Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Chega de opressão

Por Maria Luiza Franco Busse em 10/03/2009 na edição 528

Os blocos de rua foram o assunto novo na cobertura de carnaval deste ano. Do Leme ao Pontal, passando por Cascadura, Vaz Lobo e Irajá, incluindo Madureira, Botafogo, Tijuca e todo e qualquer outro bairro para desaguar no Centro, o espaço público foi tomado por milhares de pessoas no Rio de Janeiro.

O fenômeno da retomada da cidade pelo povo carnavalesco começou na década de 90, depois que as cores da pluralidade política voltaram. Coincidência ou não, fico com o não, insinuando uma paródia com a letra da marchinha ‘Vê, estão voltando as flores…’

É preciso investigar melhor a relação entre a liberdade de expressão e a remoção do cinza chumbo que invadiu o Brasil nos anos da ditadura, mas creio que ela procede.

E indo adiante, neste ano de 2009 o Cordão do Bola Preta abriu a festa com uma multidão calculada em 1 milhão de pessoas. Na cobertura jornalística, a estimativa de participantes é uma regra que funciona como medida de reconhecimento da aceitação de qualquer evento – e nesse caso não foi diferente. Ela, a regra, foi perfeitamente cumprida. Entretanto, agregada a essa boa norma, assistiu-se à introdução da retórica da ordem pública na figura do xixi.

‘Necessidade não pode infringir leis’

A instalação de banheiros químicos era uma reivindicação dos próprios blocos. A campanha, se a memória não falha, começou com o jornal Bafafá, que agora não tem mais versão impressa, só online. O editor Ricardo Rabelo tem uma forte noção de cidadania. Ele cresceu na França. Nos anos 80, foi um dos filhos de exilado entrevistados por Roberto D´Avila no programa Conexão Internacional, uma das muitas ousadias elegantes do meu também mestre Fernando Barbosa Lima. Ricardo era um garotinho que mal conhecia o Brasil e mesmo os rebentos adotados pela República que fez a revolução por liberdade, igualdade e fraternidade são ensinados e não fogem à luta quando se trata de direitos do cidadão. Pois foi com o melhor espírito cavalheiresco que os burgueses fizeram questão de conservar da aristocracia que decapitaram que Ricardo conduziu a batalha pelo direito à privada. Fui signatária do primeiro abaixo-assinado.

Os banheiros chegaram. E os blocos continuaram passando com a cobertura enfocando a quantidade de foliões e as irreverências que os editores julgavam poder mostrar sem perturbar os bons costumes.

Mas este ano não foi igual aos que passaram na divulgação do acontecimento. O xixi passou a ser uma questão de ordem. Transformou-se no estandarte da cruzada do choque de ordem, programa que a prefeitura escolheu como ação de visibilidade da nova administração. O espelho disso foi o que se viu nos noticiários das Organizações Globo. O título ‘Fora do Penico’, da matéria da página 8 do dia 2 de março de O Globo, sugeria graça na prisão do rapaz que foi flagrado pelo secretário da Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, e conduzido pelo mesmo à delegacia, fazendo xixi na rua durante o desfile do Monobloco na Avenida Rio Branco. De acordo com a matéria, o secretário declarou que ‘faltou banheiro, mas não podemos permitir que a necessidade infrinja as leis…’

… e o coração se deixa levar

Lembrei imediatamente do personagem do livro O estrangeiro, de Camus, que virou peça e está em cartaz aqui no Rio de Janeiro. Meursault, esse é o nome do protagonista, explicava para o advogado que o defendia pelo crime que cometeu por que agia de determinada maneira em situações em que a convenção esperava que se comportasse de outro modo: ‘As minhas necessidades físicas perturbavam freqüentemente os meus sentimentos.’ O promotor pediu a pena de morte. Argumentou que Meursault nada tinha a fazer numa sociedade cujas regras mais essenciais desconhecia. O júri acatou o pedido da promotoria.

Povo e blocos se encontraram nas ruas da cidade. No domingo não mais de carnaval, o Monobloco foi acompanhado por 400 mil pessoas que mais pareciam milhões ao longo do 1,6 quilômetro de extensão da Avenida Rio Branco, a contar da Presidente Vargas.

Pedro Luís e a sua parede musical iniciaram a festa com cavaquinho e guitarra tocando Bolero, de Ravel, e encerraram a animada brincadeira com a mesma composição do repertório clássico. Do alto do trio elétrico, fizeram lembrar o celebrado final do filme Retratos da vida, do francês Claude Lelouch, no qual todos, vítimas da Segunda Guerra, sem distinção de nacionalidade e credo, se reuniram para um concerto pela paz. O Monobloco fechou com bola branca o carnaval da cidade do Rio de Janeiro. Fechou, não. Abriu para o Bola Preta botar novamente o bloco na rua no ano que vem, trazendo a alegria educada pelas políticas cidadãs de emprego, moradia e saneamento básico que a prefeitura deve implementar para elevar o índice de desenvolvimento humano. Ah, o xixi? Gostaria muito de ter lido matérias elogiando a retirada dos ambulantes das ruas. Sem esses obstáculos, os blocos fluíram que nem o rio que passa e o coração se deixa levar.

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Jornalista, ouvidora da TV Brasil, professora e doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

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