Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

Cobertura oscilante,
partidarismo e omissões

Por Maurício Caleiro em 25/06/2009 na edição 543

Clareza, equilíbrio e objetividade continuam sendo qualidades imprescindíveis de um bom texto jornalístico, a despeito de atualmente escassas nas editorias de Política e de Economia dos principais jornais e revistas do país, e do questionamento que alguns teóricos da Comunicação fazem não apenas em relação à possibilidade de ser objetivo mas à existência mesma do fato enquanto ocorrência passível de ser fielmente descrita.


É provável que soe redundante tal obviedade, mas a dificuldade do leitor para apreender a configuração básica de fatos políticos que apresentem algum grau de complicação – em meio ao cipoal de distorções tendenciosas, histerismo denuncista e omissões deliberadas impostos, com frequência, pelos interesses políticos que os órgãos de imprensa ostentam (mas não assumem) – é tamanha que a justifica.


Portanto, as três qualidades mencionadas na primeira linha destes artigo, nesse contexto, não se referem apenas aos aspectos formais do texto jornalístico, mas à sua clareza de intenções; ao equilíbrio como capacidade de dar voz às principais forças em conflito sem soar tendencioso; e à objetividade como busca de oferecer ao leitor – sem tentar manipulá-lo de acordo com os humores e simpatias políticas dos diretores de Redação – não apenas as informações essenciais, mas, devidamente hierarquizados, os fatores coadjuvantes que compõem o fato jornalístico em questão.


Tomemos como exemplo a série de denúncias envolvendo o Senado e, de modo particular, o presidente da Casa, José Sarney, em relação aos chamados ‘atos secretos’ da instituição. Imaginemos um leitor razoavelmente informado. Ele certamente seria capaz de traçar a arquitetura básica do caso – para começar, devido à intimidade compulsória com o personagem principal, protagonista da vida pública do país nas últimas quatro décadas.


‘O oligarca perfeito’


De promessa de inovação da política maranhense – captado em tom profético por Glauber Rocha no documentário Maranhão 66 –, Sarney transforma-se numa das lideranças da Arena, partido de sustentação do regime militar, de onde salta a tempo de embarcar, como vice, na canoa presidencial de Tancredo Neves. Tornado presidente por acaso, seu governo é marcado por denúncias de corrupção (com o Planalto apelidado pela mídia de ‘balcão de negócios’), pelo populismo econômico do Plano Cruzado (que levou a classe média ao paraíso enquanto o truque durou, para em seguida remetê-la a uma longa temporada no inferno), e pela pior das muitas crises inflacionárias do país, em que os índices mensais chegaram 84%.


O Maranhão, que ele governa, de forma praticamente ininterrupta, desde 1966 (in persona , por intermédio de parentes ou de prepostos), com um poder que se estende ao Judiciário e depõe governadores eleitos, é hoje, a despeito de seu tamanho e abundância de riquezas naturais, a mais miserável das unidades federativas brasileiras. Num acinte à ética eleitoral, candidatou-se a senador pelo Amapá quando viu que seria rejeitado pelo voto na sua capitania hereditária maranhense.


Deixa a Presidência com popularidade baixíssima, mas não deixa o poder, reelegendo-se senador sucessivas vezes. Ao mesmo tempo, junta à imagem de político afável a de intelectual progressista, encontrando abrigo na Academia Brasileira de Letras e em resistente coluna semanal na Folha de S.Paulo . Graças a essa operação, ‘a capa de homem cordial/literato/estadista cobre o coronel como um jaquetão’, como observa o colunista Roberto Pompeu de Toledo, que dissecou o espécime com a exatidão de um antropólogo na coluna ‘O oligarga perfeito’ (Veja, 6/4/2009).


Manchetes e notinhas


Mas voltemos ao nosso leitor razoavelmente informado – e, portanto, a par da maioria dos dados biográficos acima descritos. Por sê-lo, não lhe causa espanto algum o envolvimento de Sarney em mais uma denúncia de corrupção. Talvez, antes de se inteirar melhor do fato, ele até se pergunte por que, dado o histórico do autor de Marimbondos de Fogo, haja tanta gritaria em torno do caso. Mas quando o faz, mesmo vivendo num país em que um ex-congressista e ex-ministro do STF confessa ter alterado a Constituição na calada da noite, à revelia do Congresso Constituinte, e siga não apenas impune, mas ministro, nosso leitor se dá conta da gravidade das denúncias – afinal, como qualquer cidadão decente, considera inacreditável que em plena vigência da democracia, atos secretos do Senado distribuam cargos a granel sem notificar a sociedade de tal decisão.


Do que ele talvez não se dê conta, por se tratar de uma daquelas notícias que não combinam com manchetes e ficam escondidinhas numa das notas das colunas de política (como o ‘Painel’, da Folha de S. Paulo de 18/6 ) é que a eventual remoção de Sarney da presidência do Senado poria esta no colo do ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO), primeiro vice-presidente do Senado e inimigo do Planalto. Há, portanto, um objetivo político imediato nas ações da oposição, uma luta por uma fatia considerável de poder no Legislativo – luta esta que a mídia, de forma geral, não tem feito questão de ressaltar.


