Charles Darwin nos jornais | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO CIENTÍFICO

Charles Darwin nos jornais

Por Ulisses Capozzoli em 08/07/2008 na edição 493

Artigos e reportagens já começaram a aparecer nos jornais, mas entre este ano e o próximo certamente ainda haverá muito mais sobre Charles Darwin e o ‘darwinismo’ ou ‘evolucionismo’. A razão disso é a comemoração dos 150 anos da exposição do que é considerada a maior conquista (ou descoberta) científica do século 19.

Contrariando o que diz a Bíblia, Darwin, para seu próprio desassossego, ousou defender que tudo que existe hoje, enquanto forma de vida, descende de um ancestral, ainda mais antigo, num fascinante processo de lapidação, a partir do que ficou conhecido como seleção natural.

O impacto maior atingiu evidentemente a origem do homem, o que pode ser resumido na seguinte cena. Em 1860, primeiro aniversário de lançamento de A Origem das Espécies, livro onde Darwin expôs seus pontos de vista, a Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência – entidade que inspirou a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948 – organizou uma de suas reuniões anuais.

No encontro, Thomas Henry Huxley (1825-1895), considerado o maior defensor das idéias de Darwin, ouviu do bispo de Oxford, Samuel Wilberfoce, a petulante pergunta com pretensões de cientificidade: ‘É por parte de seu avô ou sua avó que o senhor descende de um macaco’?

Beleza misteriosa

Huxley, um dos mais importantes conferencistas de sua época, futuro presidente da Royal Society, não se perturbou. Disse que entre ser parente de um homem importante em assuntos da igreja e do Estado, mas determinado a ridicularizar quem buscasse a verdade, e um macaco se arrastando na jaula, mas que representasse o milagre e o mistério da natureza, não teria dúvida em optar pela segunda alternativa.

Foi quando a mulher do bispo sussurrou para os mais próximos: ‘Ora esta, agora, descender de macacos. Mas, se for verdade, oremos para que ninguém saiba disso’.

Relatos históricos dão conta de que uma mulher da platéia, que nunca havia visto um bispo anglicano ser tratado dessa forma, desmaiou.

Aqui certamente vale lembrar, para detratores do darwinismo, criacionistas de diferentes calibres, que Darwin referiu-se ao homem descender de um tronco comum entre homens e macacos, a exemplo de tudo o que vive. Ou seja, tudo o que vive hoje descende de um organismo ainda mais antigo, o que significa dizer que a criação de humanos e animais, como descrito pela Bíblia, é uma alegoria. Bela enquanto alegoria, mas inútil enquanto relato fiel aos fatos.

Mais que as palavras do bispo – que com as devidas variações continuam sendo reproduzidas, tanto em relação à ascendência do homem quanto a temas como células-tronco – mais significativa foi a posição cínica de sua mulher.

Cínica e sem perspectiva. Prova disso é que Charles Darwin está nas páginas dos jornais, enquanto o bispo e a mulher são sinônimos de obscurantismo e incapacidade de refletir em seus corações e mentes a misteriosa beleza da natureza e da vida.

Público ampliado

Na Inglaterra a presença de Darwin – enquanto metáfora da ciência como relato da história do Universo e da vida – é, historicamente, mais intensa que no Brasil.

A Revolução Industrial, como é chamada a substituição de músculos humanos e de animais pela força mecânica das máquinas, teve seu berço na Inglaterra onde, desde muito cedo, uma preocupação com conhecimento levou a ciência às páginas dos jornais, salas de conferências e reuniões em associações específicas, sem falar de museus.

Para citar um único desdobramento dessa ordem, foi a pressão inglesa para vender máquinas que arruinou o tráfico de escravos para o Brasil e impediu a continuidade de uma brutalidade com poucos paralelos na História. Ainda que, aqui, cada senhor de escravos tivesse, no pátio da casa-grande, uma capela onde buscava, com piedosa intermediação da igreja, acertar contas com a eternidade.

No Brasil, o patrono do jornalismo científico moderno, José Reis, foi quem, na SBPC, criou uma revista, Ciência e Cultura, com a determinação de sensibilizar a sociedade para as perspectivas da ciência. Mas, muito antes dele, da Inglaterra, Hipólito José da Costa com seu Correio Braziliense foi um dos pioneiros na preocupação de oferecer ciência para um público mais amplo, sem acesso à academia.

