Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO ONLINE

Como é feito no Brasil

Por Luis Peazê em 05/10/2010 na edição 610

Em agosto último este observador foi um dos jurados preliminares do OJA – Online Journalism Award (Prêmio de Jornalismo Online) da ONA – Online News Association (Associação de Noticiários Online) fisicamente sediada nos Estados Unidos. A experiência induziu ao caminho natural da reflexão sobre: como é feito o jornalismo online no Brasil? Especialmente enquanto testemunhamos um dos ícones da imprensa brasileira, o JB, abandonar a tradicional versão impressa, para dedicar-se integralmente à versão online.

Comparando com o jornalismo online (e tradicional) no Brasil

No primeiro semestre deste ano, ocorreram vários eventos de forte apelo nacional, e mesmo locais, tais como enchentes, deslizamentos, incêndios, tiroteios entre bandidos e polícia, engarrafamentos, paralisação de aeroportos, queimadas, crimes passionais hediondos, casos espetaculares de corrupção coletiva no governo federal, entre outros. Não faltou notícia, há muito tempo que não falta notícia.

Tomando como exemplo dois desses eventos, enchentes e deslizamentos ocorridos em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Pernambuco e Alagoas, que causaram a morte de centenas de pessoas e transtornos para milhares de famílias, comovendo a opinião pública de todo o país, qual a reportagem que ganharia um prêmio de melhor cobertura de uma catástrofe?

Está claro que uma catástrofe não deve ser utilizada para reportagem com o objetivo de premiação, mas ao esmerar-se cobrindo eventos dessa importância, a imprensa estaria prestando um serviço à sociedade, talvez o seu principal serviço e razão de existir. E, da mesma forma, isso não impede que uma equipe de repórteres ganhe um prêmio por tal reportagem. Chame isso de marketing de incentivo, instrumento de mercado, chame do que você quiser.

Ao analisar onze reportagens, de aproximadamente 1500 concorrentes, este observador constatou que nada parecido foi visto no Brasil em oportunidades semelhantes, que poderiam ter contemplado não apenas uma possibilidade de prêmio – esqueçamos o prêmio –, mas de serviço do jornalismo online à sociedade. Entre as onze reportagens analisadas, havia catástrofes, nevasca, caso de um estudante armado ameaçando colegas em uma universidade, a morte por ataque de tubarão do filho de um artista famoso e, inclusive, simplesmente a cobertura de um discurso do presidente dos Estados Unidos. 

Outro aspecto percebido nas matérias concorrentes ao ONA/OJA se refere às fontes. Um assunto do cenário jornalístico internacional que foi, recentemente, pauta jurídica e de protesto, motivo de prisão de jornalista e mudanças em política de redações de jornais tais como o New York Times (passou a exigir de seus repórteres revelar para o chefe da redação, ou editor, as suas fontes). Na categoria furo de reportagem e especificamente nas matérias que analisei, não se aplica o comentário a seguir, mas em algumas outras, tais como de utilidade pública, sim – inclusive, extrapolando, dali podem surgir belos furos de reportagem. Refiro-me aos newsreleases, transmitidos por empresas especializadas como a PRNewswire, Bloomberg etc. Este rio diário de notícias fabricadas pelas empresas tem um potencial enorme de reportagens de primeira página. Rio este sendo desviado para a lata de lixo, nas redações. Por quê?

Talvez esteja na hora de, no Brasil, aqueles newsreleases merecerem um olhar mais atento. Teclar delete para esses newsreleases e ignorar os feeds podem estar fazendo a diferença entre os grandes que diminuem e os pequenos que crescem. Não é o caso de simplesmente publicar os releases (isso as redações já fazem, para alguns apenas), mas utilizá-los como fio de uma meada…

Jornalismo + serviço + criatividade = Jornalismo melhor

O OJA premia reportagens online em 14 categorias diferentes, espontaneamente escolhi analisar a categoria de ‘furos de reportagem’ e/ou ‘manchetes de primeira página’ que atraíram a atenção do público massivamente e que, segundo o regulamento do prêmio, deveriam ter sido feitas no calor das 72 horas em torno do evento, incluindo o desdobramento dos fatos.

O regulamento para os jurados estabelece critérios bem específicos de pontuação das reportagens e a oportunidade única de estudar jornalismo na prática, reciclar conhecimento e principalmente fazer uma autocrítica.

Antes de começar a pontuar, o jurado deveria: (1) informar se a reportagem mereceria ser considerada para o prêmio; (2) se ela definitivamente não mereceria ou; (3) se o jurado teria ficado indeciso, durante a sua análise – parâmetros que induziriam os jurados finais a escolherem os grandes vencedores – das 14 categorias.

E os critérios de pontuação, de 1 a 10 (melhores notas tendendo a 10), só então eram marcados numa planilha que automaticamente aferia o resultado da pontuação final por reportagem. Os concorrentes poderiam adicionar tantas peças quisessem, tais como links, fotos, vídeos, uma breve descrição de como foi conduzida a reportagem e, a defesa, porque ela deveria ser escolhida a vencedora.

Todas as reportagens utilizaram em grande escala redes sociais para estimular a interação do público leitor; aquelas relacionadas a eventos de impacto urbano, como enchente, nevasca e ameaça de franco atirador, incluíram grande porção de informação e recomendação de serviços de utilidade pública; para isso as equipes de reportagem dedicaram tempo e ‘caneta’, quer dizer, teclado, para o exercício de interatividade com o público, que ia se tornando ele mesmo fonte e repórter das novelescas reportagens; todas exploraram bastante os depoimentos de testemunhas, de pessoas integrantes do cenário do evento, durante e após as ocorrências; todas enfatizaram sua criatividade.

