Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > FURACAO EM SC

Ciclone pega os jornais de surpresa

Por Monitor de Mídia em 06/04/2004 na edição 271

As redações mal tinham se recuperado da cobertura das fortes chuvas no Vale do Itajaí nos dias 14 e 15 de março e um novo evento climático mobilizou os jornalistas catarinenses. Desta vez, a ocorrência era mais inusitada e falava-se de ciclone ou furacão, fenômeno inédito na região do Atlântico Sul.

Ninguém queria acreditar

As primeiras notícias surgiram no dia 27, mesma data da chegada do fenômeno na costa brasileira e pairava nas páginas dos jornais um certo ceticismo quanto à sua efetiva existência. Isso sem contar na grande confusão com relação à sua definição: ciclone ou furacão. Com chamadas discretas nas capas, os jornais deixavam escapar a incredulidade. A Notícia, por exemplo, trouxe na chamada de capa que ‘Meteorologia prevê temporal no sul de SC’. Nas páginas internas, a matéria relativa ao assunto era intitulada ‘Furacão pode atingir sul do Estado’ e no corpo do texto, a ‘meteorologia prevê a formação de um ciclone extratropical em todo o litoral catarinense’. O trocadilho é inevitável: o leitor ficou no meio de um furacão de nomes e dados…

No Diário Catarinense, no mesmo dia 27, a palavra ciclone chegou a aparecer entre aspas e o Jornal de Santa Catarina utilizou furacão do tipo um na abertura da matéria, mas esclareceu aos leitores que ‘a Samar classifica o fenômeno como ciclone extratropical’. Na capa do DC, a chamada ‘Ciclone provoca ventos fortes no litoral’ se remetia a um texto curto, no pé da página 20, lá para o final da edição.

De maneira geral, o que se percebeu é que havia muita confusão até mesmo entre os jornalistas que acompanhavam o evento. Os textos editados no sábado, 27, eram curtos e não davam ao leitor informações de como se proteger diante daquilo que anunciavam. Uma exceção mínima se deu com o Diário numa única frase, perdida no texto: ‘A PRF sugere evitar a aproximação de árvores, placas de outdoor ou qualquer tipo de objetos ou móveis que possam causar ferimentos’. Muito pouco se considerarmos os perigos que um fenômeno como este causa. É evidente que se pode argumentar que o ineditismo da ocorrência pode ter contribuído para o despreparo. Entretanto, a imprensa brasileira já sabia da chegada do ciclone-furacão desde a sexta, pelo menos. Havia tempo para pesquisas mais aprofundadas e entrevistas com especialistas. Isso poderia causar correria e pânico nos leitores? Sim, mas poderia ainda motivá-los a se proteger dos fortes ventos, da chuva sem controle e da ressaca que açoita as cidades litorâneas. Jornalismo não é apenas difusão de informações. É também prestação de serviços.

O nome e o conceito

Desde os primeiros anúncios da vinda do fenômeno, pairavam dúvidas quanto à sua classificação: ciclone, temporal ou furacão? Pelo menos até a quarta, 31, fechamento deste diagnóstico, a discussão perdurava. Enquanto institutos de meteorologia norte-americanos afirmavam ser um furacão do tipo um – formado por ventos de 119 a 152 km/h -, os técnicos brasileiros insistiam ser um ciclone extratropical. Para colocar mais lenha na fogueira, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina afirmaram ser mesmo um furacão na edição do dia 31, do DC.

Se ainda resta dúvida sobre o fenômeno que varreu 42 cidades do Sul do país, desde as primeiras notícias suas, ele já tinha nome: Catarina. Espaços generosos da imprensa local e nacional foram gastos com a polêmica sobre a real classificação que deveria ter uma ocorrência como aquela, o que na verdade não auxiliou muito a população das áreas atingidas. Em ocasiões semelhantes, importa menos saber o que está acontecendo e mais como proceder frente à ameaça.

No dia 29, as páginas dos jornais catarinenses foram tomadas por histórias da tragédia, números da Defesa Civil e discussões entre estudiosos para definir o fenômeno. Os jornais do Grupo RBS apresentaram coberturas bem semelhantes, a começar pela capa desta edição em que utilizaram a mesma foto. Além disso, os textos eram os mesmos – apenas DC publicou maior quantidade – e os infográficos também. As imagens, quando não eram iguais, tratavam o mesmo objeto sob ângulos diferentes.