Soma-se a essa ‘distração’ omissa da mídia o fato de que os principais trombeteiros da atual denúncia são as mesmas figuras fanfarrônicas que já gozavam de superexposição midiática nos vários surtos denuncistas que a precederam – uns procedentes, outros meros factóides –, como Arthur Virgílio (PSDB-AM), Álvaro Dias (PSDB-PR), Raul Jungmann (PPS-PR) e Heráclito Fortes (DEM-PI). Nosso amável leitor, enfastiado de vê-las, há anos, bradando insultos e denúncias ao léu, considera tratar-se de figuras públicas que não primam pelo pudor em adotar um moralismo raso e falso, pois aplicável apenas às forças políticas às quais se opõem, nunca às condutas dos integrantes dos partidos que representam (como, entre vários outros exemplos possíveis, fica patente na reação que tiveram quando do envolvimento de Eduardo Azeredo no ‘mensalão’ mineiro). Nem a velhinha de Taubaté, que não tem acesso a informação alguma, acreditaria que tais personagens ajam por amor à ética, mas sim pela mais cruenta guerra política.


Por isso, embora não minimize a gravidade do caso nem o envolvimento de Sarney, nosso leitor razoavelmente informado passa a questionar quais outras razões dissimuladas fazem a oposição e a mídia – que no Brasil atual por vezes se confundem – associar tão-somente o senador maranhense a uma sequência aparentemente interminável de falcatruas que, como O Globo (19/6) reconhece, vêm ocorrendo há mais de uma década; sem que, no entanto, congressistas demo-tucanos ou jornalistas acusem, com a mesma presteza, presidentes anteriores da Casa e integrantes de seus próprios partidos.


A fala de Lula


Mas não param por aí as inquietações de nosso querido leitor. Ele se inteira, com grande espanto, da notícia que, do exterior, o presidente Lula, a quem ele respeita e admira, mandou dizer que ‘Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum’. Foi como se recebesse um soco no estômago. Nosso ingênuo leitor pensava que, segundo a Constituição do país que Lula governa, todos os cidadãos fossem iguais perante a lei…


Sua desolação inicial com o atual presidente pouco a pouco dá lugar ao enfado, tamanho o número de colunistas que trataram do tema, sem variar significativamente as abordagens – que privilegiam o moralismo e os ataques pessoais à crítica fundamentada do desrespeito institucional perpetuado pelo presidente. No entanto, ao deparar-se com a capa da última edição da revista Veja, o enfado que nosso leitor sentia dá lugar à náusea: ‘Há limites para a manipulação interessada do sentimento popular pela imprensa’ – pensa nosso honrado leitor.


Homem de seu tempo, ele decide navegar pela internet em busca de novas informações e visões críticas sobre o caso. Depara-se, então, com o ‘O blog do Mello‘, que aventa a possibilidade de José Serra estar por trás da perseguição denuncista a Sarney. Afinal, costuma-se debitar na conta do governador paulista a operação da Polícia Federal que, em 2001, retirou a filha do senador, a então candidata presidencial Roseana Sarney, do páreo. Lula, com toda sua louvada sapiência política – pergunta-se nosso leitor –, ao firmar aliança com a ala do PMDB comandada por Sarney não sabia dos humores figadais que opõem o candidato que ele derrotou em 2002 e o senador que o apoia? Exímio enxadrista que já demonstrou ser, não foi capaz de prever desenrolar tão evidente do jogo político?


Nosso leitor, embora apenas razoavelmente informado, é um homem sensato e justo. Ele conclui que esse caso dos atos secretos do Senado é o tipo de episódio em que nenhum lado tem razão, a despeito dos esforços argumentativos dos detratores do governo Lula e de seus apoiadores – alguns dos quais teimam na tática eticamente inaceitável de minimizar atos de corrupção. Sarney, pelas práticas a ele associadas, por tudo o que representa e, sobretudo, pela insensibilidade em não perceber que pertence ao passado e que está manchando de forma indelével sua própria biografia; a oposição e a mídia por apostarem, uma vez mais, num denuncismo histérico e ‘fulanizado’ como forma de luta política, sem apresentar propostas alternativas viáveis e sem atacar as razões estruturais da corrupção; e, pairando acima de todos, o presidente Lula, não só pela realpolitik por demais elástica que pratica – e que junta no mesmo saco Sarney, Collor de Mello e Geddel Vieira Lima, entre outros –, mas por não preservar a Presidência da República, posando como defensor de práticas e figuras políticas que não coadunam com um regime verdadeiramente democrático nem com seu passado político.

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Jornalista e cineasta, doutorando em Comunicação pela UFF; seu blog

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