Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Coincidência ou dobradinha?

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 19/04/2011 na edição 638

Ontem (14/04) ocorreu uma estranha ligação entre o Jornal Nacional (Globo), o Jornal da Band e o PSDB.

Os dois jornais televisados pautaram a situação dos aeroportos e o suposto atraso no cronograma de obras do governo. Isto estaria colocando em risco os megaeventos esportivos que serão realizados no Brasil num futuro próximo. Pouco tempo depois dos telejornais foi ao ar a propaganda eleitoral gratuita do PSDB (oposição ao governo) que falou insistentemente do mesmo assunto.

Coincidência ou dobradinha?

O programa eleitoral gratuito dos partidos é pré-gravado e exibido mediante autorização da Justiça Eleitoral. As redes de televisão são comunicadas com antecedência para poder fazer a inserção adequando os horários de sua programação normal. O Jornal da Band e o JN são apresentados ao vivo, mas algumas de suas matérias tem que ser feitas com antecedência. Portanto, a coincidência entre a pauta do PSDB e a dos referidos jornais televisados que ocorreu é pouco provável.

A dobradinha que ocorreu ontem expõe os piores males da política e do jornalismo brasileiro.

Hipocrisia tem limite

O PSDB é um partido sem base eleitoral sólida, tanto que recentemente seu ícone maior, o ex-presidente FHC, disse publicamente que os tucanos devem esquecer o povão. Coisa estranha pois numa democracia de massas o povão é a maior força eleitoral e, portanto, a penetração nos segmentos populares deveria ser a maior preocupação dos partidos políticos (em especial dos que fazem oposição e querem recuperar o comando do Estado). Mas a conquista dos corações e mentes do povão não está ou não deve estar na pauta do PSDB, segundo FHC. O PSDB não tem ou não quer o povão do seu lado. Quem serão os militantes do PSDB e como este partido conquistará seu eleitorado?

O jornalismo brasileiro é muito partidarizado. O que não chega a ser um mal em si, desde que os órgãos de comunicação façam sua opção partidária de maneira clara e informem publicamente seus leitores e telespectadores de sua decisão e dos motivos que a fundamentaram. Mas não é o que ocorre na brasilônia. Com a honrosa exceção de CartaCapital (que sempre disse que candidato apoia nas eleições nacionais) e do Estadão (que fez isto pouco antes do fim da última eleição presidencial), a mídia brasileira faz campanha política partidária sob o manto de uma suposta isenção. A hipocrisia é, portanto, o mal maior do jornalismo brasileiro.

Ontem ficou absolutamente claro que os hipócritas que comandam o JN e o Jornal da Band têm que tomar mais cuidado. As relações perigosas entre o JN/Jornal da Band e o PSDB ficaram muito evidentes. Se querem seguir usando o manto da isenção, os comandantes dos telejornais mencionados têm que ser mais cuidadosos. Pautar o mesmo assunto que a oposição no mesmo dia e com uma pequena diferença de tempo entre os dois programas políticos partidários (o realizado pelo órgão jornalístico e o oficial, feito pelo partido beneficiado) é muita cara-de-pau e o povão, que não é tão besta, deve ter percebido a manobra. Hipocrisia tem limite. Paciência política também.

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Advogado, Osasco, SP

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