Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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FEITOS & DESFEITAS >

Colecionar publicações para a memória da humanidade

Por Luís Olímpio Ferraz Melo em 22/09/2009 na edição 556

Preocupa a história do Brasil no futuro, pois tradicionalmente se observam vários aspectos e em cima destes itens tentam montar como teria sido o passado de uma civilização, sem dizer que o mais temerário de tudo é que boa parte da historiografia da humanidade encontra-se baseada em livros dos quais não se tem certeza da autoria e nem tampouco de que não foram modificados com as edições; o mais grave é que considerável parcela da história é de relato de viajantes recolhidos de seus diários e anotações geradas por historietas contadas repetidas vezes em determinados locais, o que não dá a garantia de estarmos de posse da verdade.

A Enciclopédia Soviética é a prova cabal disto, pois os intelectuais até ironizavam, dizendo que os soviéticos deveriam atualizar suas autobiografias periodicamente para adaptarem às constantes mudanças da enciclopédia, pois toda vez que mudava o governante a Enciclopédia Soviética era ‘atualizada’ para justificar e legitimar o governo embrionário, daí os sucessivos estupros no texto enciclopédico. No auge dos czares e antes do apogeu comunista, muitas publicações híbridas foram produzidas nas impressoras clandestinas subterrâneas soviéticas e sem qualquer critério técnico-científico, e muito menos jornalístico, talvez nem soubessem o que é isto.

Nos Estados Unidos, guardam-se na biblioteca do Congresso Nacional, em Washington, exemplares dos principais jornais americanos – por exemplo, o New York Time, entre outros –, pois sabem, em tese, que poderão ser úteis no futuro essas publicações. Em outros países o procedimento é o mesmo e há até alguma credibilidade nas publicações colecionadas para a posteridade, mas há de se observar que este é fenômeno relativamente novo para a historiografia, pois como disse alhures, a história por muito tempo foi costurada com informações retalhadas e de pouca credibilidade – não que agora os matutinos e vespertinos tenham suprido este quesito.

Apenas meias-verdades

Aqui, no Brasil, parece não haver essa preocupação de construir a história de forma razoável, pois mesmo que a Biblioteca Nacional disponibilizasse espaço para a coleção de jornais impressos, o seu uso não teria valor relevante em qualquer que fosse a pesquisa que visasse a encontrar a verdade dos fatos, pois é fácil ler mais de uma versão para cada fato, daí os futuros historiadores terem que escolher uma das fontes.

Primo Levi, após temporada recluso no campo de concentração de Auschwitz, disse algo que merece reflexão: ‘O vencedor é o dono da verdade; portanto, pode manipulá-la da forma que quiser.’ No acervo jornalístico, haverá sempre apenas meias-verdades.

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Advogado e psicanalista

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