Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > INDÚSTRIA CULTURAL

Cinema cult, arte e mercado

Por Valério Cruz Brittos e Diego Garcia Goulart em 08/04/2008 na edição 480

Os filmes cult podem ser considerados arte ou inserem-se no mercado como produtos voltados para um nicho de consumo? Cada vez mais, a produção cultural não atende exclusivamente o prazer de expressão e diálogo artísticos, pelo menos aquela desenvolvida com pretensão profissional, ao contrário da realizada por aficionados que, nas horas vagas (ou nos intervalos de aulas, pois não raro são jovens estudantes), buscam manifestar sua forma de estar e ver o mundo. Talvez seja possível projetar-se que, apesar da relação com o mercado, eventualmente seja possível a manutenção de elementos artísticos com alguma diferenciação.

O capitalismo é um sistema econômico-político-cultural que permeia os diversos campos sociais e sua penetração na esfera cultural é inegável, numa curva crescente, ao longo do século 20. Sendo assim, os processos de produção e distribuição de bens simbólico-comunicacionais envolvem controle de custos e estabelecimento de dados esquemas industriais (com os limites sabidos), a fim de, com isso, obter retorno, através de suas diversas modalidades de financiamento (onde o dividendo simbólico tende a transformar-se em dinheiro).

O longa-metragem Dogville é um exemplo de obra produzida para o segmento cult, com objetivo mercadológico. A produção chamou a atenção por ter sido filmada dentro de um galpão localizado na Suécia, com o mínimo de artefatos, poucas mesas e algumas paredes, sendo a cenografia indicada normalmente apenas por marcações no chão, representando a casa de tal pessoa ou um arbusto. Apesar das personagens fazerem constantes referências à paisagem, ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças de dia para noite, clima e outros momentos importantes da narrativa. A obra ainda tem um narrador onisciente e é o próprio diretor Lars von Trier quem controla a câmera.

Rechaçar o mainstream

O mesmo diretor lançou um manifesto, Dogma 95, que proibia gruas, iluminação artificial e efeitos especiais. Uma jogada de marketing, já que nem mesmo ele seguiu o manifesto. Dogville é dividido em 10 partes e dura quase três horas; no entanto, o filme-arte foi reduzido, em uma versão light, pelo medo de não conseguir entrar no gigante mercado norte-americano. Há como crer que a realização audiovisual não se rende ao mercado? Os novos seguidores da vanguarda do cinema atendem a um nicho do negócio do entretenimento. Mas o preconceito encontrado em muitos seguidores de filmes cult é nada mais que o reflexo de uma visão limitada.

O desejo de consumir a vanguarda relembra o movimento hype nova-iorquino, que imperou nos anos 80 e 90 do século 20, remetendo a um grupamento de pessoas sempre à frente das inovações, com um pé na transgressão e o outro na distinção. O mote é primeiro descobrir, depois adotar aquilo que só um tempo após será objeto de desejo de uma maioria. O único porém dos seguidores hype é que esse grupo não admite produções de massa. Produtos são capazes de perder conteúdo por ter um bom orçamento e faturamento? A presunção corrente segue um fluxo que tende a rechaçar tudo aquilo que se torna mainstream, o pensamento corrente da maioria da população, mesmo que um dia tenha sido cult.

Desafio para os produtores

No entanto, há que se rever, sobretudo, o conceito inicial de filme cult. A palavra cult, em inglês, significa culto, denominação utilizada ao cinema que agrega conjuntos de fãs devotos. Um grande fenômeno que pode ser citado como exemplo é a seqüência Star Wars, que tem milhares de seguidores fiéis e ramificações do conceito original. Pode-se encontrar em quadrinhos, livros, brinquedos, jogos de videogames, entre outros produtos. Manifestações desse tipo são os fatores responsáveis pela longevidade cultural dessa obra.

Já no Brasil, um filme cult objetiva englobar obras que possuam características específicas. Um conteúdo original, assim como o roteiro, que tentem passar uma mensagem inovadora, algumas vezes de maneira subliminar, podem apresentar múltiplas interpretações e até abusar do nonsense, sem a preocupação de empregar algum sentido. Dentro disso, fogem do esqueleto homogêneo de produções que buscam atingir um mercado mais amplo de espectadores. As obras desse segmento, por sua vez, não entram em grandes circuitos e objetivam um pequeno grupo peculiar e refinado. O que a maioria desses seguidores esquece é que não se pode analisar um filme de modo absoluto e que algumas obras podem ter uma grande produção, ser inovadoras, alternativas e, sobretudo, atraentes a um grande público. Claro, tudo isso é um desafio para os produtores culturais.

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Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, coordenador do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation) e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas; graduando em Comunicação Social – Jornalismo pela Unisinos, bolsista de iniciação científica (UNIBIC) e intregrante do Grupo de Pesquisa CEPOS

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