Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA ESPORTIVA

Coisa de boleiro, coisa de jornalista

Por Julio Ottoboni em 09/11/2004 na edição 302

Uma discussão entre o goleiro do Corinthians, Fábio Costa, e o experiente repórter do Jornal da Tarde José Eduardo Savóia, ocorrida no começo de novembro, tornou-se um caso de imprensa – ou melhor, de mau uso dela.


A intenção deste artigo é analisar o episódio da maneira mais objetiva possível. Tomo como base de análise as matérias veiculadas nos sites da Gazeta Esportiva e no portal do Estadão. Basicamente as duas contam a mesma história. O goleiro chega atrasado, acelera seu carro acima do permitido no local e coloca em risco a integridade física de crianças que buscam ver seus ídolos de perto. Testemunha da cena, o repórter repreende o jogador, pois seu filho de 10 anos se encontrava junto aos demais meninos. E aí se inicia uma violenta discussão.


A coisa ficou por aí, não teve maiores desdobramentos. Pelo menos deixou de ser alvo dos plantonistas esportivos, já que inexistiu qualquer conseqüência grave. Como o conceito de notícia anda mais que deturpado, esse fato – mesmo sem importância jornalística – poderia ganhar algum registro nos periódicos voltados à cobertura esportiva. Porém, virou um caso de distorção das premissas básicas do jornalismo, que se esforça para ser objetivo e buscar a tal da imparcialidade.


Manchete do dia


A surpresa foi o assunto ganhar formas de um texto jornalístico e ser, ainda por cima, ‘editorializado’. A matéria foi produzida pelo jornalista envolvido no episódio, sob o título ‘Fábio Costa discute e ofende jornalista’, assinada pelo próprio. Algo no mínimo estranho aos projetos editoriais dos jornais do Grupo Estado. O texto diz o seguinte:


‘Fábio Costa voltou a aprontar no Corinthians. Na chegada ao clube, o goleiro acelerou seu BMW mais do que os 20 quilômetros permitidos nas alamedas do Parque São Jorge e colocou em risco a vida de algumas crianças. O repórter do Jornal da Tarde tentou conversar com ele, avisando que o seu filho estava entre as crianças, mas o goleiro reagiu com um palavrão e partiu para a briga. Alguns seguranças do clube, o fotógrafo Teófilo Pereira e o pai do atacante Jô, seu Dário, estavam presentes e ficaram incrédulos diante do destempero do atleta.


A questão envolvendo a chegada de jogadores dirigindo imprudentemente nas alamedas do Parque São Jorge é antiga. Os atletas que chegam em cima da hora e não querem parar para dar autógrafos às crianças, normalmente abusam do acelerador. No caso de Fábio Costa, ele acelerou contra uma delas, com a clara intenção de assustá-la.


Sem argumentos, e sem a devida humildade para aceitar o seu erro, a única saída encontrada por Fábio Costa foi a força física. Entre as inúmeras confusões arrumadas pelo goleiro, recentemente ele jogou o seu carro contra os jornalistas no Parque Ecológico do Tietê. Na Vila Belmiro, também dirigindo, chegou a derrubar um torcedor de bicicleta com o seu carro, após um jogo do Santos. Isso sem contar as inúmeras confusões dentro de campo. (José Eduardo Savóia)’. [Terça-feira, 02 de novembro de 2004 – 20h43; (http://www11.estadao.com.br/esportes/
futebol/noticias/2004/nov/02/105.htm)]


Evidente que o jornalista, ao ver a inconseqüência do jogador na direção do veículo, cumpriu seu dever como cidadão advertindo-o. O fato de ser pai e sentir-se ofendido pelas agressões advindas da reprimenda é algo da esfera pessoal, particular. O interesse público, um dos esteios do conceito de notícia, inexiste nesta situação.


No lide da matéria aparece a frase: ‘Fábio Costa voltou a aprontar no Corinthians’. O problema, pelo visto, foi entre o jornalista e o goleiro, não envolvendo o clube. Porém, algo a ser tratado administrativamente junto a direção da associação ganhou espaço no noticiário. Desconheço justificativas técnicas ou editoriais para isso. Se a moda pega, briga de condomínio seria manchete de todo dia.


Falsos ídolos


Longe de querer ensinar a profissão para o bem conceituado José Eduardo Savóia. Creio até que sua atitude esteja respaldada na aflição de um pai que viu o filho sob risco. Mas seu caso serve perfeitamente como exemplo para se discutir aspectos da profissão e da editorialização dos noticiários, inclusive a própria atuação da reportagem esportiva.


O jornal poderia trazer a questão num artigo ou mesmo em forma de reclamação no espaço que atende aos leitores, como já vi o jornalista Ulisses Capozolli fazer na época em que trabalhávamos no Estado de S.Paulo. Ele relatou um atropelamento e sua perseguição ao criminoso sem se utilizar do espaço da editoria de Cidades. Apesar de toda sua indignação, como participou do fato se absteve de escrever como jornalista e preferiu comentar o caso como um simples cidadão, sem acesso aos privilegiados espaços do jornal.


Veja agora como o caso entre o boleiro e o jornalista foi tratado pela Gazeta Esportiva em seu site, agregando novos elementos informativos e elucidadores:


‘Fábio Costa discute com jornalista e aumenta ´currículo´


Bruno Ceccon, especial para a GE.Net


São Paulo (SP) – O goleiro Fábio Costa acrescentou mais uma confusão ao seu já célebre currículo de incidentes na tarde desta terça-feira. Desta vez, o entrevero foi com o jornalista José Eduardo Savóia , que cobre o dia-a-dia do Corinthians, e o seu filho de 10 anos que é sócio do clube.


No momento em que estava chegando de carro ao treinamento no Parque São Jorge, o jogador foi abordado por vários garotos pedindo autógrafos. Entre as crianças, estava o filho do jornalista. ´Eu estava atrasado, parei no quebra-molas e quando estava saindo, o filho do repórter passou correndo na frente do carro´, contou o goleiro, que raramente comparece quando requisitado às entrevistas.


O jornalista achou que o jogador foi imprudente e quase atropelou o garoto. Inconformado, pediu explicações e foi xingado pelo atleta. ´Ele chegou gritando e eu perguntei quem ele achava que era para falar comigo daquele jeito´, afirmou Fábio Costa. Ele estranhou a presença do menino no estacionamento. ´Não me parece natural largar uma criança assim´.


Indagado pelo jornalista durante a coletiva, o camisa 1 preferiu contemporizar. ´Eu gosto de crianças, tenho um filho pequeno e não tive a intenção de assustar ninguém´, afirmou. Ele teme a repercussão do incidente. ´Em todas as profissões, existe corporativismo e eu espero que não fiquem falando mal de mim´.


Fábio Costa lamentou o entrevero com o repórter. ´Não tenho nada contra ele, não conheço ele, nunca tive nada com ele e nem pretendo ter. Foi uma pena conhecê-lo desta forma. Agora ele continua fazendo o trabalho dele que eu continuo com o meu´, disse o goleiro. Ele se considera perseguido pela imprensa. ´Em 90% dos atritos, eu não tenho culpa. Mas a mídia já tem uma pré-disposição comigo’.’ [02/11/2004 – 17:57:09 (http://www.gazetaesportiva.net/ge_noticias/
bin/noticia.php?chid=111&nwid=13103)]


A questão aqui é jornalística, meramente profissional. Basta ler ambos os textos para compreender os contornos de um fato desprovido de importância ganhar a relevância de notícia. O assunto, até então particular, foi levado pelo repórter do JT para a coletiva de imprensa, como mostra Bruno Ceccon. A partir desse momento, o comportamento do goleiro – que parece estar longe de ser um franciscano – passou a ser alvo dos mais diversos questionamentos.


As reportagens tendenciosas surgem da confluência de interesses das mais variadas origens. Entre eles, a falsa impressão do jornalista de ser detentor de algum poder. Isto favorece diretamente uma mudança de postura, pois agora a função profissional está investida de novos (pseudo)valores. Não foi isso que tornou a imprensa o ‘quarto poder’, mas com certeza conseguiu revelar sua face arrogante, preconceituosa e muitas vezes repressora.


Há muito nos tem faltado a humildade cobrada apenas dos outros, assim como o mea-culpa seguido de uma reciclagem tanto técnica como comportamental. Para isso, bastaria analisar o potencial de construção e de destruição de uma reportagem. E dessa maneira compreender que recriamos, com uma roupagem moderna, a idolatria. Por conseqüência, transformamos simples jogadores de futebol em celebridades, em figuras endeusadas e cultuadas. Mas quem constrói falsos ídolos tem por vezes a ânsia inevitável de querer destruí-los.

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Jornalista, pós-graduado em jornalismo científico

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