Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Carta Capital

30/09/2008 na edição 505

FORÇAS OCULTAS
Mino Carta

Crise institucional por quê?, 26/9

‘Agosto de 1961, Jânio Quadros renuncia. Pego-me na Ladeira da Memória, centro de São Paulo, a caminho do Estadão, esquina da Martins Fontes com Major Quedinho. Busco informações precisas sobre o ocorrido com meu pai, Giannino, solidamente instalado na redação. Da bocarra dos bares sai o vozerio trivial dos locutores de futebol, irradiam um jogo do Santos de Pelé. Em Montevidéu, é de lá que vem a gritaria.

Jânio, candidato da direita, convém dizê-lo com todas as letras, ganhara a eleição presidencial de 1960 e seu mandato não passava de pouco mais de cinco meses. Abandona o Planalto, declara-se vencido pelo poder das ‘forças ocultas’. As raízes do golpe de 1964 ali estão. Creio, porém, que JQ imaginasse, para o imediato, outro desfecho.

São muitos aqueles que crêem na aposta do presidente na revolta capaz de reconduzi-lo a Brasília nos braços do povo. No entanto, a pátria de chuteiras estava grudada nos rádios que transmitiam as façanhas do rei Pelé.

Em 47 anos o Brasil mudou bastante juntamente com seu povo, e este mudou por causa de Lula. Jânio cobria os ombros de caspa e a cabeça com o quepe dos motorneiros e foi eleito com 12 milhões de votos, recorde absoluto até então. Percebeu-se, entretanto, que na hora crucial os eleitores preferiam o Santos F.C. Com Lula a história é outra. A maioria identifica-se com o ex-operário e líder sindical, enxerga no presidente o cidadão igual e automaticamente aprova-lhe o desempenho.

Nunca um presidente do Brasil teve aprovação tão avassaladora, mais de dois terços da nação estão com ele. Registre-se um dado preocupante para quem gostaria de vê-lo logo pelas costas: Lula conta também com maioria na chamada classe média, a mesma que a mídia costuma visar para entorpecer-lhe a consciência.

Estes 70% de platéia a favor do presidente permitem que, a toda hora, venha à tona a ameaça da crise institucional no Brasil de 2008? Crise institucional por quê? Por que o Brasil está satisfeito com seu governo? Esta sim é a verdadeira novela brasileira, muito mais verídica do que aquelas da Globo.

Ocorre recordar a fala estranha, peculiar, de Jânio Quadros. As forças ocultas. De fato, muito ocultas, ocultas demais. À época as forças aparentes e evidentes, diria até escancaradas, puseram-se à vista desde a semeadura do golpe. Ali se postavam, inquietas, à espera do pretexto. Quatro e mais décadas depois, quem arca com o mesmo papel? Sim, possível é questionar todos os poderes de uma democracia capenga, e os comportamentos dos privilegiados, mestres em ostentação e ferocidade, e as fabulações grosseiras da mídia nativa. Ainda assim, por que admitir, mesmo academicamente, uma crise institucional quando o presidente da República goza da aprovação de 70% da população?

No espaço dos últimos 60 dias os fantasmas de outros tempos surgiram nos vídeos e nas páginas da imprensa. Ao ser levantada a possibilidade da revisão da Lei da Anistia e por ocasião da deflagração da Operação Satiagraha. Nas duas oportunidades, diante da pretensa ameaça de uma crise institucional, logo desfraldada pela oposição parlamentar e pela mídia, com a conspícua contribuição do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, e do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

E o governo, que dispõe do apoio maciço da nação? Tergiversa, concilia, como se houvesse de fato o risco da tal crise. Trata-se de reabilitar o espectro das forças ocultas? Há quem diga que as pesquisas valem até certo ponto. Na hora azada, o povo ainda ficaria preso à transmissão radiofônica de um jogo de futebol. Alguém sorri com condescendência e afirma as injunções da ‘correlação de forças’, em nome, talvez, de ‘um vezo marxóide’, pelo qual cabe atentar, antes de mais nada, ‘no estrutural’.

Então seria algo assim como se as pesquisas de opinião fossem a ponta do iceberg, enquanto a realidade nua e crua fica abaixo da tona. Quem sabe Maquiavel dissesse que tudo não passa de desculpa, para deixar as coisas como estão para ver como ficam.’

 

TELEVISÃO
Nirlando Beirão

Sinfonia da metrópole, 26/9

‘Ao contrário do rádio e também da internet, a televisão é um veículo socialmente injusto. Joga o lixo sobre os pobres e faz de seu raro caviar um privilégio para os abonados. Alice, a série de treze episódios que a HBO inaugurou no domingo, reitera a sina dessa proposital desigualdade. Convém repetir: proposital. Não é por falta de recursos que o Jornal Nacional, por exemplo, chafurda na má-fé. Sob o mesmo guarda-chuva Globo, há emissoras a cabo e por assinatura onde fato e notícia ainda guardam um mínimo de relacionamento.

Alice é tão bom e tão bonito que nem parece tevê. É como se fizesse a apresentação do que há de mais contemporâneo e inovador na tecnologia do som e da imagem a uma mídia que, com exceção de certos especiais dirigidos por Luís Fernando Carvalho (Hoje É Dia de Maria), prefere operar na mediocridade do déjà vu. A narrativa de Alice é de uma emoção cool, texto e imagem que se encontram sem perder as respectivas identidades. Não há uma palavra a mais, nenhum compromisso ficcional com o desperdício. Não por acaso, Karim Aïnouz e Sérgio Machado, os diretores, procedem do cinema, quer dizer, do cinema brasileiro, o qual, mesmo quando erra, é porque se permite o risco irrequieto da experimentação. O que fez a HBO, em seu ermo território dos ilustres assinantes, foi buscar um requinte luxuoso na trajetória de acertos da dupla.

A protagonista é a metrópole, a São Paulo cujo apelo mais conhecido é o espetáculo noturno de sua opressiva opulência, desdobrando-se em sustos e surpresas – o que é um dos jeitos, aliás, de declinar seu mood cosmopolita. São Paulo costuma sofrer nas mãos daqueles que insistem na escola Projac de estética, e o problema é que há gente filiada a essa igrejinha muito além de Jacarepaguá. Alice esgueira-se, ilesa, em meio às armadilhas do clichê, conduzida pelo rosto bonito e pela naturalidade corporal de sua Cinderela acidental, a atriz Andréia Horta. Mineira de Juiz de Fora, Andréia vive – viver é o verbo – a estranheza de quem acabou de chegar da província (Palmas, Tocantins, no roteiro) e multiplica-se, com talento maduro, entre o medo e o deslumbre, sem fixar residência em nenhum dos extremos que São Paulo convida.’

 

DIÁRIOS ASSOCIADOS
Phydia de Athayde

Aflições imperiais, 26/9

‘Dos últimos andares do edifício Franz Halls, em São Paulo, é possível avistar as arquibancadas do estádio do Pacaembu, as piscinas dos prédios e mansões vizinhos, as torres de uma igreja e antenas de tevê ao longe. É fim de tarde e o gélido sol da primavera paulistana surge e desaparece entre nuvens negras. Faz frio. No interior do apartamento, pratarias, fotos em preto-e-branco e quadros com a tinta rachada indicam que o tempo já passou. É assim, entre traços de riqueza, que vive o neto de Assis Chateaubriand, de Chatô, o rei de um Brasil que não existe mais. O economista Fernando Henrique Chateaubriand Bandeira de Mello tem 45 anos e desde a infância é parte da famigerada disputa entre sua família e os controladores do grupo Diários Associados.

Há três processos principais nesse sentido. Em um deles, os herdeiros de Chatô pedem ressarcimento e questionam o destino de uma indenização de 220,8 milhões de reais paga ao grupo pelo governo, em 1997, por conta do fechamento arbitrário da TV Rádio Clube do Recife. ‘Nem Chatô foi tão longe’, estampou CartaCapital (capa da edição 57) ao revelar os bastidores da gentileza de FHC ao então presidente dos Associados, Paulo Cabral Araújo. Em 2000, a ação dos herdeiros conseguiu bloquear os bens pessoais e de onze empresas dos condôminos dos Associados. Mas o imbróglio está longe do fim.

Um julgamento marcado para 29 de setembro tenta afastar do caso a desembargadora Letícia de Faria Sardas. A alegação é que ela não tem isenção para julgar a ação dos herdeiros, pois teria amizade com três co-réus. A magistrada participou de uma homenagem aos Diários Associados, realizada na Academia Brasileira de Letras em 9 de novembro do ano passado. Na ocasião, entregou uma honraria a Álvaro Teixeira da Costa, homem forte do grupo e co-réu no processo. O encontro foi registrado em fotografias.

‘Não adianta termos razão se caímos nas mãos de magistrados assim. Como uma desembargadora faz isso?’, questiona Fernando, neto de Chatô. ‘Há coisas que precisam ser ditas. Esse problema do Judiciário não acontece apenas no nosso caso, está disseminado.’

*Confira a íntegra desta reportagem na edição impressa’

 

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Folha de S. Paulo – 1

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O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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