Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 9 E 10/8

Comunique-se

12/08/2008 na edição 498

JORNALISMO NA JUSTIÇA
Sérgio Matsuura

Mainardi processa Nassif, 8/08

‘O colunista Diogo Mainardi, da Veja, sempre afirmou que ‘questões de imprensa devem ser resolvidas no âmbito da imprensa. É a regra número um do meu código de ética profissional’. Entretanto, ele entrou com um processo por danos morais contra o Ig e o jornalista Luis Nassif.

‘Eu não estou processando um jornalista. Estou processando um caluniador a serviço do Governo’, disse Mainardi.

A ação se refere a artigos publicados no blog Luis Nassif Online mantido pelo portal Ig. De acordo com a acusação, as matérias ‘ofenderam intencionalmente o bom nome e a moral do autor (Mainardi), colocando em xeque o jornalismo por ele desenvolvido’.

Os advogados de Mainardi pedem a retirada das informações do blog, indenização por danos morais e a publicação da eventual sentença condenatória no portal Ig.

O valor da indenização não foi definido, mas, de acordo com Mainardi, ‘será menos do que o Nassif recebeu do BNDES’.

Nassif conta que está ‘absolutamente tranqüilo’ em relação ao processo e afirma que todas as matérias contestadas pelo colunista de Veja possuem um fundo jornalístico.

Em seu blog, Nassif comenta o processo movido por Mainardi, afirmando que a Veja busca ‘calar os críticos entupindo-os de injúrias e processos’.

Após a Operação Satiagraha da Polícia Federal, os dois jornalistas trocaram acusações. Em seu blog, Nassif publicou artigos sobre a inclusão do nome de Mainardi no relatório da PF. Por sua vez, Mainardi publicou coluna chamando Nassif de ‘banana’.

Nassif não é o único jornalista com disputas judiciais com Mainardi. Na última quarta-feira (06/08), o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o colunista da Veja e a editora Abril a pagar R$ 207.500 a Paulo Henrique Amorim.

Com informações do Consultor Jurídico.’

 

 

OLIMPÍADAS DE PEQUIM
Milton Coelho da Graça

Com ajuda chinesa, adeus seca no Cariri, 8/08

‘Ser velho tem poucas mas interessantes vantagens. Vendo na TV aquelas baterias antiaéreas chinesas prontas para atirar obuses de iodeto de prata nas nuvens e evitar que chovesse durante o espetáculo-cerimônia da abertura olímpica, pensei numa linda pauta que jovens editores não tinham como sacar.

É que há mais de 50 anos o professor brasileiro Janot Pacheco queria fazer exatamente o contrário – fazer chover no Ceará, bombardeando nuvens com aviões da FAB. E o Brasil inteiro o considerou doidão.

A história deve estar toda registrada nos arquivos do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro (ainda há tempo de contá-la!).

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Prêmio de melhor cobertura política na Olimpíada vai para…

O GLOBO inventou uma coluna de meia página só para falar dos ‘atletas’ da Rede Globo. Mas isso é política da casa, o que é praxe. Mas, no outro tipo de política, outros dois companheiros parecem ter sido enviados só para descobrir o que está errado da Mongólia até o Everest.

A notícia olímpica mais importante para a BBC durante dois dias foi a babaquice de dois ou três entre os milhares de cidadãos de Sua Majestade, que caminhavam pelas ruas de Pequim e subiram num poste carregando uma bandeira ‘Free Tibet’. Bem diante dos câmeras da emissora, devidamente alertados sobre local e hora do ‘corajoso’ ato.

A Fox caprichou na matéria sobre os quatro ciclistas americanos que desembarcaram com máscaras para sacanear a poluição em Pequim. Dois atletas são de Nova York, ficaram muito surpresos quando souberam que o ar de sua cidade é pior do que o pequinês. E pediram desculpas públicas pela gracinha nada olímpica (sem imagens da Fox ou qualquer outra rede).

Michael Phelps vai fazer mais para tornar a China olimpicamente mais humilde do que todos esses truques antiesportivos de propaganda..

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E, nos EUA, rapper acusa Fox de racista

‘Câncer visual’, foi como o cantor Nas chamou o canal de notícias Fox, numa manifestação diante da emissora em Nova York. Numa de suas canções – ‘Sly Fox’ (Raposa Esperta) – o rapper afirma que, para a Fox, ‘o negro só é amado pela Fox quando está morto ou na cadeia’.

A Fox, na verdade, já fez várias ‘brincadeirinhas’ com Barack Obama e sua mulher, Michelle. Na mais recente e aparentemente a que provocou o revide de Nas, um convidado num programa da Fox confundiu propositalmente o nome do candidato presidencial americano com Obama bin Laden e, em tom brincalhão, disse que ambos deveriam ser assassinados.

(*) Milton Coelho da Graça, 77, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’

 

 


Comunique-se

RSF burla controle na China e transmite protesto via rádio, 8/08

‘Horas antes da abertura dos Jogos Olímpicos, a organização Repórteres Sem Fronteiras burlou a censura imposta pelo governo chinês e pediu mais respeito à liberdade de imprensa, transmitido pela Rádio Sem Fronteiras, uma emissora de rádio independente do país.

‘As autoridades chinesas se recusaram a autorizar visto para dez de nossos membros mas isso não vai impedir-nos de sermos ouvidos’, disse Robert Ménard, secretário-geral da RSF. Ele deixou claro que o protesto via rádio é um sinal do ‘espírito de resistência ao controle da mídia’.

Ménard estava acompanhado de ativistas chineses que lutam pelos direitos humanos.’

 

 

TV PAGA
Sérgio Matsuura

Relator quer aprovar PL 29 em um mês, 11/08

‘Após várias tentativas frustradas, o relator do Projeto de Lei 29/07, deputado Jorge Bittar, afirmou que a expectativa é que a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara vote o projeto ainda este mês ou no início de setembro.

Segundo o deputado, o ponto que ainda está causando discórdia entre os interessados é a limitação de 25% no número de canais brasileiros que um mesmo grupo econômico pode controlar. Todos os outros já foram, na medida do possível, sanados. Sobre problemas políticos, Bittar afirma que nesse projeto eles não existem.

‘Nenhum partido tem posição fechada sobre o tema. O projeto está tendo tramitação autônoma, sem interferência dos partidos. Tivemos momentos de apreensão, mas o projeto está caminhando bem. Esperamos que ainda este mês ele seja votado e aprovado por unanimidade’.

Segundo o deputado, o que pode atrapalhar é o regime de ‘esforço concentrado’ do Congresso. Por causa do período eleitoral, a Casa está realizando sessões Plenárias extraordinárias para acelerar as votações, o que acarreta numa diminuição das reuniões das Comissões.

Há duas semanas, o projeto foi apresentado a membros do Governo, incluindo o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que, de acordo com Bittar, ‘gostou do projeto’.

