Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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FEITOS & DESFEITAS >

Charles Darwin nos jornais

Por Ulisses Capozzoli em 08/07/2008 na edição 493

Artigos e reportagens já começaram a aparecer nos jornais, mas entre este ano e o próximo certamente ainda haverá muito mais sobre Charles Darwin e o ‘darwinismo’ ou ‘evolucionismo’. A razão disso é a comemoração dos 150 anos da exposição do que é considerada a maior conquista (ou descoberta) científica do século 19.

Contrariando o que diz a Bíblia, Darwin, para seu próprio desassossego, ousou defender que tudo que existe hoje, enquanto forma de vida, descende de um ancestral, ainda mais antigo, num fascinante processo de lapidação, a partir do que ficou conhecido como seleção natural.

O impacto maior atingiu evidentemente a origem do homem, o que pode ser resumido na seguinte cena. Em 1860, primeiro aniversário de lançamento de A Origem das Espécies, livro onde Darwin expôs seus pontos de vista, a Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência – entidade que inspirou a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948 – organizou uma de suas reuniões anuais.

No encontro, Thomas Henry Huxley (1825-1895), considerado o maior defensor das idéias de Darwin, ouviu do bispo de Oxford, Samuel Wilberfoce, a petulante pergunta com pretensões de cientificidade: ‘É por parte de seu avô ou sua avó que o senhor descende de um macaco’?

Beleza misteriosa

Huxley, um dos mais importantes conferencistas de sua época, futuro presidente da Royal Society, não se perturbou. Disse que entre ser parente de um homem importante em assuntos da igreja e do Estado, mas determinado a ridicularizar quem buscasse a verdade, e um macaco se arrastando na jaula, mas que representasse o milagre e o mistério da natureza, não teria dúvida em optar pela segunda alternativa.

Foi quando a mulher do bispo sussurrou para os mais próximos: ‘Ora esta, agora, descender de macacos. Mas, se for verdade, oremos para que ninguém saiba disso’.

Relatos históricos dão conta de que uma mulher da platéia, que nunca havia visto um bispo anglicano ser tratado dessa forma, desmaiou.

Aqui certamente vale lembrar, para detratores do darwinismo, criacionistas de diferentes calibres, que Darwin referiu-se ao homem descender de um tronco comum entre homens e macacos, a exemplo de tudo o que vive. Ou seja, tudo o que vive hoje descende de um organismo ainda mais antigo, o que significa dizer que a criação de humanos e animais, como descrito pela Bíblia, é uma alegoria. Bela enquanto alegoria, mas inútil enquanto relato fiel aos fatos.

Mais que as palavras do bispo – que com as devidas variações continuam sendo reproduzidas, tanto em relação à ascendência do homem quanto a temas como células-tronco – mais significativa foi a posição cínica de sua mulher.

Cínica e sem perspectiva. Prova disso é que Charles Darwin está nas páginas dos jornais, enquanto o bispo e a mulher são sinônimos de obscurantismo e incapacidade de refletir em seus corações e mentes a misteriosa beleza da natureza e da vida.

Público ampliado

Na Inglaterra a presença de Darwin – enquanto metáfora da ciência como relato da história do Universo e da vida – é, historicamente, mais intensa que no Brasil.

A Revolução Industrial, como é chamada a substituição de músculos humanos e de animais pela força mecânica das máquinas, teve seu berço na Inglaterra onde, desde muito cedo, uma preocupação com conhecimento levou a ciência às páginas dos jornais, salas de conferências e reuniões em associações específicas, sem falar de museus.

Para citar um único desdobramento dessa ordem, foi a pressão inglesa para vender máquinas que arruinou o tráfico de escravos para o Brasil e impediu a continuidade de uma brutalidade com poucos paralelos na História. Ainda que, aqui, cada senhor de escravos tivesse, no pátio da casa-grande, uma capela onde buscava, com piedosa intermediação da igreja, acertar contas com a eternidade.

