Segunda-feira, 24 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº950

FEITOS & DESFEITAS > TAM, VÔO 3054

Cobertura imoral, invasiva e criminosa

Por Diego Damasceno em 24/07/2007 na edição 443

A que remete a imagem do homem de barba e óculos que exige a lista de passageiros do vôo 3054? Sadismo. Só posso pensar nisso. Não é um homem desesperado que vejo; é um jornalismo que perdeu os limites morais, éticos, humanos.

O que dizer então dos âncoras austeros, equilibrados e sisudos que pontuam informações com novas imagens do aeroporto Salgado Filho, de onde partiu o vôo, e de Congonhas, aonde ele nunca, de fato, chegou? Cínicos, de um cinismo delirante que nem eles próprios parecem se dar conta.

Não há quem me convença, não há escola, teoria ou profissional experiente que me faça aceitar a necessidade, a utilidade, o enquadramento em alguma lei jornalística destas imagens de pessoas plenas de angústia e desespero. O que se quer, pergunto, com que intento se exibem tais imagens? Vez após outra, da manhã à noite, em todos os horários, o que se pretende com esta exposição imoral, invasiva, criminosa das famílias?

Como me disse uma amiga, eu não preciso destas imagens para compartilhar a dor destas pessoas. Cessem os detalhes. Uma tragédia, evento intrínseca e eminentemente humano, atinge a todos que sabem dela. Em maior ou menor intensidade, somos todos alcançados por um pesar. A simples notícia de um avião que despenca e explode com duzentas pessoas a bordo é suficiente para pensarmos nos nossos, nos que ainda estão conosco e nos que já foram.

Sórdida narrativa da dor

Mas a cobertura televisiva parece seguir outros preceitos. Ligo a TV para me espantar: com que sangue gélido pode um repórter perguntar a alguém quem, ou quantos, ele perdeu no desastre? Ali, minutos, talvez segundos depois da confirmação de mais uma morte? O que dizer, então, do homem que pede desculpas à repórter antes de dizer que perdeu a esposa? Estamos satisfeitos ou ainda é preciso mais, uma melhor explicação da expressão ‘ficar sem chão’?

Tentei buscar, na completa incivilidade ou na total demência, um adjetivo que me valesse nesta hora. Aproximam-se, mas não são suficientes para expressar o que sinto ao pensar que isto se passa por jornalismo. Nem o caos, nem o absurdo completo me servem para um diagnóstico.

Ontem mesmo, na Folha Online, Eliane Cantanhêde tratou da tragédia como algo que já se podia esperar. Hoje, Luis Weis, no Observatório da Imprensa, ao destacar a análise que espera dos grandes jornais, volta ao mesmo tema: de quem é a culpa?

Eu também não sei. São perguntas importantes e é ótimo vê-las sendo feitas com rapidez e consciência, mas ainda mais necessário é refletir se, para realizar a pauta ou para vencer na audiência, é aceitável cruzar o limite do respeito ao privado e ao íntimo.

A cobertura das redes de TV abertas passou longe de ser ampla, irrestrita, detalhada. Converteu-se numa sórdida narrativa da dor, um dramalhão irresponsável que seria risível, se não fosse real.

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Jornalista, Salvador, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/07/2007 Kleber Carvalho

    Valeu Severo , concordo com você, ainda bem que a imensa maioria da população brasileira nem sabe qual combustível se usa em aviões, se é gasolina , etanol ou alccol anidro??

  2. Comentou em 24/07/2007 Severo Soares

    Tão insólita quanto a sórdida narrativa da dor, são as massivas entrevistas que os jornais televisivos fazem com pessoas visivelmente desesperadas nas filas de embarque e para as quais disponibilizam luzes e câmeras, cada qual narrando os seus dramas e peripécias para viajar, boa parte deles compreensíveis, claro, mas invariavelmente usados para desgastar o governo. Raramente um queixoso dá nome aos bois e culpa a companhia aérea que lhe vendeu uma passagem, sabendo de antemão que ele encontraria problemas na hora de embarcar. Ainda bem que, dentro da simplicidade intuitiva do homem simples, a imensa maioria da população que não viaja e nem pode viajar de avião pensa com seus botões: Uai! Por que não vai de ônibus ou mesmo na carroceria de um caminhão como fazemos nós?!

  3. Comentou em 08/03/2007 Camila Sciola

    Olá sou jornalista e vou começar a escrever em jornal reginal, gostaria de saber como faço para poder assinar o jornal. Como o crm do médico

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