‘Quando ele voltar da China, vai posicionar o Governo em relação ao projeto, o que vai acelerar a aprovação’.

Para ministro, projeto merece mais estudos

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, confirmou que a expectativa é que o projeto seja aprovado em breve, possivelmente dentro de um mês. Entretanto, não confirmou o posicionamento do Governo, dizendo que ainda são necessários alguns ajustes para que possa se chegar a um consenso.

‘O Governo ainda não tem uma posição definitiva porque o projeto está sendo discutido no Congresso. Ele ainda merece alguns estudos e aperfeiçoamentos que estão sendo feitos na Comissão de Ciência e Tecnologia’, disse o ministro.’

 

 

INTERNET
Bruno Rodrigues

É hora de mobilizar – até para ir ao cinema, 5/08

‘Tenho implicância com grupos. Talvez porque fui criado em uma família que encarava a vida social de maneira messiânica – algo como ‘era triste e sozinho e meus amigos me salvaram’ – minha tendência é achar que, juntou dois ou três, vale a máxima de Nélson Rodrigues: unanimidade = burrice.

Por isso, quando soube do MovieMobz, pensei ‘daqui a pouco vai ter gente que precisará estar em grupo para ir ao banheiro’ (infelizmente, sem conotação sexual). Mas, confesso, capitulei – não é que a idéia é boa pacas?

O negócio é o seguinte: você gosta de cinema, mas acha um saco ver em casa; a catarse é assistir ao filme no escurinho do cinema, no meio do povão, reagir ao que surge na tela em grupo e daí em diante. A questão é: como conseguir montar o ‘programa ideal’?

Você entra com a pipoca, o MovieMobz com a solução (pronto, slogan criado). Para começar, é só entrar no site (www.moviemobz.com) e clicar em ‘Filmes’ no menu principal, onde você acessa todos os filmes já digitalizados disponíveis no catálogo do site – na verdade, um ‘circuito’ no estilo Luiz Severiano Ribeiro. No catálogo há filmes clássicos, independentes e inéditos, inclusive filmes em cartaz.

Depois, é só escolher o cinema mais próximo. São algumas salas digitais espalhadas pelo Brasil – sou obrigado a dizer que quebrei a cara, pois são bons cinemas. Contei 16 cidades e, só para dar uma ‘cavucada’ e testar o número de salas em cada uma delas, chequei, por exemplo, 16 no Rio, 12 em São Paulo e 6 em Brasília. Não dá para reclamar.

Porém, o ‘x’ da questão é a mobilização. Não basta escolher um filme e agendar um cinema, você precisa ‘mobilizar’, ou seja, convencer os amigos a se cadastrarem no site e encorparem o coro dos que querem ver a fita que você sugeriu, no local e horário que você escolheu. Se tiver quorum o bastante, fechado: seu programa ideal toma forma, dia e hora. Ah, sim, e há um plus e tanto: quanto mais gente você conseguir mobilizar, mais barato ficará o ingresso. Bom, muito bom.

Além de ver o filme que se quer, onde se desejou e em grupo, a diversão para os habituées do site é sugerir outros filmes, ficar aguardando a ‘massa’ aderir e perturbar os amigos para que o programa possa vingar.

O mote do MovieMobz é ‘mobz é mobilização, mobilização é poder’. Nada mal como objetivo de um grupo. Afinal, talvez o que me tenha feito deixar implicâncias e preconceito de lado tenha sido exatamente ter um objetivo em estar junto.

É provável que unanimidade seja um passaporte para a burrice, mas colocar um porquê no caminho é um bom motivo para repensar Nélson Rodrigues.

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

 

JORNALISMO LITERÁRIO
Eduardo Ribeiro

O repórter que morou nas ruas de São Paulo conta o que viu e o que viveu, 7/08

‘Ele perdeu tudo o que tinha na vida, inclusive a esperança de viver. Sofreu todos os tipos de humilhação, passou frio e fome, viveu da caridade organizada e nem tão filantrópica assim, perambulou por aí sem lenço e sem documento, tendo as ruas de São Paulo como moradia. Mas viu muita coisa errada, outras um tanto suspeitas e foi testemunha de uma das ações mais calhordas que alguém minimamente comprometido com a integridade humana pode aceitar: o uso dos miseráveis para promover lavagem de dinheiro, a céu aberto, no centro de São Paulo, nas barbas da polícia. Humilhado mas com o faro jornalístico apurado, ele também viu miseráveis serem usados como massa de manobra da igreja, que tem se valido do rebanho de desamparados para ter acesso a verbas públicas generosas e também para encorpar movimentos políticos com gente que sequer sabe o que está fazendo.

Rubens Ferreira Marujo, 57 anos, é seu nome e sua história já esteve aqui presente na coluna de 14 de maio, sob o título Sem lenço sem documento e a rua como moradia, que teve imensa repercussão.

Marujo deixou as ruas, mora hoje num pequeno apartamento no centro de São Paulo e após algumas semanas frilando para o Diário do Comércio foi contratado como repórter de Política para cobrir a temporada de eleições que vem por aí. Voltou a ser um cidadão. Ironia do destino, a história da qual foi personagem transformou-se em reportagens para o próprio DC. As duas primeiras, publicadas respectivamente nas edições de segunda e terça-feira desta semana, estão reproduzidos na íntegra a seguir, autorizadas que foram pelo diretor de Redação do jornal, Moisés Rabinovici, e obviamente pelo autor. Nelas Marujo conta o que viu e o que viveu, ao lado de centenas de outros moradores de rua, os quais, além do abandono da sorte, sofrem também com os ataques oportunistas de quem, por incrível que pareça, se propõe a tirar vantagem da miséria.

O título da primeira matéria é ‘Albergado é usado para lavar dinheiro’. A abertura destaca: ‘Só quem viveu um drama para saber relatá-lo com fidelidade. Durante três meses, o jornalista Rubens Marujo teve de viver em um albergue da Prefeitura. Uma dura experiência de vida, que lhe trouxe uma visão crua, mas privilegiada da cidade e dos esquemas ilegais que perseguem albergados, desempregados e moradores de rua. Difícil imaginar que aquelas pessoas maltratadas que passam os dias sentadas nas escadarias do Teatro Municipal, no Centro de São Paulo, são usadas como laranjas num amplo esquema de lavagem de dinheiro. Aliciadores agenciados por doleiros se aproveitam da fragilidade social, emocional e financeira de albergados para, com seus documentos, comprar dólares em casas de câmbio espalhadas por hotéis e shoppings. Por ceder seus documentos, os albergados recebem R$ 15. Tudo isso acontece à luz do dia, todos os dias.’

Segue o texto de Marujo (1º capítulo da série)

‘O esquema é sofisticado e participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Negócio fechado. Eu devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro.

Todos os dias, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo e arredores, bem no Centro da cidade, funciona um esquema muito bem planejado de lavagem de dinheiro sujo, patrocinado por grandes casas de câmbio.