Células-tronco

Conhecimento científico é fundamental para um processo de humanização. Afinal, vem da ciência – enquanto parte da cultura humana e não como algo à parte da cultura humana, como avaliam pretensões desavisadas – um relato sobre a origem do Cosmos e do homem. Daí a necessidade de a ciência estar, cada vez mais, nas páginas nos jornais, ocupando o espaço das efemeridades, tolices ou pura mentira em especulações interessadas em poder e dinheiro, como se fossem a essência do mundo.

O leitor pode dizer que se trata de uma posição ingênua. Pode ser. Mas se alguma coisa de mais promissora estiver tomando forma no horizonte, certamente estará de alguma forma relacionada ao conhecimento. Não ao conhecimento reducionista, forma com que muitas vezes também se faz ciência – ciência de baixa qualidade, como literatura ordinária e tudo o mais que se pode produzir na falta de talento, inteligência e comprometimento ético e especialmente estético.

A propósito – com a esperança de que não se repita – recentemente uma leitora de Belo Horizonte, identificada como médica de profissão, confundiu noções de estética, reflexões encontradas em pensadores como Kant e Schopenhauer, com fundamentos de salão de cabeleireira…

A ex-União Soviética talvez seja um bom exemplo de caso onde a produção de ciência não consolidou uma sociedade democrática. De qualquer maneira, ao menos nesta altura da história, é impossível pensar que se possa chegar a uma sociedade democrática na ausência de uma sólida base social em ciência.

Aqui, mais uma vez, os recentes debates em torno de células-tronco podem exemplificar a necessidade de boa informação para garantir a tomada de posições consistentes com o futuro, neste caso um estágio de ciência em que transplantes de órgãos serão coisa do passado, entre outros muitos avanços.

Mas pode ser até mais ampla, como ocorreu com o chamado ‘darwinismo social’, expressão popularizada pelo historiador americano Richard Hofstadter, mas pensada pelo filósofo inglês Herbert Spencer, outro admirador de Darwin.

Crenças dogmáticas

Autor da expressão ‘sobrevivência do mais apto’, Spencer procurou estender as leis da evolução à sociedade humana. Inspirados em Spencer autores e ideologias tentaram justificar desde a divisão da sociedade em classes e ao imperialismo europeu, com pretensa base na seleção natural. O filósofo russo e anarquista Piotr Kropotkin esteve entre os que refutaram essa manipulação considerando que, mais que disputar, os humanos cooperam entre si e exatamente por isso vivem em sociedade.

Como se vê, uma boa fundamentação em ciência é importante não apenas para aceitar e participar da construção do novo, mas também escapar de interpretações capciosas, comprometidas com uma ordem de interesses desumanos e desumanizadores. Por essa e muitas outras razões é fundamental que Charles Darwin esteja, agora e sempre, nas páginas de todos os jornais.

A população, especialmente as pessoas que lêem jornais ou revistas, mas nunca freqüentaram os bancos das universidades, têm o direito de conhecer seu pensamento, sua obra. Sobretudo sua angústia quanto à inevitabilidade de implodir uma ordem onde pontificavam homens pretensiosos – intelectualmente desonestos, para não dizer ignorantes até mesmo de uma verdadeira religiosidade, neste caso uma religiosidade cósmica – como o bispo Wilberfoce.

Essa gente, obcecada por suas crenças dogmáticas, não tem qualquer compromisso com a humanização. A história tende a se livrar deles, mas não antes de terem produzido ferimentos de difícil cicatrização.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/07/2008 Alexandre Ramos

    Quem denuncia o ‘antropocentrismo’ como um erro, por colocar o ser humano em primazia em relação aos outros seres vivos, na verdade atira no próprio pé, pois pode estar se baseando na primazia do racionalismo cientificista em relação a outras formas de conhecimentos, inclusive o conhecimento tradicional. Vivemos um momento histórico em que a ciência passa a ser encarada como um produto cultural e não como o único instrumento em busca de conhecimentos válidos. A modernidade, mãe deste racionalismo cientificista pretencioso, se caracterizou pela negação do senso comum e do conhecimento tradicional, mas ela própria inaugurou uma nova ‘tradição’ que agora está sendo questionada. Além disso, a dicotomia entre ‘criacionismo’ e ‘evolucionismo’ só pode ser alimentada, por um lado, por religiosos que não abriram os olhos para a valiosa contribuição da ciência; e por outro, pelos dogmáticos defensores da ciência materialista, crentes do ‘acaso’. Mas não existem apenas religiosos e cientistas dogmáticos. Existem aqueles que, como Einstein e Wallace, conceberam explicações que demonstram que o Universo é complexo, mas que por trás dessa complexidade ainda podemos vislumbrar Deus. O criacionismo reducionista pode ser tão dogmático quanto o evolucionismo materialista. O homem não nasceu do barro? A matéria orgânica que nos constitui vem de onde? Viva a diversidade… de opiniões!