A cobertura de uma nevasca (atípica àquelas comuns em todos os anos na cidade, Washington DC) incluiu os esforços listados anteriormente mais a peculiaridade de um concurso via rádio, TV e internet para apelidar o fenômeno, como forma de entreter o público (confinado em casa), e chamar a atenção para informações úteis sobre a sequência dos fatos (ruas interditadas, acidentes em andamento, serviços disponíveis etc). Concurso para apelidar a nevasca? Sim, porque, a certa altura, a nevasca incorporara-se de tal modo na paisagem mental das pessoas que começavam a perder o interesse, causando desatenção quanto às recomendações oficiais e potencial risco de acidentes fatais e novas demandas por socorro.

Um discurso do presidente Obama, em rede de TV, mereceu de uma estação, além da utilização da internet, premissa para participar do prêmio da ONA, a criativa estratégia de produzir inúmeras entrevistas, com pares de comentaristas de renome, entremeadas com depoimentos colhidos do público imediatamente após o discurso do Presidente, dentro das 72 horas subsequentes, provocando grande audiência e, naturalmente, discussão de cada linha e impactos prováveis do discurso, contextualizada com a situação do país e as várias vertentes ideológicas, partidárias e opiniões em geral.

No jornalismo online não importa o tamanho

Entre as reportagens analisadas havia concorrentes de todos os calibres, do Washington Post e Yahoo News a canal de TV e jornal de pequena expressão do sul da Flórida.

Os vários critérios da ONA para pontuação do OJA foram de pertinência (no caso que escolhi para selecionar) enquanto furo de reportagem a características ainda mais subjetivas, tais como objetividade no texto. Em suma e repetindo, para mim foi um seminário online de jornalismo 360º.

É isto, falta no Brasil o jornalismo total, 360º, emprestando um jargão da propaganda e marketing.

Redigindo as características das reportagens concorrentes ao prêmio, percebo que apenas listar o enorme rol de esforço de mídia (meios e ferramentas da internet e da web, somados aos da mídia tradicional) não representa o peso e dinâmica daquelas reportagens que me demandaram madrugadas adentro para analisar. Tal foi o número de desdobramentos: de sequência de textos a podcasts (voz e imagem); de álbum de fotos a links externos para páginas produzidas por amadores e outros websites de notícias, coisas da internet (impensável O Globo impresso convidar o leitor a ler O Dia, não é?); de quadros inseridos em ilha no meio da notícia, com informação de caráter utilitário a sugestões de leitura diversa relacionada…

Jamais vi algo semelhante no Brasil. O que me leva a concluir que não temos jornalismo online, pelo menos igual ao dos Estados Unidos.

Categorias dos prêmios da ONA/OJA

Os valores dos prêmios variaram de US$2.500,00 a US$5.000,00. A entrega do OJA será realizada em coquetel na Conferência e Banquete da ONA no Renaissance Hotel em Washington, DC de 28 a 30 de outubro de 2010. O evento inclui encontro de negócio, feira de oportunidades de empregos e um seminário prévio à conferência.

Prêmio Jornalismo Online de Serviço Público

Reconhecimento ao jornalismo online que desempenha um serviço público para uma comunidade geográfica, através de uma cobertura convincente de um evento ou pauta vital para a comunidade.

Excelência Geral em Jornalismo Online

Para website que preencha com sucesso e inteiramente sua missão editorial, efetivamente atenda a sua audiência, maximize a utilização das características da web e represente os mais altos padrões jornalísticos.

Excelência Geral em Jornalismo Online, língua estrangeira

Voltado para website de língua estrangeira de qualquer parte do mundo que com sucesso atinja inteiramente sua missão editorial, efetivamente atenda a sua audiência, maximize a utilização das características da web e represente os mais altos padrões jornalísticos.

Furo de reportagem

Cobertura digital feita no período de 72 horas da ocorrência da notícia ou do evento que a provocou. Os jurados pesam a evidência de jornalismo excepcional sob pressão de deadline dentro do período de 72 horas, subseqüente ao evento original.

Website de jornalismo de especialidade

Para website de nicho que fornece contínuo noticiário de um único tópico (no Brasil, a cobertura do agronegócio, por exemplo), contempla especialidades tais como esporte, educação, marcenaria, natureza, artes, eleições, etc.

Jornalismo Investigativo

Para histórias que desvendam fatos relevantes, baseadas exclusivamente na investigação dos repórteres, ou que ofereçam convincente análise original e interpretação.

Apresentação de recurso multimídia

Categoria que premia excelência em apresentar uma história a uma audiência online utilizando técnicas de multimídia, incluindo gráficos interativos, Flash, fotografia, áudio e vídeo.

Reportagem online sobre tópico específico/Blog

Premia reportagem de um tópico específico feita por um repórter ou equipe. Premiados anteriores incluem cobertura de programa espacial e reportagem sobre defesa nacional.

Comentário online/Blog

Voz influente e singular na web. Privilegia jornalismo e abordagens bem arejadas.

Utilização distinta de tecnologias digitais na web

Esta categoria premia conquistas por um site que utilize tecnologias digitais para vender uma história e prestar um serviço a uma comunidade.

Utilização distinta de plataformas emergentes

Refere-se a website que utilize com excelência plataformas emergentes tais como telefones inteligentes, eReaders e tabletes, para contar uma história e servir a uma comunidade.

Vídeo de jornalismo online

Excelência em produção de reportagem em vídeo especificamente para a audiência da web.

Colaboração com a/e da comunidade

Refere-se a novos projetos ou website que produza jornalismo notável pela interação com a comunidade a qual a reportagem serviu.

Inovação tecnológica em serviços de jornalismo digital

Premia pessoa ou empresa, focada no jornalismo ou não, que construir uma ferramenta digital que realce significativamente a prática do jornalismo online.

******

Jornalista e escritor

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem