Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > PATRIMÔNIO CULTURAL

Censura no Cinema Icaraí

Por Pedro de Luna em 11/03/2008 na edição 476

A história começou em agosto de 1907, quando o Cinematógrapho Icarahy funcionava ao ar livre na praça Getúlio Vargas, no bairro de Icaraí, Niterói, RJ. O passo seguinte foi a transferência do ‘cinema’ para uma casa em frente, no ano de 1916. O prédio atual, com capacidade para 811 espectadores, foi erguido na década de 1940 pela empresa Cinemas São Luiz Ltda. Hoje, o imóvel é um dos últimos em estilo art déco na cidade e testemunha o desenvolvimento urbano do município. Como prova da afeição do povo pelo cinema, a lei 1.830 (04/06/01) promove o seu tombamento, bem como da já citada praça.

Em 2005, com a crescente expansão das salas de cinema em shopping centers, o Icaraí, último cinema de rua de Niterói, fechou suas portas. Representantes do grupo Severiano Ribeiro, então proprietário do imóvel, decidiram encerrar as atividades alegando questões comerciais. O Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural sugeriu, então, a construção de mais salas, menores, no espaço do cinema. Mas o lobby da indústria imobiliária era mais forte. Com a articulação de dois vereadores da cidade, em agosto de 2006 foi promulgada a Lei 2381 que ‘destomba’ parcialmente o Cine Icaraí, preservando apenas a fachada frontal e permitindo a construção, no local, de um edifício de 14 andares. Afinal, o cinema está localizado de frente para a Praia de Icaraí, ponto nobre da cidade…

Tapume e letreiro viram telas

A partir daí, começa um cabo de guerra entre Prefeitura e Câmara de Vereadores em torno deste marco de diversão e cultura na cidade. Entra em cena o jovem vereador Leonardo Giordano (PT), que solicita ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) o tombamento do prédio como um todo, alegando que o mesmo é patrimônio imaterial, parte da história cultural de Niterói. Aprovado, o processo de tombamento encontra-se há meses na mesa do governador Sérgio Cabral, à espera da assinatura definitiva. Quanto à empresa Kopex, atual proprietária, aguarda, calada, o desenrolar dos acontecimentos.

A luta pela reabertura do Cinema Icaraí como cinema ou espaço cultural vem mobilizando todas as entidades do movimento social organizado e a população niteroiense. Visando à preservação do imóvel e segurança, a entrada do prédio, que vinha sendo usada como dormitório de mendigos, foi fechada por um tapume de madeira, transformado em tela de projeção. A partir de março de 2007, o vereador Giordano, apoiado por artistas locais, passou a exibir um filme a cada mês, começando com Cinema Paradiso. Em junho, as ações ganharam corpo com a adesão do movimento Araribóia Rock, que projetou na mídia o evento ‘Participativo Cultural’.

Desde então, a cada última sexta-feira do mês, artistas e população ocupam a praça Getúlio Vargas para protestar, com arte e irreverência, contra o fechamento do espaço. No palco, bandas de rock locais apresentam-se, enquanto no telão são exibidos curtas-metragens, documentários e animações. O tapume e o letreiro do cinema transformam-se em telas para pintores, designers, cartunistas e artistas plásticos em geral.

Papel social

Em 29 de fevereiro passado, eu e o ilustrador Wilbor fomos convidados a fazer intervenções artísticas no local, que havia sido previamente coberto por grafites ‘politicamente corretos’. Ou seja, para tentar acabar com os protestos artísticos pré-existentes, alguém (ou alguma entidade) decidira cobrir o local com fadinhas, tags e outros desenhos mais ‘inofensivos’.

Pois bem, no dia previsto, nós fizemos uma tirinha em tamanho grande, desenhos em estêncil e charges, criticando a especulação imobiliária. Um desenho mostra dois empreiteiros demonstrando seu desejo de construir mais prédios e o governante respondendo que ‘quanto mais $ melhor’. Ao lado, a frase: ‘Hoje o Cinema Icaraí, amanhã o (estádio) Caio Martins…’. O estêncil do Wilbor traz um ‘maleiro’ com notas voando da pasta, em seqüência, imitando frames de cinema. Durante as horas que ficamos pendurados em escadas entre tintas, canetas e sprays, diversas pessoas passaram para elogiar, conversar, fotografar e estimular nossa atitude.

Na quarta-feira (5/3), apenas quatro dias depois, recebi logo pela manhã uma ligação de um amigo dizendo que a Companhia de Limpeza de Niterói (CLIN) estava pintando o tapume com tinta branca. Num momento em que se discute a Lei de Imprensa e a liberdade de expressão, o que pensar de um gesto de censura como este? Diante da repercussão negativa desta iniciativa, outra pessoa me telefonou para dizer que estavam retirando telhas do Cinema Icaraí com a finalidade de deteriorar o prédio com água da chuva e sol. Ou seja, para que o imóvel venha abaixo de uma vez.

Deixo para o leitor as conclusões. Sou um artista e considero ser meu papel social contribuir para que as pessoas reflitam sobre o que consideram uma cidade mais justa, mais democrática e com melhor qualidade de vida.

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Artista plástico

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