Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Chuva que mata

Por Jean Marcel Tanzerino em 11/03/2008 na edição 476

Qual seria a importância da publicação, em meios populares e amplamente acessíveis, de uma notícia de jornal ou televisão? Basta simplesmente informar?

Notem as manchetes de notícias veiculadas por vários jornais nos últimos tempos: ‘Chuva destelha rodoviária em João Neiva, no ES, e mata duas crianças em MG’, do Folha Online de 04/03/2008; ‘Chuva provoca morte de 2 irmãos em Belo Horizonte – MG’, do A Tarde On Line de 04/03/2008; ‘Chuva provoca morte de duas crianças em Belo Horizonte’, do Folha Online do mesmo dia; ‘Chuva deixa 300 desalojados em Ribeirão’, do A Cidade, de 23/02/2008; ‘Prefeitura culpa chuva pelo deslizamento que fechou túnel’, do G1/Globo, de 24/10/2007; e ‘Mineradora culpa chuva por rompimento de barragem e inundação em Minas’, do Folha Online de 11/01/2007.

Todas estas matérias jornalísticas supramencionadas possuem, como foco principal, a ocorrência do fenômeno meteorológico, relacionando-se os desastres diretamente à simples ocorrência das chuvas.

Segundo Eni Puccinelli Orlandi (2006:117):

‘Assim, posso dizer que os operadores (articuladores) de discurso o são a partir do ponto de vista. Isso significa que, em termos de estruturação discursiva, as unidades que concorrem para isso não o fazem por sua essência mas por seu modo de funcionamento. Um operador pode ser operador de frase (lingüístico, portanto) ou de discurso, dependendo da maneira como analiso seu funcionamento.’

E, complementando, de acordo com os ensinamentos de K. Rajagopalan (2003:84):

‘Sabemos que toda notícia, toda reportagem jornalística, começa com um ato de designação, de nomeação. Aliás, a própria gramática tradicional nos ensina que é preciso primeiro identificar o sujeito da frase para então dizer algo a respeito ou, equivalentemente, predicar alguma coisa sobre o sujeito já identificado. (…) É inegável o importante papel desempenhado pelos termos cuidadosamente escolhidos a fim de designar indivíduos, acontecimentos, lugares etc. na formação de opinião pública a respeito daqueles entes.’

Pressão pública

Ex positis, entendemos, simplificadamente, que toda construção textual possui, mesmo de modo inconsciente, uma base ideológica, de modo que, em todo o processo de construção desse texto as estruturas utilizadas são escolhidas cuidadosamente para levar o leitor a recepcionar o objeto da forma mais eficaz possível.

Note a diferença entre as notícias supramencionadas e as então propostas e arroladas: ‘Duas crianças morrem após alagamento’, ‘Barragem rompe-se e inunda cidade’, ‘Túnel é fechado no RJ’, ‘Pessoas feridas após queda da estrutura de rodoviária’.

As pessoas perguntariam: o que as autoridades públicas fizeram para impedir os alagamentos na região? Por que a mineradora não se precaveu para impedir a tragédia? Por que a rodoviária não construiu uma estrutura de melhor qualidade? E a fiscalização dos órgãos públicos? As autoridades públicas e demais interessados não se sentiriam bem com tamanha pressão pública.

Frutos da alienação

A persistência em mencionar a chuva, um simples evento da natureza, como causa principal de tragédias urbanas, não é apenas ignorar a capacidade intelectual da sociedade em prol de um menor esforço na construção textual da matéria jornalística e vantagens econômicas, mas sim, é um esforço constante, covarde e brutal de forjar, no inconsciente popular, a ideologia do conformismo, pois torna-se mais simples e eficaz tentar controlar o povo do que trabalhar honesta e arduamente visando sua felicidade.

O pior é que muita gente que escreve não se dá conta dessa situação e a minoria continua colhendo os frutos da alienação.

Referências bibliográficas

Cidade, A. Chuva deixa 300 desalojados em Ribeirão. Disponível aqui

Folha Online. Chuva destelha rodoviária em João Neiva, no ES, e mata duas crianças em MG. Disponível aqui

Folha Online. Chuva provoca morte de duas crianças em Belo Horizonte. Disponível aqui

Folha Online. Mineradora culpa chuva por rompimento de barragem e inundação em Minas. Disponível aqui

G1/Globo. Prefeitura culpa chuva pelo deslizamento que fechou túnel. Disponível aqui

ORLANDI, Eni Puccinelli. A Linguagem e se Funcionamento – As formas do discurso. 4ª ed. Campinas: Pontes, 2006.

RAJAGOPALAN, K. Por uma lingüística crítica: linguagem, identidade e a questão ética. São Paulo: Parábola, 2003.

Tarde On Line, A. Chuva provoca morte de 2 irmãos em Belo Horizonte – MG. Disponível aqui

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Professor de Língua Portuguesa e Literatura, Guarulhos, SP

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