Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > IMPRENSA vs. MST

Como o movimento agenda a mídia

Por Isabela Vargas em 10/07/2007 na edição 441
Gentilli, Victor. Democracia de Massas: jornalismo e cidadania. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizou o seu 5º Congresso Nacional no início de junho. O evento acontece a cada cinco anos e tem grande importância para o MST, que retifica suas diretivas neste evento. A análise da cobertura jornalística deste momento tão significativo para os sem-terra fornece uma leitura de como a imprensa costuma tratar desse tema. O MST notabilizou-se pela sua capacidade de organização e de chamar a atenção dos meios de comunicação para as suas manifestações. No entanto, a leitura do acontecimento que a imprensa reproduz em suas coberturas associa o movimento à bagunça, à baderna, à violência e à desobediência civil.

O Congresso Nacional do MST é apenas um exemplo de como a mídia costuma tratar o movimento e a luta pela reforma agrária. Outro acontecimento importante na agenda de lutas dos sem-terra, e que tem merecido atenção da mídia, são as manifestações do chamado ‘Abril Vermelho’. A análise das matérias publicadas sobre os dez anos do massacre de Eldorado de Carajás, em 2006, resultou numa dissertação de mestrado, pela Universidade de Brasília – ‘Ocupando manchetes: como o MST agenda a mídia’.

A dissertação procurou responder como a mídia reage às estratégias de agendamento da assessoria de imprensa do MST. As notícias analisadas mostraram que a imprensa manteve a cobertura sobre o tema proposto pelos sem-terra. A estratégia do movimento garantiu o acesso ao campo jornalístico, na medida em que os jornalistas cobriram as ações do MST. Em quatro edições, o Movimento conseguiu figurar na capa dos jornais analisados.

Associação à violência

Os enquadramentos dominantes destacaram a impunidade do massacre de Eldorado de Carajás, depois de dez anos do episódio, a partir das ações promovidas pelo MST para protestar contra essa situação. As descrições, os exemplos históricos e as citações reforçaram a violência nas manifestações promovidas pelos sem-terra.

Na análise do enquadramento foi possível constatar que os jornalistas deram preferência ao termo ‘invasão’, ao invés de ‘ocupação’, conforme revelaram as notícias estudadas. Os sem-terra atribuem o sentido de criminalização ao termo ‘invasão’ e acreditam que os jornalistas relacionam o Movimento à ilegalidade quando optam por essa denominação.

As descrições utilizadas na construção das notícias também foram analisadas para verificar o enquadramento apresentado pela assessoria do MST e pelos jornalistas. Combater as construções sociais que associam o MST a ações violentas, tais como o abate de animais durante as ocupações de propriedades, é uma das preocupações da assessoria de imprensa do Movimento. A preocupação é pertinente porque a associação do Movimento a atos ilegais foi registrada em diversos momentos nas matérias analisadas.

Interesses econômicos

Um exemplo foi a cobertura da ocupação da fazenda Peruano, pertencente à família Mutran, detentora de grandes concentrações de terras no Brasil. O Correio Braziliense preferiu enfatizar a destruição de louças indianas e de um aparelho de televisão de plasma na sede da propriedade. Mesmo diante de um fato concreto – a invasão de um grande latifúndio –, para abordar a questão da concentração de terras no país o repórter optou por valorizar a violência dos atos do MST. A ação, que tinha como objetivo chamar a atenção para a necessidade de promover a reforma agrária como questão de justiça social, resultou na criminalização do Movimento.

Um coordenador do MST explicou que os donos da fazenda tinham quase 5% de todo o território nacional. O repórter poderia ter checado a informação e confirmado, ou não, a veracidade do fato. Ao verificar esse dado, o jornalista poderia ainda completar a matéria com informações a respeito do elevado número de latifúndios no Brasil, contextualizando a reforma agrária como uma questão de justiça social. No entanto, a matéria valorizou as informações fornecidas pelo administrador da fazenda, segundo o qual os sem-terra entraram na propriedade armados com revólveres e espingardas.

O MST não consegue agendar a imprensa da mesma forma que outras organizações e movimentos sociais. Essa constatação pode ser explicada pela questão dos sem terra: a reforma agrária. Trata-se de um tema relacionado à estrutura sócio-econômica existente. Dessa forma, entra em conflito com interesses econômicos e comerciais que também estão relacionados à mídia, muitas vezes concentrada em mega-conglomerados da comunicação. No Brasil, o modelo de comunicação permite monopólios nacionais e regionais, de redes de jornais e emissoras de TV, prejudicando a possibilidade de os cidadãos terem várias opções de jornais (GENTILLI, 2005, p.148).

Uma boa oportunidade

A intensa produção do setor de comunicação do MST reforça o descontentamento com a mídia tradicional. Na tentativa de dar visibilidade às suas ações evitando o enquadramento que associa o Movimento à violência, o MST investe na comunicação interna. O setor de comunicação produz materiais próprios de divulgação, tais como o programa de rádio Vozes da Terra, a revista Sem Terra, o Jornal Sem Terra, a página na internet e o boletim eletrônico semanal.

Além disso, o MST organizou a assessoria de imprensa nos escritórios nacionais em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Nos estados, militantes são preparados para desempenhar a função de assessor de imprensa. Os assessores de imprensa têm críticas ao trabalho dos colegas jornalistas. Os jornalistas entrevistados, por sua vez, manifestaram cautela em relação às informações repassadas pela assessoria do Movimento, mas enfatizaram que tomam cuidado com qualquer informação repassada por assessorias em geral.

O MST não poupa críticas ao trabalho da imprensa, conforme material apresentado na pesquisa. Mesmo assim, o Movimento procura dar visibilidade à luta pela reforma agrária. De fato, a reforma agrária não foi contemplada nas matérias analisadas como questão de justiça social. Durante a cobertura das manifestações, que pediam o fim da impunidade nos dez anos do massacre de Eldorado de Carajás, os jornalistas destacaram a questão da impunidade.

As estratégias de agendamento do Movimento dos Sem Terra não conseguiram influenciar a forma como a questão da reforma agrária é apresentada à sociedade porque o Movimento permanece associado à violência. A cobertura do 5º Congresso Nacional do MST é uma boa oportunidade para verificar se o enquadramento das matérias a respeito dos sem-terra mudou, ou se a situação permanece a mesma.

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Jornalista, mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, Brasília, DF

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