Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > CRISE E OPINIONISMO

Comentarista política ou juíza?

Por Aparecida Torneros em 11/10/2005 na edição 350

Lendo o texto (que transcrevo abaixo) de comentário de autoria da cientista política Lucia Hippolito, chama a atenção o quão simplificadora pode ser a atitude de alguém, enquanto profissional da análise e da palavra, ao se arvorar da posição de julgadora inconteste. Saudades do Villas-Bôas Corrêa, aquele sim, anda sumido da mídia, mas um grande comentarista da vida política. Observador que nos leva a questionar e refletir, mas que não nos impõe sua decisão como se fosse a verdade definitiva. Até porque, em casos assim, que envolvem juízo de autos, intervenções judiciais, há que respeitar a seara dos outros.

Tribunais institucionais existem para isso mesmo. Imprensa tem papel fundamental para chamar atenção sobre os fatos, escusos ou não, e Justiça, universalmente sabido, serve para os investigar, esmiuçar, punir ou absolver.

É a lógica. Se um juiz resolve sair do anonimato de pensador reflexivo, cumpridor da jurisprudência que a sociedade acumula, diante de cada caso novo não deve assumir postura de noticiar como se jornalista fosse.

Intenção condenatória

Como diz Zeca Pagodinho, ‘cada qual no seu cada qual’. A comentarista fala em punição minimamente justa com a leveza de quem minimiza as dores de uma sociedade como a nossa, amargando, nos últimos 40 anos, um histórico de avanços e retrocessos na implantação do estado democrático. Esquecendo até do volume de injustiças no campo político e no social que o povo brasileiro tem enfrentado em conseqüência da disputa de forças e interesses de cunho ideológico ou do embate capital-trabalho.

A mim, parece, no mínimo, invasão de seara privativa do papel do Judiciário. A profissional não se limita à exposição dos fatos, considerando hipóteses de condenação ou absolvição e prestando (poderia, se se dispusesse) serviço de grande esclarecimento ao público.

Assume o papel de julgadora. Diria até que de torcedora. Mas vale lembrar que, na torcida pelo Estado de Direito, também a opinião de um militante da mídia passa pelo crivo do julgamento da opinião pública, que, mais cedo ou mais tarde, acorda para as tentativas golpistas de direcionar posições, subsidiando-as de conceitos altamente impositivos.

Um trecho tem olhar mais pormenorizado na intenção condenatória, como se tudo pertencesse à política em regime de exceção. Seria muito simples, se não fosse tão complexo, estabelecer os limites da ética em sociedade que reaprende a exercer a democracia e a convivência equilibrada entre os Três Poderes, nas mais recentes décadas.

Bateu o martelo

Seria mais delicado, mais sensato e mais objetivo se a jornalista citasse juristas embasando seu texto. Enriqueceria sua função de opinar, baseando-se em critérios científicos além do que pensa, do que torce e do que considera conclusivo, apenas pela arrogância acumulada em sua experiência profissional. Segundo ela, tudo está resolvido num passe de mágica, ou melhor, numa decisão que atenda ao anseio de uma opinião pública que ela, entre outros, ajudou a formatar, como uma orquestração afinada a interesses passíveis de questionamento, por que não?

Ou será que uma comentarista política se julga dona absoluta da verdade?

Leiam, observem e pensem. Parafraseando a própria, ‘vamos acompanhar’:

‘Mais delicado é o caso do deputado José Dirceu, que tenta de todas as maneiras escapar da punição. Já conseguiu até retardar o andamento de seu processo através de uma liminar na justiça.

Testemunhas recusaram-se a depor no Conselho de Ética da Câmara, e agora o deputado recorre ao Supremo Tribunal Federal para que seu processo seja arquivado, sob o pretexto de que ‘era deputado, mas estava ministro/ .

O caso de Dirceu é de autoria intelectual, é de acusação de ser o arquiteto-mor do mensalão, o idealizador do esquartejamento da administração pública entre amigos e apaniguados, o grande timoneiro do projeto de poder do PT pelos próximos 30 anos.

O deputado José Dirceu alega que sua cassação será política. Todas são, deputado. A cassação do ex-deputado Roberto Jefferson foi política, assim como a do ex-deputado André Luiz, acusado de extorsão e de mandar matar desafetos.

Enfim, com as acareações acontecendo esta semana e o processo contra os deputados mensaleiros recomeçando a andar, a opinião pública retoma um pouco de alento e volta a acreditar numa punição minimamente justa para os envolvidos no escândalo. Vamos acompanhar.’

Reflitam, leitores, o quanto há de papel julgador na sentença da comentarista. Ela bateu o martelo, como se juíza fosse.

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Jornalista e professora universitária, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/01/2008 Carlos Pina

    Boa tarde,

    Li uma reportagem na Rvista de História da Biblioteca Nacional e me interessei muito pelo dvd Grandes Brasileiros – Darcy Ribeiro e gostaria de saber se é possivel a doação de um exemplar. Possuo uma biblioteca que é muito usada por crianças e adolescentes para suas pesquisas escolares, e o mesmo seria de um valor inestismável para mim.

    Atenciosamente;
    Carlos Pina
    Rua Constituinte, 311 ap.02 Ipiranga
    CEP:04204-030 SP/SP

  2. Comentou em 12/10/2005 David Souza Quinteiro

    A crise política brasileira, sempre digo, está umbilicalmente liga às próprias e distantes origens; a opinião entorno da crise às tendências e aos desejos de quem a faz, seja cientista política, jornalista (respeitando a vocação do patrão), etc…, etc…, é meramente conotativa. A opinião sobre a crise política só passa a ter o timbre de julgamento para quem tem as mesmas tendências éticas, políticas e sociais de quem a profere. Prefira-se acreditar que a cientista política Lucia Hippolito tenha emprestado sua opinião – ou síntese de opinião – pessoal sobre o envolvimento de José Dirceu na crise política, porque, como bem sabe ela, a ‘síntese sem análise é ciência falsa, e análise sem síntese é ciência incompleta'(In Comunicação em Prosa Moderna, pág 317, Othon M. Garcia – 14ª Edição, Fundação Getúlio Vargas).Daí é de se acreditar que o texto da Dra. Lucia Hippolito ser francamente uma opinião de desejo pessoal sem nenhum caráter científico, e como tal é um julgamento falacioso, viciado pela imprudência e precipitação pressupostos de que não serve nem os tribunais de exceção.

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