Essas operações são feitas quase o dia todo, mas os horários de pico ocorrem às 11h30 e às 13h30, quando homens agenciados por doleiros aliciam pessoas, na sua maioria albergados, que ficam ali sentados. Esses aliciadores ficam à espera de uma oportunidade para comprar, vender ou fazer remessas de dólares para o Exterior, pagando a cada albergado a desprezível quantia de R$ 15. Como esses albergados não têm dinheiro nem para um cafezinho, se sujeitam a esse tipo de prática, atuando como laranjas.

O esquema é sofisticado. Eu mesmo participei, pelo menos uma vez, de uma dessas operações. Não tinha almoçado, estava com fome, então, me deram a dica. Ainda permanecia bem vivo o meu faro de jornalista.

A operação – Eram quase 14h de uma ensolarada segunda-feira. Fui para a escadaria e, minutos depois, apareceu um homem me perguntando se meu CPF era limpo. Limpo, no caso, significa não ter pendências na Receita Federal. É possível ter o nome sujo na praça, mas um CPF em dia. Além disso, ele perguntou se eu tinha RG e se estava tudo correto. Respondi que sim.

‘Então, tudo ok’, afirmou.

Fui aprovado para fazer a operação. Nas escadarias do Municipal opera-se, principalmente, para três casas de câmbio: Light, Turismo Dez e Brasileiro. Com esta última é mais difícil, porque ela exige comprovante de residência. Mas há quem venda esse documento no local.

Junto comigo, havia outro albergado que, como eu, estava morrendo de fome. O aliciador pediu que acompanhássemos uma moça grávida (sua irmã) até a região dos Jardins. Até então, não sabíamos exatamente o nosso destino. Nós três pegamos um ônibus (a passagem ela pagou) e descemos na rua Augusta, quase esquina com a alameda Santos. Chegando lá, ela nos contou que deveríamos ir à casa de câmbio que funciona dentro do luxuosíssimo Hotel Renaissance para efetuar a operação com dólares.

Chá quente – No hotel, eu e o outro colega estávamos com a barba por fazer, mal vestidos e mal cheirosos. Entramos assim mesmo, sem que ninguém nos perguntasse quem éramos. A moça foi conversar com o funcionário do câmbio. Pediu que entrássemos e esperamos para ser atendidos, sentados em confortáveis poltronas. Numa delas havia uma mesinha com um bule de chá quente, que algum hóspede deixara ali. Meu amigo não hesitou em tomá-lo. Fomos chamados. Na minha vez, o funcionário da casa de câmbio solicitou o CPF e o RG. Tirou uma cópia e, antes de completar a operação, fez uma ligação telefônica.

‘Alô, agora não posso mais fazer a R$ 1,77, só a R$ 1,78. Pode ser? Então vou fechar o negócio’, afirmou.

Em seguida, imprimiu um papel numa máquina, tirou cópia dos documentos e me pediu endereço com CEP. Inventei um na hora, porque não fui avisado de que me faria tal pedido. Mas ele aceitou minha resposta. Negócio fechado. Devo ter comprado US$ 5 mil para alguém lavar o dinheiro. O funcionário fez a mesma coisa com o outro rapaz e fomos embora. Na porta de saída do hotel, a moça que nos acompanhava nos deu os R$ 15 mais o dinheiro da condução e fomos embora.

É bom que se esclareça que esse tipo de operação é permitida. O Banco Central autoriza que cada pessoa possa comprar, vender ou remeter até US$ 5 mil por mês. Mas no caso em questão, os doleiros e seus agentes que agem no Centro da cidade aliciam dezenas de albergados para a lavagem de dinheiro sujo. Não se sabe se ele vem de contrabando, tráfico de drogas, de desvios de recursos ou do crime organizado. Muitos albergados já fizeram essa operação mais de uma dúzia de vezes. O esquema é antigo e tão bem montado que existe até uma alternativa para quem não tem CPF.

Ano todo – Ele funciona assim: um outro agenciador alicia, de uma só vez, albergados ou desempregados que têm RG limpo. Nesse caso, ele precisa formar um grupo de dez a vinte pessoas. O aliciador leva os RGs, tira cópias e os devolve aos proprietários mediante o pagamento de R$ 10. Só que esses RGs serão usados o ano inteiro para a prática dessas operações de câmbio ilegais.

Bem, eu fui para o Hotel Renaissance. O esquema, porém, conta com casas de câmbio alternativas, em shoppings como o Anália Franco, o Center Paulista, o Interlagos e o Shopping Light. Além desses locais, as operações de lavagem de dinheiro também são feitas em algumas casas de câmbio localizadas no Centro da cidade, como por exemplo nas avenidas São Luís e Paulista.

Outros Golpes – Mas não é todo dia que acontecem as operações de lavagem de dinheiro. Quando não tem negócio para fazer, o aliciador, já conhecido dos freqüentadores, diz que ‘a barra tá suja’ e que a polícia está dando em cima. Fiquei sabendo que, às vezes, para confundir os policiais, o esquema é feito dentro da estação Sé do metrô, bem em frente às catracas. Na região da rua 25 de Março existem vários outros locais de lavagem de dinheiro. Entretanto, outros golpes são aplicados ou tramados nas adjacências. Um deles, muito conhecido dos malandros, é o do aluguel da conta bancária.

Ouvi comentários e perguntei do que se tratava:

‘O senhor é albergado’?

‘Sim’, respondi.

‘Tem conta bancária’?

‘Não’.

‘Então, tá fora’.

É claro que eu não iria participar desses golpes sujos. Mas como repórter-albergado sentia curiosidade de saber como agiam. Diante de minha insistência em saber o que era, o rapaz me contou.

‘O negócio é o seguinte: a gente rouba dinheiro de uma conta bancária, ou das pessoas, e não têm onde colocá-lo. Então, ‘alugamos’ uma conta-corrente. Por isso perguntei se o senhor tinha uma conta. Colocamos a grana lá. Depois, sacamos o dinheiro e o senhor ficaria com 20% do valor depositado. Esse é o esquema’.

Falsificação – Aí fui percebendo que as escadarias do Teatro Municipal se transformaram num grande ponto de golpes e outras contravenções, apesar da constante e ostensiva presença da polícia. Descobri também que há quem ‘esquente’ Carteiras de Trabalho. Isso significa que quem tem carteira, mas nunca trabalhou, ganha uma série de registros falsos, como se já tivesse trabalhado há muito tempo. Outros querem levantar dinheiro para comprar um computador, a fim de falsificar dólares e outros documentos. Nesse tipo de fraude, pelas conversas que ouvi, a concorrência é grande: um se diz melhor falsificador do que o outro. E há vários outros tipos de golpes tramados e executados ali mesmo, nas escadarias do Teatro Municipal.

‘Sentiam prazer em nos humilhar’ (Segundo capítulo da série)

Nesta segunda reportagem, Marujo conta sua dura experiência de três meses num albergue da Prefeitura, onde a Igreja mostrou sua face mais intolerante. Durante o dia, nas ruas e praças. À noite, refúgio nos albergues municipais. Segundo ele, moradores de rua e desempregados são humilhados e usados como massa de manobra por religiosos. Segue o texto.

‘Morei ali no albergue São Francisco, que ficava na esquina da rua Santo Amaro, com o viaduto Jacareí, bem em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Ele foi desativado há 15 dias, da noite para o dia, por força de um abaixo-assinado dos moradores, pois o local se transformou em um ponto de albergados e marginais de todo o tipo, e retornou para a baixada do Glicério que estava sendo fechado. Antes o São Francisco chama-se Cireneu e era administrado por uma Ong de quinta categoria, com verba liberada pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.

Pois bem. Em abril, os padres franciscanos assumiram o comando do albergue e o que era ruim ficou pior. Acho muito estranho que o padre Júlio Lancelotti e outros religiosos liderem uma passeata com moradores de rua, usando albergados como massa de manobra para conseguir, talvez, mais recursos da Prefeitura.

Maus tratos – Ali , no albergue São Francisco, os padres, que zelam tanto pela fraternidade, tratavam os albergados de forma desumana. Éramos mais de 400 pessoas amontoadas num imenso porão-dormitório sujo, que alagava quando chovia. Era um depósito de seres humanos, com um cheiro insuportável. Senhores com mais de 80 anos misturavam-se a jovens alcoólatras, drogados, crianças, mulheres, deficientes físicos e mentais, tuberculosos, portadores do vírus da aids, ex-presidiários e outros ainda cumprindo pena condicional, sem nenhum tipo de assistência.

Aquilo se assemelhava mais a um campo de concentração nazista. Durante cinco anos, o albergue funcionou ali, debaixo do viaduto, sob um estridente barulho, o ‘dum-dum’ dos veículos que passam pelas emendas sobre o viaduto. Esse incômodo barulho martelava nossos ouvidos a noite toda. Nunca se tomou uma providência.

Com raríssimas exceções, os monitores, contratados pela igreja sem a mínima qualificação profissional, sentiam prazer em nos humilhar, deixando-nos na fila, debaixo de chuva e frio, à espera da hora de entrar. As regras são draconianas. Entra-se após às 17h30 e acorda-se às 5h. Até as 7h, todos têm que ir para a rua, inclusive aos domingos e feriados. As assistentes sociais explicavam que eram ordens da Prefeitura e não podiam fazer nada. Assim, todos, até mesmo as senhoras e outras pessoas com idade avançada tinham de sair, fizesse sol ou chuva.

Sem camas – Um dia, com princípio de pneumonia, pedi para ficar lá dentro, pois chovia e fazia frio. Me sentia muito mal. Solicitei a um dos monitores que me deixasse ficar e ouvi:

‘Não enche o saco, meu. Você não sabe que os padres não querem ninguém aqui dentro? Vá embora’.

No dia seguinte, muito mal, me escondi na biblioteca e não saí. Era começo de maio, fazia um frio insuportável. Foi então que presenciei uma cena lamentável: o coordenador dos franciscanos dentro do albergue mandou retirar centenas de camas (são beliches) do dormitório para colocá-las nos porões daquele fétido lugar. Ele dizia aos outros monitores: ‘Quanto menos camas, melhor. Agora vem o frio, a Prefeitura vai querer mandar mais gente para cá e, desse jeito, podemos dizer que não há lugar’. Depois, espaçou as camas que restaram para dar a impressão de que não havia mais lugar.

Indústria da miséria – Do jeito que funcionam, os albergues não contribuem para nada. A maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Dificilmente conseguem se reintegrar.

No albergue São Francisco, que funcionava sob o viaduto Jaceguai, muitos dos idosos que lá dormiam não conseguiam mais fazer suas necessidades fisiológicas no banheiro. E sujavam na roupa, na cama, no chão. Não havia fralda geriátrica para eles.

Muitas vezes vi albergados mais novos ajudando os mais velhos a tomar banho. Vi vários deles caídos no chão, pedindo ajuda. O pior de tudo é que o albergue São Francisco foi desativado, mas na baixada do Glicério (seu novo endereço) a situação continua a mesma, segundo relatos dos albergados que foram removidos para lá. Outros foram encaminhados para um hotel social (a Prefeitura o chama de Centro de Recolhimento), na rua Francisca Michelina, na região central da cidade. A comida é razoável, mas costuma provocar indisposições estomacais.

Monopólio da Igreja – Depois disso tudo, cheguei à conclusão de que deve existir ‘uma indústria da miséria’. Em São Paulo, o monopólio dos moradores de rua está nas mãos da Igreja. Ela usa a verba da Prefeitura, mas gasta muito pouco na melhoria dos serviços do albergue.

Na época em que se chamava Cireneu (nome de um empresário ligado ao grupo Copagaz) a coisa era ruim, mas só aceitavam pessoas com mais de 40 anos. Depois que a Igreja assumiu o albergue, abriu as portas para todo mundo. Então, jovens, líderes de facções criminosas, assaltantes e até traficantes passaram a almoçar e morar lá. Eram comuns os princípios de tumulto.

‘Muquiranas’ – Para se conseguir almoçar era preciso esperar, em média, 3 horas, debaixo de chuva ou de sol. Os padres se recusavam a abrir os portões para que pudéssemos entrar e nos abrigar. Um papel colado na parede interna do dormitório indicava que a dedetização estava vencida havia 3 meses. Os dormitórios ficavam infestados de baratas e de outros insetos, principalmente de ‘muquiranas’, uma espécie de piolho que dá no corpo de quem não toma banho, produzindo uma coceira insuportável. É muito fácil ficar infestado. São os moradores de rua que os trazem.

Com auto-estima muito baixa, mas com alguma dignidade, suportávamos todo tipo de humilhação que nos era imposta, com medo de sofrer represálias: ser cortado e ir para rua. Era fila para entrar, fila para pegar alguma roupa no bagageiro, fila para tomar banho (quando os chuveiros funcionavam) e fila para jantar. Não adiantava muito tomar banho, porque éramos obrigados a vestir a mesma roupa, que cheirava mal.

Vícios – Pude constatar que a maioria dos albergados já está, de alguma forma, mentalmente comprometida com os vícios adquiridos e não existe uma política específica para tratar dessa questão social. Não há tratamento diferenciado para cada tipo de problema, curso técnico, suporte jurídico, assistência médica. Enfim, não há nada. Entra-se no final da tarde, só toma banho quem quer, dorme-se e, às 5h da manhã, todo mundo acorda.

No café da manhã é servido um pão (de hot-dog) com manteiga e café com leite de soja (mais dor de barriga em todo mundo). Depois, dez horas passadas na rua. Essa é a rotina. Do jeito que funcionam, esses albergues não contribuem para nada. Dali, a maioria sai e passa o dia bebendo e se drogando até a hora de voltar. Poucos trabalham ou fazem bicos. Estão todos abaixo da linha da pobreza. Dificilmente conseguem se reintegrar à sociedade.

