Domingo, 26 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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FEITOS & DESFEITAS >

Carta aberta em defesa da TV pública

Por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar em 01/04/2008 na edição 479

Prezado Franklin Martins, agora ministro, superando antagonismos e contradições em um país que, de tão original, consegue estamentar até filosofias e utopias, para não se falar de realidades. Vossa Excelência torna-se condutor de homens sem levá-los ao servilismo, uma suprema verdade! Esta que perseguiremos por toda a vida no mundo da arte.

E o tempo finge que passa em sua perpétua eternidade nos levando com ele para eternidade nenhuma, deixando apenas alguns rastros que podem ser de alguma benignidade ou de terrível maldição: diferenças de muitas aparências e de simulacros de uma mesma realidade, esta de que é composta a nossa própria natureza, e que nós vamos procurando expressar como verdades, coisas nossas e que nunca conseguiremos mudar nem em nós mesmos, querendo ampliar, sem o verdadeiro entendimento de diferenças das quais nos distanciamos, negando a própria natureza de que tudo dá conta, para imposição da nossa.

Gente como nós, de nossa geração inquieta, inconformada e visionária, iluminados por inúmeras idéias e estigmatizados por tanta repressão, nunca deixamos de traçar um destino muito nosso, mas nunca esquecendo o sentido elevado da agregação e da presença do outro, o de uma idéia ampliada, apesar dos poucos entendimentos para tantas contradições em uma realidade como a nossa. E com tantos vícios, danos e perdas e a eloqüência do imaginário, optamos pela arte como um princípio de o que fazer da vida.

Idéia de Brasil

Aqui chegamos questionando a vida com o que ela tem feito de nós. Neste mundo de uma hegemonia brutal ampliada querendo fazer de nós senso comum, folclore ou exotismo. Sem uma visão ampliada de tantas diferenças para a construção de uma idéia comum e mais desejosa, a de uma outra hegemonia! Daquelas coisas que em nossa juventude e nossas primeiras manifestações tentávamos definir para nós mesmos e sem perder o sentido maior, o da significação, uma questão de fundo, esta idéia de um país que parece começar a se esboçar. E justamente em um mundo globalizado pelas inutilidades e o deslocamento de valores sociais e humanos, e que somente a cultura menos ideologizada pode ampliar para tocar o senso comum. Felizmente nosso Brasil é múltiplo, de muitos ideais e projetos. Cujas diferenças, mesmo desterritorializadas, começamos agregar, sem negar o passado, sempre negado e, agora, melhor entendido para alguma transformação mais humana.

Parece também que vivemos um momento raro e excepcional para o desbloqueio do tempo, para uma afinidade mais eletiva com história e nosso imaginário, mais próximos de um bloco histórico consciente da necessidade de construção dessa hegemonia menos estamentada, de gente comum construindo o senso comum, o que precisamos nesta nova construção de realidades. Desagregando e, ao mesmo tempo, agregando sem endurecer, transfigurando sem mutilar. Graças a uma nova concepção de tempo e de espaço agregando a mística, as diferenças, a força e a capacidade dos homens para uma nova concepção que a consciência, a cultura, a experiência e a oportunidade do poder oferecem. E nunca os dados, as oportunidades e o universo foram tão animadores.

Chegamos a um ponto estupendo de encontros, o desta TV pública, no sentido das oportunidades e das responsabilidades ampliadas e compartilhadas para uma hegemonia, a do senso comum: econômico, político e cultural. Uma correspondência de passado e presente, de história e imaginário, e com a absorção de tempo e espaço para esta construção. E para uma coisa nossa, sem cópias e simulacros e, original, lugar para uma idéia de Brasil! E sem os medos da velocidade e do fetiche, desconsertando o tempo para a imposição das inutilidades, da ignorância e da barbárie. Da tradição!

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Respectivamente, diretor de cinema, escritor e artista plástico; e co-diretor dos longas Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja

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