa dos leitores, foi justamente no espaço ‘Carta ao Leitor’ – que é exatamente o lugar que traz a opinião da revista – onde veio o sofrível texto intitulado ‘Mal de Parkinson’. Texto que desperdiçou tão nobre estratégia de chamar a atenção do público com um título interessante, mas que decepciona o leitor logo no primeiro parágrafo.

Diversamente do que esperava o leitor – tema ligado à saúde – veio o texto da ‘Carta ao Leitor’ tratar da criação de 150.000 cargos no serviço público federal. O editor, inclusive, abre sua redação dizendo que nada se expandiu tanto no governo Lula quanto a máquina estatal e seus privilégios.

A impropriedade das idéias trazidas pelo texto é tão gritante e demonstra um conhecimento tão superficial acerca do tema por parte de quem o redigiu, que por si só já dispensaria qualquer comentário. Contudo, faz-se imperioso informar que o concurso público é a vitória do mérito pessoal sobre o favor político, da igualdade de competição sobre o favorecimento eleitoreiro. Por isso é que a Constituição Federal de 1988 prevê a obrigatoriedade de concurso para o ingresso no serviço público.

Mudanças substanciais

Outra informação importante para que não se confunda a cabeça do leitor é que os milhares de vagas foram criados justamente para substituir os milhares de terceirizados e contratados que chegaram sob o argumento da urgente necessidade e, há muitos anos, estavam habitando as repartições públicas com ânimo de permanência definitiva.

É superficialismo demais, é reducionismo demais se defender – em um texto que representa o pensamento de uma revista que pretende ser respeitada pelo público – a idéia de que nada se expandiu tanto na era Lula quanto a máquina pública federal.

O Brasil – querendo ou não os que não gostam do governo Lula – tem apresentado substanciais mudanças em vários setores da vida nacional: foi desenvolvido um mercado interno que ajudou a atravessarmos a crise econômica mundial; expandiram-se, e muito, os campi dos centros federais de educação tecnológica e os campi universitários federais; reativou-se a indústria naval brasileira; e se estendeu uma larga rede de proteção social para as famílias que mais precisam.

Como passar da página 11?

O governo Lula soma erros e acertos, como qualquer outro, mas certamente ficará na história como o que mais mudanças proporcionou. Não sou filiado ao PT e não estou certo de que Dilma seja a melhor candidata em 2010, mas aprendi que é preciso se avaliar uma obra pelo seu conjunto. Com um único ponto, já diz a geometria, não se pode definir uma reta. No conjunto da obra, percebe-se facilmente que o que mais se expandiu no atual governo federal não foi o funcionalismo público como impropriamente defende o texto da revista Veja.

Nunca me entusiasmei em ler a revista Veja, talvez pela carga sensacionalista que ela empresta às suas edições. Quando tentei lê-la, não consegui passar da página 11. Não entendo nada de edição de revistas, mas sugiro que se não for possível imprimir mais qualidade aos textos do espaço ‘Carta ao Leitor’, que seja ele colocado na última página. Quem sabe assim poderei ler a revista até o fim da próxima vez que tentar.

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Estudante de Direito e servidor público do município do Ipojuca, PE

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/02/2010 Carlos N Mendes

    Mas o editorial de VEJA é completamente dentro da lógica. Quem mais aparelhou o serviço público com ‘tercerizados’ e ‘temporários’ (esses últimos, um tanto ‘permanentes’) foi o braço político da revista, o PSDB. Mesmo depois da reestruturação promovida pelo governo Lula, o Brasil, pasmem, continuará tendo MENOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS PER CAPITA que a matriz do neoliberalismo, os EUA. O temos de sobra e que pesa como chumbo em nossos bolsos são ASSESSORES LEGISLATIVOS e EXECUTIVOS, principalmente onde menos reclamamos, nas vereanças municipais. Esses, em sua maioria absoluta, são parentes, amigos, aliados e apaniguados que exercem FUNÇÃO PÚBLICA TEMPORÁRIA NÃO-CARREIRISTA e NÃO-CONCURSADA. Se alguém me provar que um vereador precisa mais do que dois assessores DE CONFIANÇA, corto um braço fora. O problema, o grande problema, é que ninguém tem coragem de bater de frente com esse problema. Nem a VEJA, mesmo porque o alvo da revista é outro.

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