Chá com política – Quem mora em albergue ou pelas ruas da cidade conhece muito bem o que é uma ‘boca de rango’. É aquele lugar que oferece comida de graça aos pobres. Em São Paulo existem várias delas e uma das mais conhecidas, e bastante freqüentada, é a do ‘chá do padre’. De segunda a sexta-feira, as 14h, a igreja de São Francisco, com entrada pela rua Riachuelo, oferece chá com dois pãezinhos com manteiga. O salão fica lotado e é nessa hora que os religiosos aproveitam para fazer suas pregações políticas, incitando os moradores de rua e albergados a se organizarem em movimentos políticos para reivindicar seus direitos junto ao governo. Até um terceiro mandato do Lula já foi questionado lá.

Quando não é no chá, essa doutrinação política é feita nos albergues, por meio das assistentes sociais. Mas os albergados são avessos a esses movimentos. As assistentes sociais também convocaram todo mundo para protestar no dia 1º de Maio, a pedido da Igreja. Disseram que era importante a presença dos albergados nessas manifestações. A Igreja mandou confeccionar vários cartazes e distribuíram farto material para que fossem feitas faixas e cartazes. Todos deveriam estar reunidos na praça da Sé. Mas ninguém deu a menor importância a isso.

A Prefeitura, por sua vez, faz propaganda enganosa, espalhando pelas principais praças da cidade peruas Kombi azuladas, com os dizeres ‘São Paulo Protege’. Existem cerca de 13 mil moradores de rua em São Paulo, mas só a metade deles mora em albergue. Essas peruas só recolhem as pessoas da rua no final da tarde. E nem sempre existem vagas nos albergues. Cheguei a ver gente entrando às 2h da manhã para sair logo depois, às 5 horas.’

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’

 

DIRETÓRIO ACADÊMICO
Carlos Chaparro

Fonte, o novo berço da pauta, 5/08

‘O XIS DA QUESTÃO – Pautar tornou-se, em grande parte, tarefa das fontes. E quem conhece os modos de produção no jornalismo de hoje, sabe do que estou falando. Se isso é bom para o jornalismo e para a sociedade, é outra discussão. Que tem de ser feita à luz de valores e de realidades que pouco ou nada têm a ver com a crença antiga de que a atualidade dava-se no jornalismo e pelo jornalismo. No caminhar acelerado da História, as coisas se inverteram: o jornalismo faz parte da atualidade, como sua principal linguagem.

1. Perguntas essenciais

Onde e como nascem as reportagens que o jornalismo diário espalha ao mundo? De onde brotam as pautas e os conteúdos dos jornais nossos de cada dia?

Essas são perguntas de respostas ocultas, proibidas aos consumidores finais da notícia. Mas que ajudaria muito à leitura e à audiência críticas, se leitores e telespectadores criassem o hábito de fazê-las depois de lerem ou verem reportagens que lhes agradam.

E isso porque, embora a origem das pautas pareça um mistério guardado a sete chaves, não é assim tão difícil vislumbrá-la no produto final gerado por elas.

Não faz muito tempo, numa aula de pós-graduação programada para o horário dos telejornais noturnos, eu e os alunos assistimos a um deles, com uma metodologia de desconstrução, movidos pela seguinte pergunta: haverá neste telejornal alguma notícia que não tenha na origem e no conteúdo pelo menos uma fonte organizada?

No balanço final, a resposta foi ‘não’. Todas, TODAS as notícias daquele telejornal tinham origem e nutrição em alguma fonte organizada e interessada. Claro que as notícias eram verdadeiras, e que nelas havia o aval jornalístico de quem lhe dava forma e apresentação final. Mas também isso convinha à fonte, porque não interessa a qualquer sujeito social vincular o seu discurso a conteúdos que não mereçam fé.

Mais recentemente, estive na banca de um trabalho acadêmico de pesquisa e análise das maneiras como os assuntos na União Européia eram noticiados no Brasil. Duas conclusões ganharam evidência: 1) Os conteúdos da União Européia, e a sua própria história, são mal compreendidos e mal divulgados pelo jornalismo brasileiro; 2) A instituição União Européia, como fonte jornalística, é um desastre.

Logo, concluiu-se, o mau trabalho jornalístico sobre as coisas da União Européia reflete a má qualidade da fonte. Trata-se de uma instituição complexa, atravessada por conflitos e contradições entre interesses que mais divergem do que convergem. Por isso, embora recheada de conteúdos de interesse jornalístico, divulga-os precariamente, por falta de unidade discursiva e de mecanismos eficazes de divulgação.

No mundo de hoje, porém, a União Européia é exceção entre os produtores de conteúdos da atualidade que interessam ao relato jornalístico.

O cenário predominante é exatamente o oposto: as fontes organizadas são detentoras de surpreendente competência, tanto na geração de conteúdos quanto na sua divulgação. E as habilidades de propor ou induzir pautas são muitas, e complementares, testadas, continuamente aperfeiçoadas e nem sempre perceptíveis.

Uma viagem internacional oferecida a jornalistas da áreas de tecnologia, por exemplo (e não são poucas as que acontecem), pode não ter objetivos específicos de propor pautas, mas é, ou pode ser, um formidável procedimento de revelação de conteúdos interessantes. Portanto, uma tática eficaz de indução de pautas.

2. Fonte, entidade complexa

Evidentemente, um assunto destes dá pano para mangas, tanto sob o ponto de vista técnico quanto sob os aspectos éticos e deontológicos.

Mas não há como fechar os olhos à nova fisionomia do jornalismo.

Ao contrário de antigamente, os acontecimentos (e neles se incluem as falas sem as quais a narração jornalística não sobrevive), que hoje disputam segundos no tempo dos telejornais e centímetros no espaço dos veículos impressos, já nascem com natureza, conteúdo e forma de produto jornalístico. E esse é um trabalho profissional que, nos formatos atuais, vai muito além da simples assessoria de imprensa. Em complexidade e multidisciplinaridade.

No estudo do trabalho das fontes jornalísticas, tal como são e atuam no jornalismo atual, já dissequei dezenas de ‘cases’; já acompanhei o percurso de muitas pautas, da origem à explosão em sucessos jornalísticos; já entrevistei e acompanhei o trabalho de assessores, nas fontes, e de pauteiros, editores e repórteres, nas redações; já desconstruí várias dezenas de acontecimentos e reportagens.

Posso garantir o seguinte: o conteúdo jornalístico tornou-se a parte essencial dos acontecimentos. Nesse conteúdo está o discurso e a ação discursiva de quem produz o acontecimento. E como os acontecimentos não nascem nem poderiam nascer nas redações, mas nas fontes; como os acontecimentos não são nem poderiam ser controlados pelas redações, mas pelas fontes; como as falas que recheiam a narração jornalística não brotam do acaso, mas de sujeitos falantes preparados para o exercício de dizer – podemos então dizer que está velho e enterrado o conceito de fonte-informante. No jornalismo de hoje, fonte é o produtor deliberado dos acontecimentos da atualidade. Portanto, o produtor de conteúdos jornalísticos.

Mas não basta saber produzir acontecimentos e recheá-los de conteúdo. Há que saber cuidar, com igual competência, das tarefas de divulgação. E foi isso que, a meu ver, faltou à Oboré e ao meu amigo Sérgio Gomes, para que ganhasse a devida socialização jornalística o projeto do resgate dos conteúdos vitoriosos do Prêmio Vladimir Herzog, financiado pelas Nações Unidas, na comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Pautar tornou-se, em grande parte, tarefa das fontes. E quem conhece os modos de produção no jornalismo de hoje, sabe do que estou falando.

Se isso é bom para o jornalismo e para a sociedade, é outra discussão. Que terá de ser feita à luz de valores e de realidades que pouco ou nada têm a ver com a crença antiga de que a atualidade dava-se no jornalismo e pelo jornalismo. No caminhar acelerado da História, as coisas se inverteram: o jornalismo passou a ser parte da atualidade, como sua principal linguagem.

(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.’

 

 

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu (*)

Olimpíada é pretexto pra meterem o pau na China, 7/08

‘Sempre que me vejo

ao final das tardes

saltam-me da boca aves feridas

(Álvaro Alves de Faria in Poema n° 5)

Olimpíada é pretexto pra meterem o pau na China

A considerada Arlete Guimarães, tradutora paulistana, escreve para confessar sua indignação com o que lê e escuta a respeito da China nesses tempos olímpicos:

‘Eu e muita gente não agüentamos mais ouvir os repórteres da Globo falando mal dos chineses; aproveitam a ocasião dos Jogos para criticar a poluição de Pequim, a falta de liberdade do povo chinês, a violência contra o Tibete, a censura à imprensa. Acham certamente que o Brasil é um país perfeito, capaz de exportar maravilhas democráticas.

Para esses jornalistas, é mesmo difícil entender o regime chinês e que o conceito de ‘direitos humanos’ não pode ser o mesmo daqui num país com mais de um bilhão de habitantes; lá não se perde tempo com a defesa de bandidos!’

Dona Arlete, Janistraquis tem a impressão de que a senhora é comunista…

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Papo furadíssimo

Janistraquis estava, como sempre, mais arrasado do que pangaré em dia de chuva, de modo que me ocorreu chamá-lo de volta ao otimismo, apesar dos muitíssimos e justificados pesares:

— O governo informou que quem ganha mil reais por mês já pertence à classe média; e você ganha quase mil reais!!!, anunciei, com a entonação ornamental de Galvão Bueno.

Meu assistente deixou pra lá o alicate e as lixas com os quais fazia as unhas das galinhas, olhou-me com desprezo profundo e grunhiu:

— Ora, considerado, vai pra PQP!!!

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O livro do Ladeia

O colunista pôs-se a ler o primeiro romance do jornalista Luiz Carlos Ladeia, nosso contumaz colaborador, e o primeiro capítulo já o convenceu de que se encontra diante de livro exemplar.

Ótimo texto, excelentes personagens sustentam a obra desse paulista de Morro Agudo que tem histórias para contar desde a infância pobre no bairro da Penha, zona leste de São Paulo, onde vive até hoje, às experiências na escola de aprendizes no Parque de Aeronáutica e também pela estrada afora, como policial rodoviário nos anos 70.

Troncos Soltos na Água, editado pela Marco Zero, será lançado no estande da editora, na Bienal, às 17 horas de 23 de agosto.

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Álvaro Alves de Faria

Leia no Blogstraquis a íntegra do poema cujo fragmento encima a coluna. Faz parte do livro A Memória do Pai, composto em Coimbra, em 2006. Álvaro, poeta maior, mudou-se para Portugal, país onde o talento merece respeito.

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Amigo pessoal

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, de cujo banheiro, em subindo-se nas bordas do vaso sanitário, é possível enxergar Tarso Genro a degustar os amendoins que lhe são oferecidos pelos visitantes do Ministério da Justiça, pois Roldão ponderava as mais recentes leituras e decidiu cortar relações com uma velha expressão:

Lemos nos jornais que Lula é amigo pessoal de Fidel Castro. Encontramos todos os dias a expressão ‘amigo pessoal’, como se pudesse existir algum amigo impessoal.

Só se fosse o ‘amigo oculto/secreto’ das brincadeiras de fim de ano! Se quisermos qualificar o grau de amizade, podemos dizer ‘amigo íntimo’ para contrastar com o mero conhecido ou colega.

Mas talvez ‘amigo íntimo’ possa ter a conotação de um relacionamento íntimo demais… Será isso?

Há, isto sim, o amigo de infância, o amigo do colégio etc.

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Caparam a letra

Chamada de capa do UOL:

Folha de S. Paulo Nova esquerda e nova direita duela pelo futuro da China

Janistraquis foi assaltado pela dúvida:

‘Considerado, ocorreu desprezo pelo plural ou ‘duela’ é simplesmente uma, quer dizer, homenagem àquele famoso dístico ‘duela a quien duela’?

Fomos verificar e concluímos que não houve nem uma coisa nem outra; faltou espaço, caparam o m.

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‘Causos’ de repórter

O considerado e veterano repórter Otávio Nunes, paranaense de São Paulo e autor dalguns e bons ‘causos’, que é como Janistraquis chama os contos de poucas linhas, escreveu à coluna:

Fiquei três meses em repouso após operação cardíaca, período no qual cheguei a duvidar de minha permanência entre os vivos. Mas, porém, e principalmente contudo, continuo cá, deste lado.

Neste ínterim, fiquei sem alimentar meu blog, que quase morreu de inanição, coitado. Já não basta ser ignorado, pois ninguém o lê, quanto mais ficar sem conteúdo atualizado.

Pois bem, vortei. Se você tiver um tempinho a perder, perda-o com meu blog.

(www.historinhasdootavio.blogspot.com).

O colunista recomenda a, digamos, vilegiatura literária.

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De tartarugas

O considerado Henrique Marques Porto, jornalista afastado há anos do ofício, hoje presidente da Fundação Bento Rubião, instituição voltada para a Defesa dos Direitos Humanos com atuação e sede no Rio de Janeiro, pois Henrique enviou de seu refúgio em Jacarepaguá:

Acabo de ler no portal de notícias UOL: Álbum do dia — Polícia ambiental apreende mais de 300 tartarugas do tipo quelônio, no Amazonas.

‘Bolas!’, encasquetei. E toda tartaruga não é um quelônio? É o mesmo que anunciar a apreensão de cavalos ‘do tipo eqüino’ ou porcos ‘do tipo suíno’.

Fui pesquisar e caí no ‘Wikipedia’ em português. De Portugal! Li com justificadas reservas e desconfianças, em meio a lembranças de velhas piadas. Mas, por preguiça de aprofundar a pesquisa, confiei no saber dos patrícios.

‘Os quelônios são répteis da ordem Testudinata (Chelonioidea). O grupo tem cerca de 300 espécies de tartarugas (no sentido estrito) e cágados (…)’.

Nada sei sobre ciências naturais, mas sei que o redator é ‘do tipo estranho’, a espera de classificação por pesquisadores do porte de um Janistraquis.

Janistraquis também é lulóide em ciências naturais, ó Henrique, e encaminhou a questão a um famoso e discretíssimo professor da USP.

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Tragédia da Manchete

O considerado Roberto Muggiati, jornalista profissional há 54 anos, 22 dos quais como editor-chefe da revista Manchete, escreveu na Folha de S. Paulo um precioso artigo que conta os detalhes da derrocada da empresa Bloch Editores e a tragédia que atinge os ex-funcionários, desde o pedido de falência em 1º de agosto de 2000.

Se o considerado leitor não conhece o libelo, visite o Blogstraquis.

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Roubam de tudo!!!

O considerado Marcio Beck, editor do tradicionalíssimo Jornal do Commercio (RJ), recebeu esta mensagem:

De: Ascom Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro [mailto:ascompcerj@gmail.com]

Enviada em: Saturday, July 26, 2008 7:48 PM

Assunto: AVISO DE PAUTA -APRESENTAÇÃO DE QUADRILHA QUE ROBOU DUAS JOALHERIAS EM SHOPPING

Marcio achou graça, mas depois refletiu:

Essa criminalidade do Rio de Janeiro anda um absurdo mesmo, ninguém agüenta! A bandidagem está aliviando até vogal de release da assessoria da ‘Puliça Sivil’…

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Coisa de galinha

O considerado Jayme Barcelos Moura, ‘humilde estudante’ em Salvador, como se auto-define, despacha de seu latíbulo na cidade baixa:

‘Leio e ouço que o crime daquele tal de Muhammad, que matou e esquartejou a namoradinha inglesa, porque ela teria ameaçado denunciá-lo como traficante de drogas, ‘chocou o país’. Será que chocou mesmo ou isso é fricote de politicamente correto que deseja combater a violência apenas com manifestações e rezas? Um país que convive com crimes hediondos a cada dia; que está nas mãos de bandidos e policiais-bandidos pode se chocar com alguma coisa?’.

Você tem razão, ó humilde estudante; Janistraquis também tem, quando diz que chocar é coisa de galinha.

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Afaga e apedreja

Janistraquis me confessou que a paixão pelo Vasco da Gama lhe traz à memória, sempre e sempre, aquele célebre verso de Augusto dos Anjos: a mão que afaga é a mesma que apedreja.

‘Em noite gloriosa, o time dá de 6 a 1 no Atlético Mineiro, depois de perder de 5 do Santos; aí, foi ao Morumbi e tomou de 4; e já perdeu de 7 do Atlético Paranaense, na estréia dessa arrogância chamada Renato Gaúcho como nosso técnico; certa vez, ganhava do Figueirense por 3 a 0 e deixou o adversário empatar; ocorreu coisa parecida contra o Fluminense, quando os caras também empataram a partida que perdiam por 3 a 1. E ontem foi derrotado pelo Coritiba por 2 a 0, em São Januário!!! O Vasco é assim, que se há de fazer? Um dia afaga, no outro apedreja o torcedor.’

O desalento janistraquiano multiplica-se quando escuta a imprensa dita esportiva festejar a estréia ‘espetacular’ do artilheiro André Lima no São Paulo, com dois gols marcados em impedimento, naquele jogo contra o Vasco; e tem-se o descaramento de absolver o bandeirinha incompetente sob a alegação de que o lance ‘era difícil’…

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Nota dez

O considerado José Roberto Guzzo escreveu em sua coluna de Veja:

Quando começam a ser ouvidas quase todo dia palavras que ninguém ouvia antes, é bom prestar atenção – estão criando confusão na língua portuguesa e raramente isso resulta em alguma coisa boa(…)

(…)O ministro Tarso Genro, da Justiça, parece ser o praticante mais entusiasmado desse tipo de linguagem entre as autoridades do governo. Poucas coisas, hoje em dia, são tão difíceis quanto pegar o ministro Genro falando naquilo que antigamente se chamava ‘português claro’. Ele já falou em ‘referência fundante’, ‘foco territorial etário’, ‘escuta social orgânica articulada’, entre outras coisas igualmente alarmantes.

Leia no Blogstraquis a íntegra desse texto tão indispensável como a revista que o publica.

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Errei, sim!

SUTIL OPOSiÇÃO — Janistraquis se chegou, intrigado:

– Considerado, já conhece esta nova revista de oposição ao governo, chamada Principal?

– De oposição? Por que oposição?, indaguei, prenhe de curiosidade.

Meu secretário leu, então, em voz empostada, como se estivesse no palco, título de nota da seção Para Ver:

ELIAS ANDREATO REVIVE PROCÓPIO CARDOSO.

– Está vendo, considerado? Chamam o falecido ator Procópio Ferreira de Procópio Cardoso!!!

– Mas isso deve ter sido um simples erro de digitação, ponderei.

– Nada, considerado. O título é forma sutil de nos dizer que o presidente Fernando Henrique, que é Cardoso, não passa de um grande ator…

Faz algum sentido. (fevereiro de 1996)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP), ou japi.coluna@gmail.com.

(*) Paraibano, 65 anos de idade e 46 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou, entre outros, no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu nove livros (dos quais três romances) e o mais recente é a seleção de crônicas intitulada ‘Carta a Uma Paixão Definitiva’.’

 

TELEVISÃO
Antonio Brasil

Você quer ser apresentador de telejornal?, 5/08

‘Mesmo em tempos de crise no jornalismo de TV, muitos jovens ainda sonham em programas de TV ou telejornais. Querem ser os próximos William Bonner ou Fátima Bernades. Para isso, nada melhor do que ouvir as dicas de jornalistas e dos fonoaudiólogos, os profissionais da fala.

Nos primeiros anos da TV, o apresentador era somente um locutor da notícia – não interferia em seu conteúdo e não participava da produção do telejornal.

Isso no Brasil, onde grande parte dos apresentadores veio do rádio. Eles adaptaram um estilo de narrar as notícias de forma bem parecida com a narrativa dos jornais radiofônicos. Ou seja, um estilo com muita ênfase em certas palavras, bastante dramático.

Nos EUA e Inglaterra, os apresentadores geralmente tinham experiência com teatro ou cinema. No modelo norte-americano esses profissionais atuaram em forma mais participativa nos primeiros telejornais. Cria-se o termo ‘anchorman’, um apresentador que atua como editor-chefe e tem um noticiário mais crítico, mais aberto a sua opinião e direção.

São os telejornais que ganham a confiança do espectador pela própria figura do apresentador – apresentadores como Edward Murrow e Walter Cronkite, ambos da rede CBS, tornam-se as pessoas mais confiáveis dos EUA.

Este é provavelmente o apogeu do jornalismo de TV.

Pronto-socorro da Voz

No Brasil, a apresentação de telejornal passou por várias mudanças. O primeiro momento, onde os apresentadores geralmente não eram jornalistas, mas tinham uma bela voz e narravam a notícia; o surgimento de noticiários mais críticos, mas que perderam espaço com a censura durante a ditadura – dando espaço para profissionais mais novos e inexperientes, porém com uma aparência atraente e simpática; e com a abertura política, o surgimento de apresentadores como âncoras – necessariamente jornalistas – capazes de improvisar, entrevistar ao vivo, tornar o noticiário mais dinâmico.

Muitas características são comuns a esse profissional, mas a mais marcante e que necessita de um cuidado especial é a voz, a capacidade do apresentador de tornar uma frase mais enfática e saber qual a frase correta, qual a melhor impostação, o que deve ser desenvolvido para um melhor aproveitamento vocal.

Diante da mudança tecnológica e dos jornalistas aparecerem mais diante das câmeras, foi necessário preparar essa equipe para uma melhor produção textual, impostação de voz e capacidade de improvisar.

A TV Globo contrata na década de 1970 a fonoaudióloga Gloria Beuttenmüller para treinar repórteres, com o objetivo de tornar a fala deles mais natural.

Ficou nacionalmente conhecida como a ‘moderadora da fala do jornalismo brasileiro’. Trabalhou anos na Rede Globo como fonoaudióloga, uniformizando o modo de falar dos jornalistas da empresa, que eram provenientes de várias regiões do Brasil. Além do jornalismo, com seu conhecimento de teatro e da arte da fala, ela sempre foi a fada-madrinha de artistas e cantores, que a procuravam para ‘aprender a usar a voz’.

Criadora do método Espaço Direcional Beuttenmüller para problemas da voz e fala, Glorinha é uma das maiores especialistas no Brasil em técnicas de comunicação e impostação vocal.

O grande ator Ítalo Rossi lhe deu o apelido de ‘pronto-socorro da voz’. Uma frase de suas frases ficou célebre: ‘Para apresentar televisão, precisa-se sentir o cóccix’.

Atualmente Glória trabalha com o preparo vocal de políticos e sua filha Vânia Beuttenmüller assumiu a posição de fonoaudióloga de jornalistas.

Alma, informação e falar com o corpo inteiro

Em entrevista para o Comunique-se, com a colaboração da nossa colega Carina Itaborahy, Vânia esclarece algumas dúvidas sobre a apresentação de programas de TV e de telejornais.

– Como fonoaudióloga, o que a motivou a trabalhar no preparo de jornalistas?

Fui convidada por uma emissora de televisão a fim de dar uma certa simplicidade na maneira de falar porque muitos repórteres e apresentadores vinham com vícios de rádio, e rádio é só audição e o falar é enfático, sobressaindo advérbios e adjetivos, e na televisão é intimidade, nada pode ultrapassar a imagem e sim ser de acordo com ela. A fala deve ser clara e direta, sem exageros.

– O que seria essa intimidade da televisão? A presença da imagem do apresentador?

Exatamente, já que no rádio é só audição. Digo intimidade porque o apresentador – ou quem está no vídeo – entra na casa do telespectador sem pedir licença. É importante lembrar que deve haver respeito nessa entrada, notado pela aparência (barba feita e maquiagem sem exageros), pelas roupas e mesmo pela fala correta e clara.

– Em relação ao apresentador de telejornal, na sua opinião, quais são os requisitos básicos para esse profissional?

Simpatia, firmeza e convicção ao passar a notícia com imparcialidade. Uma postura sem rigidez, pois falamos com o corpo inteiro, mesmo que só esteja sendo focalizado em close.

– Para um estudante de jornalismo que se interessa em telejornal, a senhora acha importante que já se consulte com um fonoaudiólogo?

Sim. Se vamos ser um profissional de voz, antes de mais nada devemos saber como está o nosso aparelho fonador e quais os defeitos de articulação e vícios de pronúncia que podem ser resolvidos através de exercícios específicos.

– Quais são os problemas mais freqüentes dos profissionais que a procuram?

De voz: rouquidão e nasalação. E de fala: omissões de fonemas, acréscimos, velocidade e ritmo.

– Quanto tempo, em média, demora o tratamento fonoaudiológico?

Isto depende do interesse e da sensibilidade de cada um, assim como do seu ouvido fonético.

– O teleprompter (equipamento acoplado à câmera para auxílio na leitura de textos) é um avanço para o apresentador de telejornal, mas pode ser um martírio caso o texto acelere ou trave. Neste caso o improviso torna-se essencial. A senhora daria uma dica para desenvolver um ritmo uniforme de leitura e capacidade de improvisar?

É importante que o apresentador coordene seu ritmo interno com o ritmo externo da notícia. Na grande maioria das vezes (salvo casos de notícias de última hora), ele já está familiarizado com o texto que irá ler. E este texto já deve estar memorizado – nunca decorado. E o que comando o ritmo externo é o teor e o conteúdo da notícia. Esporte é mais descontraído e dinâmico, política pede um tom mais sério, por exemplo.

– Na década de 1970, sua mãe, Gloria Beuttemüller, foi contratada pela TV Globo para treinar repórteres para um melhor aproveitamento diante das câmeras. Agora, anos depois, a senhora trabalha com jornalistas. O que mudou daquela época para agora em relação aos apresentadores?

A maior mudança podemos perceber pelos avanços tecnológicos, não no ser humano. Este continua sensível e cheio de emoções, sendo influenciado pelos temas abordados e pelo conteúdo do programa ou jornal. Mas como as mudanças ao redor são constantes, é importante que os profissionais estejam atualizados e abertos a novidades que terão que acompanhar, eles não devem parar no tempo e no espaço.

– Eles estão mais bem preparados ou possuem vícios de linguagem mais aparentes?

Alguns estão, mas o que percebo é que muitos fazem a tônica errada nas palavras, acreditando que estão dando ênfase. Exemplifico: quando uma frase começa com imediatamente, eles reforçam erradamente a primeira sílaba, quando, na verdade, a tônica está em ‘mem’. Outra observação que faço é a dificuldade em situar as notícias no tempo e no espaço corretos. As nuances necessárias para diferenciar passado, presente e futuro.

E para complementar esta entrevista, nada como a dica definitiva da decana dos telejornais brasileiros, Alice Maria: ‘No jornalismo, beleza não é fundamental. O que é preciso é ser forte, ter carisma, ter alma. Alma e muita informação…’

Tudo a ver!

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a ‘Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais’. Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’, ‘O Poder das Imagens’ da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado ‘Antimanual de Jornalismo e Comunicação’ pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

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O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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