Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Classificados ambientalmente desclassificados

Por Júnia de Azevedo em 08/07/2008 na edição 493

Não quero trocar de carro, não quero comprar ou alugar casa, não estou procurando emprego nem busco serviços de escort boys ou aconselhamento espiritual. Mesmo assim, todo dia, como assinante de jornal, recebo o caderno de classificados, uma maçaroca de papel inútil que vai imediatamente para o lixo ser reciclada (aliás, reciclar pressupõe que antes houve algum uso para o objeto, o que, no caso, não acontece, a não ser quando o porteiro pega o jornal para as necessidades do cachorro, mas aí é outra história).

Ao abrir o Globo pela manhã, minha primeira providência é retirar as páginas de classificados e separá-las na lixeira. Confesso que há até um prazer nisso, especialmente nos finais de semana, quando a maçaroca do que tenho que ler se reduz significativamente, o que é um grande alívio.

Já está na hora de as indústrias de comunicação criarem uma forma de reduzir essa massa de papel muitas vezes inútil enviada diariamente para as bancas e os assinantes. Imagine quantas toneladas diárias de lixo todo esse papel representa! Mas isso, os jornais não publicam. Sei que, como eu, muitos assinantes, se pudessem, escolheriam não receber os classificados, especialmente sabendo que estariam fazendo um bem pelo planeta. E quando quisessem, bastava ligar e acionar a entrega. Nas bancas, o jornal sem os classificados poderia custar mais barato, repassando a economia para o leitor, como forma de estimular a prática.

O discurso e a prática

Por que não trocar campanhas como a que O Globo lançou recentemente, enviando livros sobre temas ambientais – provavelmente escritos por estagiários com base em pesquisa na internet (sou coleginha de profissão e sei como funciona) – e bichinhos de pelúcia, por sistemas de bancos de dados mais inteligentes, que permitissem a redução do volume de papel? O custo não compensa? Só o crime ambiental compensa? Aliás, penso que o primeiro jornal que fizer isso vai ganhar muito, primeiro em simpatia e logo depois em assinantes.

Isso me lembra até um episódio que assisti recentemente no incrível mundo frívolo do GNT, canal da Net. Num desses fashion week da vida, vi a repórter toda deslumbrada falando que o cenário do desfile era feito de madeira ecologicamente sustentável, como se isso fosse a salvação do planeta. Tem coisa mais perversa para o meio ambiente que a cultura do descarte estimulada pela indústria de moda? Aliás, é bem provável que num futuro próximo as modelos caiam do salto por conta da patrulha ambiental que deve se acirrar em todo o planeta, assim como aconteceu com os fumantes.

A verdade é que entre o discurso ambientalista e a prática há um longo, um longuíssimo caminho. E o mundo não parece realmente preparado para uma mudança efetiva nos seus hábitos de consumo. De qualquer forma, tomara que as previsões mais alarmistas estejam erradas. Mas fica o meu recado para os jornais.

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Jornalista e publicitária, Rio de Janeiro, RJ

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