Analisando as edições de 29 e 30, pode-se afirmar que a diferença entre o DC e o Santa foi o primeiro trazer grande quantidade de pequenos depoimentos da população atingida. O que pôde ser percebido também foi a concentração da cobertura na região mais atingida, já que o centro de Criciúma, por exemplo, não apareceu nas matérias. Muito positivo foi o uso de infográficos, que facilitavam a compreensão. Um exemplo foi o publicado no dia 29 intitulado ‘Entenda o que ocorreu’ que trazia as diferenças entre ciclone extratropical, tufão, tornado e furacão. Explicava ainda como se formou, o que se previa e porque o que ocorre foi diferente das previsões.

A Notícia seguiu a mesma linha: declarações de especialistas, decisões do governo, números da destruição e muitas histórias. O diferencial ficou por conta de informações mais completas sobre outras cidades atingidas. O jornal de Joinville também foi o único que trouxe nas páginas de opinião. O editorial ‘Prevenção às catástrofes’ traz que ‘Mesmo que o caráter peculiar de um furacão ou ciclone tenha impressionada a opinião pública, é preciso lembrar que o Estado sofre com outros desastres naturais, como as enchentes. Devido a isso é preciso reforçar a prevenção, nem que seja para atenuar os danos causados pela força da natureza’.

Este Monitor de Mídia observou, mais uma vez, dados diferentes e falta de preocupação com a grafia de nomes. É o que pode ser percebido comparando as matérias que tratavam das embarcações pesqueiras que naufragaram. Nos jornais da RBS, o mestre do barco Antônio Venâncio se chama Valdomiro de Sena. No NA, Valdomiro Senna. O leitor também ficou sem saber ao certo o nome de outros tripulantes. Apareceram Ricardo Silva e Ricardo da Silva, Amilton Antônio da Rosa e Hamilton Antônio Rosa. No dia 29, DC e Santa trouxeram 12 como o número de desaparecidos. Para AN eram 11. Em situações emergenciais, quando são divulgadas listas com nomes de vítimas, a precisão das informações não é preciosismo: ela marca a diferença entre identificar um parente próximo ou encontrar um homônimo. A coisa é séria!

Vendaval de dados e histórias

A exemplo de outros episódios, os jornais catarinenses afinaram a sintonia da cobertura no decorrer do período. A cobertura oferecida na quarta, 31, é exemplar. Os principais diários do Estado deram muitas páginas ao caso, fazendo suítes, revisando números, avaliando danos e contando as histórias humanas contidas no caso. Para se ter uma idéia, o DC dedicou cinco páginas ao tema. A Notícia, por sua vez, deu ênfase às conseqüências econômicas, refletindo perdas na safra, opiniões dos empresários e a demora na liberação dos recursos para reconstrução dos municípios afetados. Ambos jornais manchetaram: ‘Foi um furacão, aponta pesquisa da UFSC’ (DC) e ‘Ciclone causou prejuízos de R$ 100 milhões às lavouras’ (AN). Infográficos, tabelas e fotos aéreas compuseram bem as edições. A solidariedade expressa nas doações que chegam ao Sul do Estado e norte do Rio Grande do Sul também recebem bastante destaque nos relatos.

Ciclone ou furacão, o Catarina deixou vítimas, estragos e dor. Deixou também marcas mais profundas na história da previsão do tempo no país e nas normas de segurança em que se apóiam os serviços municipais da Defesa Civil. O episódio oferece lições de que o país não está livre de catástrofes semelhantes e que é necessário revisar os procedimentos para minimizar os danos. O Catarina deixa recados ainda à imprensa que se mostrou cética no início e só se recuperou mesmo ao longo da contagem dos prejuízos. Um outro trocadilho se impõe: que o Catarina traga ventos mais favoráveis às coberturas do tipo daqui pra frente.

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Projeto de alunos e professores do curso de Jornalismo da UNIVALI que faz o acompanhamento da imprensa catarinense. Professor Responsável: Rogério Christofoletti. (http://www.cehcom.univali.br/monitordemidia)

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