Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Comeram os caras-pintadas e ninguém viu

Por Paulo Bento Bandarra em 14/07/2009 na edição 546

Eugênio Bucci, jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, lembrou o francês Guy Ernest Debord (1931-1994), autor de A sociedade do espetáculo, lançado em 1967 em Paris, no OI, ‘USP EM CRISE – O espetáculo da mídia para a mídia’ – e pelos contestadores (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=543JDB002 ). a Internacional Situacionista (I.S.), (1957-1972). Entre os espetáculos elencados, o jornalista não citou nem as paradas gay, nem o fenômeno meteórico dos caras-pintadas.

Nos quase três anos decorridos entre a campanha e o impeachment de Collor, o país acompanhou pela mídia o confronto entre os discursos pró e contra o projeto neoliberal do presidente, caracterizado não só por medidas econômicas – como a liberalização do fluxo de capitais, desestatização e abertura para importações –, como também por um código composto de gestos, roupas e comportamentos por intermédio do qual Collor expressava sua imagem midiática de modernidade e se auto-promovia. Nesta época interessava ao petismo este discurso, assim como a mídia golpista de esquerda levar a queda do presidente. Manipulavam-se as informações e a esquerda lutava para ganhar o poder de que forma fosse. Na marra, de preferência. Foi o fora Collor, depois o Fora FMI-FHC. Calote na dívida.

‘O maior ladrão do país’

Mas, principalmente, fora a corrupção endêmica que o PT prometia extirpar do país como um partido diferente de todos os outros. Se não sabia construir, pelo menos seria o exemplo de administração pública vendido pela experiência do Orçamento Manipulativo na prefeitura de Porto Alegre por 16 anos. Naquela época a imprensa era acusada de ser condescendente com o governo e não fazer o suficiente para derrubá-lo. Não mobilizar as massas o suficiente para dar um golpe de poder como seria feito na Bolívia há poucos anos. Agradava ao PT e se usava dos caras-pintadas para levá-los para as ruas no seu espetáculo anticapitalista. Todos coloridos e marchando no espetáculo mediático.

Brizola ia à televisão exigindo a renúncia do presidente e o PT junto com a CUT fazia abaixo-assinados exigindo o calote e atacando os leilões públicos. Comícios reunindo a ‘indignação’ da nação ante tanta corrupção. Para tudo os caras-pintadas eram chamados para o ‘espetáculo’ anticapitalista em prol de outro mundo possível que o de Porto Alegre, no evento midiático de espetáculo e improdutivo, do Fórum Global Mundial, promovido pela prefeitura do PT, prometia. Nestes ambientes eram fomentados estes espetáculos contra os governos e contra a economia mundial em adoração ao totalitarismo cubano e comunista como até hoje as mães da praça de maio, assíduas participantes, comemoram todos os anos. Sem a mínima solidariedade para com as mães de Cuba que tiveram seus filhos desaparecidos e fuzilados de igual maneira. Nem praça para se reunirem é permitida. Mães da Praça da Hipocrisia na verdade. Fidel ‘libertou’ o povo cubano, justificam-se.

Mas tais espetáculos vendiam jornais e movimentava as rotativas cobrindo estes eventos levados ao público como a solução para a salvação moral da nação. Um novo partido que se ineficiente em desenvolvimento, pelo menos, para a melhoria das nossas vidas, seria o bastião para acabar com os trezentos picaretas denunciados pelo candidato da oposição. Aquele que chamava José Sarney de o maior ladrão do país. Maior mesmo que Adhemar de Barros e Maluf. (Naquela época o PIG era bem visto, era visto como o estado da arte do jornalismo, eram amigos visto pelo PT, fracos, mas no caminho certo.)

‘Perseguido’ pelos procuradores

Como um fenômeno criado pelo partido dos trabalhadores e pela esquerda no seu afã de derrubar governos de qualquer nível e desmoralizar medidas, de levar a suspeita a todos e a condenar todas as ações do governo, fosse o SIVAM ou qualquer ato corriqueiro, valia tudo. O braço duro, o empastelamento e a desmoralização moral. As bandeirolas do partido era usada em qualquer manifestação para exigir justiça. Naquela época o método era defendido como virtuoso. Como do mais alto interesse nacional. Uma obrigação jornalística e midiática.

O embaixador Júlio César dos Santos da chefia do cerimonial de FHC foi nomeado embaixador do país no México. Na perseguição sem quartel feita pela mídia e pelo PT se levantou a denúncia de que o mesmo estava entrando em contato com empreiteiras brasileiras anunciando a sua nomeação para lá como se isto fosse um crime e não parte da sua função de promover a participação em outros mercados. Como se embaixador brasileiro deveria dar preferência a empreiteiras mexicanas para representar.

O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), 20 de junho de 2009, acolheu uma solicitação de Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência de Fernando Henrique Cardoso, e reconheceu formalmente que ele foi ‘perseguido’ pelos procuradores-regionais da República Luiz Francisco de Souza e Guilherme Schelb. Como ocorre com Michael Jackson na mídia, ele foi inocentado de pedofilia, mas para jornalistas jamais será. Veja aqui.)

Naquela época, o PIG ajudava.

Aqui, são reis

Ao assumir o governo, Lula aos poucos foi devorando e cuspindo fora todas as suas idéias e antigos amigos (não os cúmplices, é claro). Não tinha vindo para não ser um novo partido, como prometido e vendido para a mídia e para os caras-pintadas. Vinha para ser o mesmo ou pior do que existia na nação. A associação aos trezentos picaretas, participar das maracutaias e se aliar aos piores ladrões da nação que denunciara como forma de atiçar os caras-pintadas a derrubarem governos. A completa hipocrisia com que lutara 20 anos para atingir o poder. O objetivo fora atingido com 40 000 correligionários colocados em cargos públicos federais. As promessas foram esquecidas e o coronelismo e o assistencialista foi levado ao estado da arte na manutenção dos pobres onde sempre se manterão. Onde o partido agora enxerga como satisfatório e suficiente. O partido que teria que se refundar, mas nunca foi.

Os antes ladrões da nação passaram a ser dado toda a ‘confiança do presidente Lula’ iniciado a garantia pessoal para tentar calar Roberto Jefferson. Depois vieram a série de corruptos que acusara a vida toda ao perder eleições como os elementos que destruíam a nação. Passaram a ser a ‘base de sustentação da governabilidade’ como a nova aliança para saquear os cofres da nação sem a menor vergonha. Lula anulara o PT, os membros mais ativos e críticos que não se curvaram a aceitar o silêncio por cargos foram expulsos, os militantes aceitaram a filosofia da mão grande e sumiram. Antigos simpatizantes se orgulham da política capitalista e globalizante de FHC-FMI-Malan como sendo idéias suas e fecharam os olhos e acham que tudo vale a pena se a dívida é pequena.

E a mídia não mais consegue mobilizar a indignação da nação para passar este país a limpo sob o comando do chefe do mensalão, aquele que não sabia de nada, mas sabe muito bem como se manter no poder das maracutaias descobertas sem fim, que não vacila em garantir a moral de políticos aqui e a lisura de ditaduras estrangeiras. Tanto faz se roubam e nem mesmo fazem. O povo delira com os altos índices de aprovação e leva todos pelo voto de volta insensível com o que lhes roubam. Apenas assistem como se não fossem com eles. Se os recursos não fossem seus e para ser aplicados nos seus benefícios. Eles estão ‘se lixando’ para o povo que pisam e esta terra que amam. Aqui eles são reis. São políticos. Estão imunes a imprensa, finalmente. Algures seriam ladrões.

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Médico, Porto Alegre, RS

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