Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > FITA DA FITA

Chame o ladrão

Por Carlos Brickmann em 06/04/2004 na edição 271

Ninguém na imprensa prestou atenção na parte mais significativa da famosa gravação em que o subprocurador José Roberto Santoro fazia propostas de barganha ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Em determinado momento, Cachoeira propôs o seguinte negócio ao procurador: ele indicaria onde estava a fita tão desejada, o procurador faria um pedido de busca e apreensão, e tudo estaria resolvido. O procurador então declarou que, se houvesse busca e apreensão, a Polícia Federal ficaria com a fita. O primeiro a recebê-la, diz o subprocurador Santoro, seria o Lacerda (provável menção ao delegado Paulo Lacerda, que comanda a instituição); depois, o Márcio Thomaz Bastos; aí o José Dirceu e, por fim, Lula.

Traduzindo: a Polícia Federal, de acordo com a frase do subprocurador, não é digna de crédito, não pode realizar as tarefas de sua competência. E seu principal problema é entregar aquilo que foi apreendido a seu chefe – e depois ao chefe do chefe, até chegar ao presidente da República. Todos estes só deveriam tomar conhecimento da fita mais tarde.

Por quê? Se não podemos chamar a Polícia, a quem recorrer?



‘Parceria’

Em São Paulo, outro procurador, falando na TV, elogiou ‘a parceria entre imprensa e Ministério Público’. Para a imprensa, isto é uma vergonha: a única parceria aceitável para os jornalistas é com seus leitores. Qualquer outra parceria, seja com quem for, distorce o noticiário; não é boa para o leitor.

E, se alguém quiser fazer um paralelo histórico, logo após o movimento militar de março de 1964 houve uma Comissão Geral de Inquérito, presidida pelo marechal Estêvão Taurino de Rezende e destinada a punir corruptos e subversivos. Se algum jornalista colaborasse (ou melhor, aceitasse parcerias) com os acusadores, seria considerado, com justiça, um mau profissional, um mau caráter, um bom dedo-duro.



Golpe e revolução

A propósito, como bem notou o excelente Carlos Heitor Cony, não há ninguém no Brasil que tenha apoiado a Revolução. Hoje, os mais fanáticos revolucionários de 64, os mais ferozes na caça à subversão, referem-se ao movimento militar como ‘golpe’. E, embora tenham evitado noticiá-la na época, elogiam hoje a mobilização pelas eleições diretas, que agora consideram (e com justiça) uma das alavancas que derrubaram o regime autoritário. Mas, se todo mundo que hoje se declara contrário ao 31 de março fosse mesmo contrário, o movimento não teria ocorrido, por falta de quórum.



Bom texto

O médico David Lerer, uma das pessoas mais perseguidas durante o regime ditatorial, escreveu um belo artigo sobre os últimos dias de poder do presidente João Goulart para um jornal do litoral paulista, o Imprensa Livre, de São Sebastião. E comparou o que ocorria naquela época com os fatos de hoje. Um trecho:

‘O clima nos últimos dias de Goulart era o de um drama de Shakespeare a caminho de seu inexorável fim, e o próprio Jango uma espécie de Hamlet dividido entre suas origens de grande fazendeiro e sua vocação trabalhista e nacionalista. Já as trapalhadas do governo Lula lembram um filme do Mazzaropi’.



Olha o cuidado!

O Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul tomou uma decisão das mais importantes para os jornalistas: decidiu que o jornal que faz uma denúncia errada deve pagar indenização. O caso foi pitoresco: o jornal trocou a qualificação de uma vítima e colocou-a como membro da quadrilha criminosa. Aparentemente, não foi má-fé: foi engano mesmo. O jornal, em seguida, divulgou um desmentido. E foi condenado assim mesmo.



Verde abaixo

A imprensa está tratando com a maior discrição a derrubada das árvores da avenida Ibirapuera, em São Paulo – belas árvores, árvores antigas, plantadas num amplo canteiro central que se pretende destruir. A prefeitura quer colocar um corredor de ônibus e trocar a sombra do arvoredo pela negra fumaça do diesel – afinal de contas, fumaça também faz sombra. Os jornais têm noticiado sem ênfase a mobilização popular em favor das árvores, têm ignorado as tentativas da Prefeitura paulistana de criar fatos consumados, desrespeitando decisões judiciais. E têm ignorado solenemente uma coisa importante: pelo Plano Diretor Estratégico do Município (lei 13.430, de 13 de setembro de 2002, quando a atual prefeita já exercia seu mandato), a avenida Ibirapuera é considerada um caminho verde – e como é que se faz um caminho verde derrubando suas árvores?



Dúvidas, dúvidas

E voltemos às fitas gravadas. Pelo que se sabe, a conversa entre o subprocurador José Roberto Santoro e o empresário zoológico do ramo do lazer Carlinhos Cachoeira durou aproximadamente quatro horas. As fitas disponíveis mostram cerca de meia hora de conversa.

Cadê o resto do bate-papo? Por que só uma das fitas apareceu até agora? Será que as outras fitas deixavam bem o subprocurador, e por isso foram esquecidas? Todas as hipóteses devem ser examinadas.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação, e-mail (carlos@brickmann.com.br)

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