Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA VEJA

Comportamento feminino ou estratégia de marketing?

Por Ligia Martins de Almeida em 27/02/2007 na edição 422

‘As princesinhas estão por toda parte. De coroa dourada e saias coloridas, elas vão à escola, ao playground e ao dentista.’

É assim que a revista Veja começa a matéria de comportamento da semana (edição nº 1997, de 28/2/2007): ‘Todas querem ser princesas’. A dúvida, para o leitor, é se é mesmo de uma matéria de comportamento ou apenas uma desculpa para promover um produto, no caso as bonecas de princesa.

Se for comportamento, a revista deveria ter dito quantas são essas meninas que aderiram à nova mania. Parece, pela matéria, que são apenas algumas meninas de classe média alta que têm acesso a roupas caras, dentistas que também se vestem de princesa e pais que podem pagar 75 reais por um brinquedo. Também poderia ter dito quantas e qual o perfil das dentistas que se submetem a representar uma caricatura para ganhar a clientela. É claro que essa a mania não chegou às camadas normais da classe média e muito menos à periferia, onde 75 reais representam uma compra básica de supermercado.

Enfim, é um caso particular, e não uma tendência. Talvez tenha sido apenas um erro de retranca. Onde se lê ‘comportamento’, deveria se ler ‘consumo’ ou ‘marketing’. Ou será que os editores de Veja acreditam que basta juntar algumas declarações para transformar qualquer matéria em análise de comportamento?

Por que um príncipe encantado?

Um marqueteiro, uma mãe consumidora e uma psicóloga foram os escolhidos pela revista para justificar a retranca ‘comportamento’:

Para o marketeiro: ‘O gosto pelas princesas é inerente às meninas’, disse Mooney [chefe da divisão de produtos de consumo da Disney] à Veja. ‘Elas adoram os finais felizes e pensam que são princesas de verdade.’

O depoimento da mãe consumidora: ‘Eu gostava muito das princesas quando era criança, mas não havia todas essas coisas para comprar’.

A palavra da psicóloga: ‘‘O romantismo e a vaidade são valores femininos que independem da época ou do lugar em que a mulher vive’, diz a psicóloga Sara Kislanov, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro’.

Mas como ficam as mulheres que trabalham, lutam pela independência financeira, fazem carreira como executivas e buscam um companheiro em vez de um príncipe encantado? Como ficam as leitoras que querem que suas filhas, desde pequenas, brinquem em igualdade de condições com os irmãos?

Óbvio anúncio comercial

Para elas, a revista reservou um parágrafo que deve servir para diminuir a resistência quanto às bonecas que representam o que há de mais caricato sobre o comportamento feminino:

‘Algumas feministas – americanas, naturalmente – preocupam-se com conceitos retrógrados que possam ser transmitidos pelas bonequinhas. Branca de Neve, em especial, surgiu num desenho animado de 1937. O modelo feminino da época era o da menina prendada, sem grandes iniciativas e cujo principal atributo era a beleza. As meninas deveriam ser guardadas em casa até ser escolhidas por um príncipe encantado. Preocupam-se à toa. No pacote Disney há princesas para todos os gostos e temperamentos. Branca de Neve, Aurora (Bela Adormecida), Cinderela são do tipo tradicional, à espera do Príncipe Encantado. Mas a chinesa Mulan se veste de homem para ir à guerra em defesa do reino e a sereia Ariel tem comportamento independente, tipicamente moderno.’

E para as leitoras que ainda não foram contaminadas pela mania de princesa das filhas, a revista chama para o site, onde promete dizer ‘que tipo de princesa sua filha é’. Três testes absolutamente idiotas que prometem tirar as dúvidas das leitoras – as quais, certamente, terão mais facilidade na hora de escolher a boneca para suas filhas. Isto Porque se há uma coisa que os editores de Veja sabem é que o que sai na revista, se ainda não é moda, acaba virando. Portanto, nada melhor do que dizer que algum produto é mania para que todo mundo queira comprar.

Melhor ainda se a dica de consumo vier disfarçada como matéria de ‘comportamento’: um bom disfarce para um óbvio anúncio comercial.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/03/2007 Marcus Bugs

    Indiscutivelmente, a Veja possui o melhor texto das revistas brasileiras. Isto não significa, absolutamente, que ela seja a melhor fonte de informação. Contraditoriamente ao bom texto, é decepcionante como há tanto talento desperdiçado na Veja. Pena. No entanto, para muitos ainda continua sendo ‘status’ comentar o que leu na revista. Ó pobres ricos…. Para os mesmos muitos, assinar Veja é ‘estar informado’ e o que ela não publicou ‘não ficamos sabendo’, uma vez que ‘se não saiu na Veja, não deva se levar em conta’. Haja paciência.

    Ridículo, ainda, é repercutir a coluna do Diogo Mainardi.

    A imprensa é o espelho de quem a lê, ouve e vê.

    Pára o mundo que eu quero descer….

  2. Comentou em 27/02/2007 Nivaldo Silva dos Santos

    Num país que tem grande parte da elite economica preocupada com a próxima novidadeà ser comprada,que está sempre pronta para realizar os caprichos de suas crianças e adolescentes,que não faz o minimo esforço em prol da base da piramide social ,seria interessante que Veja ouvisse também os pais das crianças e adolescentes semi-analfabetos que estão matriculados em nossas escolas públicas.Veja poderia descobrir que,por exemplo,alguns adolescentes se envolvem com o trafico e outros tipos de crime,para juntar recursos para comprar futilidades que que nossa midia transforma artigos de ‘primeira necessidade ‘ .

  3. Comentou em 27/02/2007 Atilio Alvares

    Mas uma, entre as infindáveis,manipulações dessa revista que se constitui no pior meio de informação que este país já teve

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