  2. Comentou em 11/07/2008 Alexandre Ramos

    Quem denuncia o ‘antropocentrismo’ como um erro, por colocar o ser humano em primazia em relação aos outros seres vivos, na verdade atira no próprio pé, pois pode estar se baseando na primazia do racionalismo cientificista em relação a outras formas de conhecimentos, inclusive o conhecimento tradicional. Vivemos um momento histórico em que a ciência passa a ser encarada como um produto cultural e não como o único instrumento em busca de conhecimentos válidos. A modernidade, mãe deste racionalismo cientificista pretencioso, se caracterizou pela negação do senso comum e do conhecimento tradicional, mas ela própria inaugurou uma nova ‘tradição’ que agora está sendo questionada. Além disso, a dicotomia entre ‘criacionismo’ e ‘evolucionismo’ só pode ser alimentada, por um lado, por religiosos que não abriram os olhos para a valiosa contribuição da ciência; e por outro, pelos dogmáticos defensores da ciência materialista, crentes do ‘acaso’. Mas não existem apenas religiosos e cientistas dogmáticos. Existem aqueles que, como Einstein e Wallace, conceberam explicações que demonstram que o Universo é complexo, mas que por trás dessa complexidade ainda podemos vislumbrar Deus. O criacionismo reducionista pode ser tão dogmático quanto o evolucionismo materialista. O homem não nasceu do barro? A matéria orgânica que nos constitui vem de onde? Viva a diversidade… de opiniões!

  3. Comentou em 09/07/2008 Alexandre Ramos

    Volto ao assunto da falsa dicotomia entre ciência e religião, pois em geral Darwin é apresentado, pelos materialistas, como inimigo número 1 de Deus. Recordo que Alfred Russel Wallace, um dos pilares do evolucionismo (conforme outros já citaram abaixo), foi um que se tornou espiritualista após ter formulado sua teoria, engrossando as fileiras de cientistas renomados que abraçaram a causa do Moderno Espiritualismo nos países anglo-saxões do Espiritismo, cuja origem é francesa ou latina. Outro assunto dogmaticamente tratado é o das pesquisas com células tronco embrionárias. Em minha modesta opinião, toda a discussão sobre o assunto tem e deve ter o suporte científico, que oferece informações tanto para quem é a favor quanto para que é contra tais pesquisas. Mas no fim das contas, qualquer decisão possível é política ou, mais propriamente, ética, e os religiosos não estão errados em procurar influenciar a opinião pública, fornecendo argumentos contra ou a favor, de acordo com suas crenças. Não dá para argumentar que a ciência bateu o martelo e definiu quando começa a vida humana, que é que todos pretendem preservar. Quem bateu provisoriamente o martelo foi a justiça, baseada em diferentes informações, inclusive científicas, mas o placar foi apertado: 6 votos contra 5. Quem perdeu? Sinceramente não sei, pois não acredito na dicotomia entre ciência e religião!

  4. Comentou em 09/07/2008 Alexandre Ramos

    Volto ao assunto da falsa dicotomia entre ciência e religião, pois em geral Darwin é apresentado, pelos materialistas, como inimigo número 1 de Deus. Recordo que Alfred Russel Wallace, um dos pilares do evolucionismo (conforme outros já citaram abaixo), foi um que se tornou espiritualista após ter formulado sua teoria, engrossando as fileiras de cientistas renomados que abraçaram a causa do Moderno Espiritualismo nos países anglo-saxões do Espiritismo, cuja origem é francesa ou latina. Outro assunto dogmaticamente tratado é o das pesquisas com células tronco embrionárias. Em minha modesta opinião, toda a discussão sobre o assunto tem e deve ter o suporte científico, que oferece informações tanto para quem é a favor quanto para que é contra tais pesquisas. Mas no fim das contas, qualquer decisão possível é política ou, mais propriamente, ética, e os religiosos não estão errados em procurar influenciar a opinião pública, fornecendo argumentos contra ou a favor, de acordo com suas crenças. Não dá para argumentar que a ciência bateu o martelo e definiu quando começa a vida humana, que é que todos pretendem preservar. Quem bateu provisoriamente o martelo foi a justiça, baseada em diferentes informações, inclusive científicas, mas o placar foi apertado: 6 votos contra 5. Quem perdeu? Sinceramente não sei, pois não acredito na dicotomia entre ciência e religião!

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem