Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 11 e 12/11

ComCiência

14/11/2006 na edição 407

ATUAÇÃO DA MÍDIA
Carol Cantarino

Entrevista / Alberto Dines, 10/11/06

‘Mais de 10 dias depois do segundo turno das eleições, a atuação da mídia durante o processo eleitoral continua em pauta. Fatos recentes envolvendo críticas de membros do governo à imprensa e agressões contra jornalistas acirraram ainda mais o debate sobre as relações entre governo, imprensa e sociedade em espaços como o Observatório da Imprensa, criado pelo jornalista Alberto Dines.

Para o jornalista, todos esses eventos recentes sinalizam um perigoso processo de ‘linchamento político da imprensa’. A posição de Dines tem sido contestada por muitos leitores do próprio Observatório, que o acusam de fazer uma defesa intransigente da imprensa. Para ele, essa acusação seria mais um dos indícios do processo de violência política que estaria em curso. ‘Quando se trata de criticar a imprensa, nós somos os primeiros. Por isso é que, nessa circunstância específica que estamos vivendo, eu lhe digo: a imprensa não merece esse linchamento’. Em entrevista à ComCiência, Dines analisa a atuação da mídia nos episódios recentes.

ComCiência – Em linhas bastante gerais, a ética diz respeito a uma moral inscrita no tempo e no espaço, a certas regras e prescrições relativas a um determinado contexto, que as especificam. Nesse sentido é que muitas vezes se fala numa ‘ética da política’, ‘ ética da ciência’. Existiria, assim, uma ‘ ética do jornalismo’? Podemos discuti-la a partir de todos esses eventos recentes?

Alberto Dines – Há um problema filológico. Os europeus não usam a palavra ética, eles usam deontologia para se referir aos princípios éticos ou morais aplicados à práxis profissional. A ética se refere a todo um processo filosófico bastante sofisticado, relativo aos princípios morais e mesmo a um plano espiritual. Por isso, acho que a palavra mais apropriada é deontologia. A deontologia se refere, portanto, aos deveres cotidianos e não aos grandes deveres morais. Prefiro falar em princípios deontológicos da profissão de jornalista. Ética não tem nada a ver com o fechamento da primeira página, deontologia tem. Sempre temos dito isso – eu e outros companheiros do Observatório da Imprensa – vamos falar em deontologia, que é a aplicação de princípios morais e éticos mas dentro do dever profissional e da realidade cotidiana.

Mas quero deixar claro que, na minha opinião, os eventos dessa conjuntura pós-eleitoral não tem nada a ver com ética. Trata-se de um processo de violência política contra a imprensa. Primeiro, quando a mídia cobre o ilícito, ela cumpre a sua obrigação. E era ilícito: tinha gente sendo investigada pela polícia federal, sendo indiciada, presa. Por isso, na minha opinião, essa reação contra a imprensa não tem nada a ver com ética. É linchamento puro.

Por que vilanizar a mídia, diabolizá-la, dizer que ela é golpista? O que é que a mídia estava fazendo? Estava discutindo um dossiê. Agora quem criou esse dossiê, às vésperas da eleição? Foi a Isto É. A única vilã nessa história chama-se Isto É e ninguém fala. Ela se dispôs a publicar uma entrevista fajuta e não se sabe ainda o que ela iria receber em troca, isso ninguém investiga. Agora, não foi a mídia quem inventou o dossiê Vedoin. E se a mídia o discute é porque isso tudo é muito importante, principalmente às vésperas de uma eleição. Inclusive uma eleição que estava ganha no primeiro turno. A mídia cumpriu o seu papel. Alguns exageraram? Exageraram. Mas também omitiram o papel da Isto É e com isso deram uma colher de chá ao governo porque a Isto É não faz nada de graça.

Vi algumas pessoas açulando o povo contra a imprensa de uma forma como eu nunca tinha assistido na minha vida. Eles fizeram um linchamento. E ele efetivamente começou com aquele episódio em Brasília, quando os repórteres que aguardavam a chegada do Lula no Palácio da Alvorada foram agredidos fisicamente por militantes do PT.

É o negócio do aprendiz de feiticeiro. Começaram a diabolizar a imprensa e, de repente, você tem todo um segmento grande já querendo linchar. Eu estou sendo linchado. Nós do Observatório da Imprensa que recebemos uma quantidade razoável de e-mails diários, não estamos conseguindo dar conta pelo volume e, sobretudo, pela selvageria. De mim, o que já disseram… E eu nunca escrevi nada contra ninguém. Isso ofende quem? Os militantes porque, para eles, a imprensa é golpista porque isso foi dito e martelado durante três meses. Aliás, vem sendo martelado desde o mensalão. Hoje o Tarso Genro está em todos os jornais dizendo que há um núcleo autoritário na militância do PT, mas o dia em que ele veio ao OI, ele reconheceu que tinha exagerado num manifesto que escreveu quando era presidente do PT. Isso ele me disse ao vivo, no programa. Então você fica diabolizando e, evidentemente que, quando tem um estouro, as pessoas perdem as estribeiras. A teoria do linchamento, do estouro da manada, é uma realidade científica. A mesma coisa aconteceu com os judeus na Alemanha. O Hitler falando contra os judeus durante as décadas de 1920 e 1930 e depois foi fácil. E não foi só a Gestapo: estava todo mundo querendo liqüidar os judeus. Todos os casos de linchamento são assim. Nos Estados Unidos: gritam ‘nigger’, ‘nigger’ e aí quando se pega um suspeito que é afro-descendente, pronto, lincham, enforcam, matam.

ComCiência – No caso da divulgação das fotos do dinheiro que foi apreendido pela polícia federal e que seria usado na compra do dossiê Vedoin: não seria preciso lembrar que nem sempre o repórter detém o controle sobre a divulgação da notícia? Por que muitas críticas foram dirigidas ao comportamento dos jornalistas que obtiveram as fotos e poucas aos seus editores ou mesmo às empresas jornalísticas que, em última instância, são os que decidem pela publicação de uma foto ou de uma matéria. Como fica a situação e a ética do jornalista nesse campo de forças?

Alberto Dines – Hoje, pelo menos nos grandes jornais, nada se faz contra a vontade do repórter. Quando o delegado da PF Edmilson Bruno entregou as fotografias e pediu que seu nome fosse omitido através de uma mentira, fui o primeiro a escrever sobre isso, reprovando essa omissão. Alguns veículos erraram ao aceitar não só omitir o nome dele como também reproduzir a mentira sugerida por ele de que as fotos tinham sido roubadas. Erraram. Mas se esse escândalo como um todo tem um peso 100, esse episódio equivale a 10.

Ainda nesse caso da divulgação das fotos, estava correta a exigência da publicação por parte da polícia federal porque isso faz parte dos próprios procedimentos deontológicos da PF: Quando se faz uma apreensão, se publica o material apreendido, sejam armas, drogas ou dinheiro. É do procedimento interno da PF: você apreende uma coisa ilegal, você mostra. Por isso, quando a mídia exigia as fotografias do dinheiro, ela não estava fazendo campanha contra o Lula, ela estava querendo que se fizesse, nesse caso, o que sempre se fez.

Eu não acho que a imprensa tenha errado muito. Ela errou: a Veja não devia ter feito a capa com o filho do Lula, há duas semanas atrás, não tinha nada de novo. Aquela história da Veja com os dólares de Cuba, também não se provou nada. Mas, de uma forma geral, o mensalão está aí. Foi reconhecido pela Procuradoria Geral da República.

ComCiência – Não se pode negar a participação direta de certos veículos, principalmente as chamadas revistas semanais na última disputa eleitoral: Veja publicou essa matéria a respeito do filho do presidente da República, totalmente ‘requentada’. A Carta Capital acusou a mídia de, com a divulgação das fotos do dinheiro apreendido, favorecer o candidato do PSDB, provocando um segundo turno. A Isto É detonou o caso do dossiê Vedoin com a publicação da entrevista. Existem outros exemplos históricos relativos à interferência, mais ou menos direta, de empresas de comunicação em campanhas eleitorais. (Como os notórios casos envolvendo a Rede Globo e a campanha ao governo do Rio de Janeiro, em 1982, e a edição do debate Lula x Collor, em 1989). Esses episódios, essas práticas da imprensa, não contribuem para que ela seja colocada sob suspeição e vista com desconfiança pelos seus leitores/telespectadores/ouvintes?

Alberto Dines – Cada uma dessas revistas é diferente da outra. A Carta Capital faz a mesma coisa que a Veja só que em outra direção. E a Isto É faz negócios, ela não está preocupada com política. O debate entre Lula e Collor foi em 1989. Depois disso, a Globo prestou enormes serviços. E estamos esquecendo – isso o Lula, o Márcio Thomaz Bastos e o Paulo Delgado disseram várias vezes, esse último inclusive no nosso programa – que quem ajudou a fazer o PT e a fazer o Lula foi a imprensa.

Mas se você vai ver as coisas ruins, você pode remontar ao Gutemberg. Agora, nessas eleições, a imprensa vinha se comportando muito tranquilamente. O que atrapalhou foi o dossiê Vedoin. E quem inventou o dossiê foi a equipe que o presidente chama de ‘aloprados’. Isso foi levado para a mídia porque, nas vésperas de uma eleição, era o tipo de coisa que ela não podia ignorar – se você ignora, você é mau jornalista. Eu estou preocupado. Nós vamos ter problemas sérios entre sociedade, imprensa e governo. O governo precisa da imprensa para fazer a reconciliação nacional mas não pode contar mais com ela porque o próprio governo a está desacreditando. Estamos assistindo, nesse momento, a um processo de destruição – ou de suspeição, o que dá no mesmo – de um dos poderes da República, que é a imprensa, sobretudo no momento em que o governo apela para a união nacional. Ora, quem é que vai vocalizar isso? É a imprensa.

Por isso que os analistas mais bem preparados estão alertando: olha, estamos nos encaminhando para uma situação totalitária, de coação pelo poder. Os jornais têm liberdade para fazer o que eles querem, eles não dependem de favor. Televisão e rádio é que depende de concessão. Agora me diga o que é que a TV Globo fez de errado? Inventaram que a TV Globo preferiu, na sexta-feira, véspera do primeiro turno, dar as fotos do dinheiro apreendido pela PF ao desastre da Gol. O Ali Kamel escreveu, foi ao OI e explicou: a Globo não podia dizer que havia a suspeita de que um avião da Gol tinha desaparecido. Tinha que dar a informação correta, e não correr o risco de dar um boato. A explicação, quando é precisa, ninguém lê. Agora a frase emocional ‘a TV Globo é golpista’ cola. O Brasil tem que deixar a fase da insanidade, da exacerbação de ânimos. Se nós queremos ser um país moderno e civilizado, temos que aprender a discutir política politicamente.

ComCiência – Mas além desse argumento que recupera o passado recente da imprensa…

Alberto Dines – Mas aí você está sendo injusta. O ser humano não pode ser condenado pelo pecado original, ele tem que ser condenado pelo pecado que ele comete. Então, nessa eleição – e eu te digo isso a partir dos meus 54 anos de profissão – não houve por parte da imprensa nenhum ilícito, houve erros pontuais de alguns veículos. Da imprensa como instituição não houve. Veja errou uma ou duas vezes e a Isto É. Só que ninguém fala da Isto É, o PT não fala dela. Porque se não houvesse Isto É disposta a publicar qualquer coisa em troca de dinheiro, o escândalo não teria ocorrido. Eu também não estou querendo linchar a Isto É. Se há episódios vexaminosos, o da Isto É é que coroa tudo.

Então, eu não vou chegar e dizer: ‘ah, mas o passado da imprensa’. Porque se for assim, então vamos voltar à imprensa abolicionista, à imprensa republicana e ver tudo o que a imprensa fez pelo país. A imprensa antecipou-se ao Golpe de 1964. Qual foi o jornal que deu o sinal? O Correio da Manhã. Logo depois passou a ser o mais atacado pela ditadura militar. Não dá para ficar remontando ao passado. Mas se quiser, por exemplo, pense nas eleições de 2002. A imprensa foi impecável. E foi bastante simpática ao Lula porque estava ouvindo uma inclinação da sociedade como um todo para mudar. O Lula foi beneficiário disso. E agora a imprensa também vinha muito bem. De repente, os ‘aloprados’ inventaram o dossiê Vedoin. Quem ajudou a divulgá-lo foi um órgão de imprensa irresponsável.

ComCiência – Muitas vezes o que acontece – e aí não estou pensando no governo – é que qualquer tentativa de discussão sobre a imprensa, qualquer tentativa de questionamento é taxada como censura, ameaça à liberdade de imprensa…

Alberto Dines – O Observatório da Imprensa existe há 10 anos. Não é um ano, são 10 anos. Todas as nossas edições estão arquivadas no site. Nós estamos discutindo a imprensa desde 1996, criticando a imprensa, brigando com a imprensa. Meu nome não sai na Folha de S. Paulo. Estou vetado, na ‘lista negra’. Meu nome não sai na Veja. Eu estou discutindo a imprensa. Quando se trata de criticar a imprensa, nós somos os primeiros. Por isso é que, nessa circunstância específica que estamos vivendo, eu lhe digo: a imprensa não merece esse linchamento.

ComCiência – E nesse caso específico as críticas estão partindo do governo?

Alberto Dines – A gente não sabe se é governo, se é PT, se é a ala de cá ou a de lá do PT. Está todo mundo no bolo. Agora, quem é que fez o melhor trabalho de exposição dos candidatos durante as eleições? Foi a mídia. Não foi a propaganda eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram entrevistas, sabatinas, debates, a imprensa fez um excelente trabalho. Os candidatos é que não queriam dizer o que deveriam ter dito. Preferiram ficar no atalho fácil sugerido pelos marqueteiros. Ao longo de 29 dias, durante o segundo turno, os candidatos participaram de quatro debates na TV aberta. Isso é magnífico. E a imprensa não fez isso porque é obrigada. Ela fez por causa do seu compromisso público. E o conjunto dos debates foi muito bom. Não vai se dizer, hoje, que a Globo preferiu fulano, a Band, sicrano… Eu acho até que ficava um programa chatíssimo por causa das regras. Mas têm que ser assim.’



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