No Brasil, o patrono do jornalismo científico moderno, José Reis, foi quem, na SBPC, criou uma revista, Ciência e Cultura, com a determinação de sensibilizar a sociedade para as perspectivas da ciência. Mas, muito antes dele, da Inglaterra, Hipólito José da Costa com seu Correio Braziliense foi um dos pioneiros na preocupação de oferecer ciência para um público mais amplo, sem acesso à academia.

Células-tronco

Conhecimento científico é fundamental para um processo de humanização. Afinal, vem da ciência – enquanto parte da cultura humana e não como algo à parte da cultura humana, como avaliam pretensões desavisadas – um relato sobre a origem do Cosmos e do homem. Daí a necessidade de a ciência estar, cada vez mais, nas páginas nos jornais, ocupando o espaço das efemeridades, tolices ou pura mentira em especulações interessadas em poder e dinheiro, como se fossem a essência do mundo.

O leitor pode dizer que se trata de uma posição ingênua. Pode ser. Mas se alguma coisa de mais promissora estiver tomando forma no horizonte, certamente estará de alguma forma relacionada ao conhecimento. Não ao conhecimento reducionista, forma com que muitas vezes também se faz ciência – ciência de baixa qualidade, como literatura ordinária e tudo o mais que se pode produzir na falta de talento, inteligência e comprometimento ético e especialmente estético.

A propósito – com a esperança de que não se repita – recentemente uma leitora de Belo Horizonte, identificada como médica de profissão, confundiu noções de estética, reflexões encontradas em pensadores como Kant e Schopenhauer, com fundamentos de salão de cabeleireira…

A ex-União Soviética talvez seja um bom exemplo de caso onde a produção de ciência não consolidou uma sociedade democrática. De qualquer maneira, ao menos nesta altura da história, é impossível pensar que se possa chegar a uma sociedade democrática na ausência de uma sólida base social em ciência.

Aqui, mais uma vez, os recentes debates em torno de células-tronco podem exemplificar a necessidade de boa informação para garantir a tomada de posições consistentes com o futuro, neste caso um estágio de ciência em que transplantes de órgãos serão coisa do passado, entre outros muitos avanços.

Mas pode ser até mais ampla, como ocorreu com o chamado ‘darwinismo social’, expressão popularizada pelo historiador americano Richard Hofstadter, mas pensada pelo filósofo inglês Herbert Spencer, outro admirador de Darwin.

Crenças dogmáticas

Autor da expressão ‘sobrevivência do mais apto’, Spencer procurou estender as leis da evolução à sociedade humana. Inspirados em Spencer autores e ideologias tentaram justificar desde a divisão da sociedade em classes e ao imperialismo europeu, com pretensa base na seleção natural. O filósofo russo e anarquista Piotr Kropotkin esteve entre os que refutaram essa manipulação considerando que, mais que disputar, os humanos cooperam entre si e exatamente por isso vivem em sociedade.

Como se vê, uma boa fundamentação em ciência é importante não apenas para aceitar e participar da construção do novo, mas também escapar de interpretações capciosas, comprometidas com uma ordem de interesses desumanos e desumanizadores. Por essa e muitas outras razões é fundamental que Charles Darwin esteja, agora e sempre, nas páginas de todos os jornais.

A população, especialmente as pessoas que lêem jornais ou revistas, mas nunca freqüentaram os bancos das universidades, têm o direito de conhecer seu pensamento, sua obra. Sobretudo sua angústia quanto à inevitabilidade de implodir uma ordem onde pontificavam homens pretensiosos – intelectualmente desonestos, para não dizer ignorantes até mesmo de uma verdadeira religiosidade, neste caso uma religiosidade cósmica – como o bispo Wilberfoce.

Essa gente, obcecada por suas crenças dogmáticas, não tem qualquer compromisso com a humanização. A história tende a se livrar deles, mas não antes de terem produzido ferimentos de difícil cicatrização.

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