Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE IRON MAIDEN

Conselheiro, ‘The Trooper’ brasileiro

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 26/05/2015 na edição 852

No baú da memória, encontram-se momentos inesquecíveis. Por exemplo, fui à loucura com o show do Iron Maiden no Rock in Rio, em 2001. Acompanhei in loco a apresentação da banda britânica, formada em 1975. O tempo todo, fico empolgado com o som dos caras. Heavy metal de primeira. Descubro em mim uma “saúde de vaca leiteira”: pulo sem parar, no embalo de Bruce Dickinson e companhia. O repertório do grupo me fascina, mas tem uma canção que me arrepia dos pés à cabeça especialmente. Trata-se de The Trooper (O Cavaleiro). Integrante do fabuloso álbum “Piece of Mind”, de 1983, a música foi composta pelo baixista Steve Harris. A voz de Dickinson confere à canção uma interpretação apoteótica. De maneira performática, o vocalista do Iron Maiden, vestindo uma farda do exército britânico, segura a bandeira do Reino Unido, em homenagem ao heroísmo do cavaleiro inglês que, mesmo diante da desvantagem frente ao exército russo, foi à luta com a cara e com a coragem. O contexto histórico recuperado na canção se refere à Guerra da Crimeia (1853-1856), conflito travado entre a Inglaterra e a Rússia, em busca de maior influência na região dos Bálcãs.

A abertura da mencionada canção retrata a autoconfiança demonstrada pelo combatente inglês, isto é, a segurança de que ele faria o seu melhor na defesa de si e da armada britânica. A derrota para os russos era esperada, pois eles estavam em maioria e apresentavam melhor estrutura armada. Porém, o cavaleiro inglês, de cabeça erguida, foi ao combate, convicto de que a verdadeira derrota consistiria em entregar os pontos para o adversário. Não era só uma questão de vaidade, mas também de autoestima, principalmente: You’ll take my life but I’ll take yours too//You’ll fire your musket but I’ll run you through//So when you’re waiting for the next attack//You’d better stand there’s no turning back”. Traduzindo: “Você tomará a minha vida, mas eu tomarei a sua também//Você irá disparar seu mosquete, mas eu irei trespassá-lo//Então quando você estiver esperando pelo próximo ataque//Melhor ficar firme, não existe maneira de voltar”. Como se trata de um cenário dominado pela barbárie praticada de lado a lado, “on this battlefield no one wins”, isto é, “neste campo de batalha ninguém vence”. Trata-se de uma grande crítica dirigida à cultura bélica que assola a humanidade.

A morte certa não impediu que o cavaleiro prosseguisse em luta, defendendo orgulhosamente o seu ideal de mundo. A missão pode ser impossível, mas a omissão é inaceitável para quem tem brio e coragem. The Trooper tem o mérito dialético de propor um cruzamento de reflexões entre a ética do guerreiro e a ética do revolucionário. A honra está em jogo. Nesse sentido, temos, na canção, o seguinte desfecho de resistência: “And as I lay there gazing at the sky//My body’s numb and my throat is dry//And as I lay forgotten and alone//Without a tear I draw my parting groan”. Ou seja: “E enquanto eu jazo contemplando o céu//Meu corpo está anestesiado e minha garganta seca//E enquanto eu jazo esquecido e sozinho//Sem uma lágrima, exalo meu gemido de partida”.

A cabeça de Conselheiro foi levada como “troféu”

No Brasil, Antônio Conselheiro (18301897) foi The Trooper, de maneira sofisticada, ao liderar o arraial baiano de Canudos, formado por camponeses, índios e escravizados recém-libertos. O grupo reivindicava reforma agrária e melhores condições de vida para o enfrentamento das secas cíclicas e do desemprego crônico que os castigavam. Líder religioso e carismático, Conselheiro também se destacou como notável referência política e gestor administrativo. Incomodados com a consistência revolucionária daquele movimento social, a Igreja Católica e os grandes fazendeiros apelaram para o governo republicano, exigindo providências enérgicas. Logo, correram boatos de que Antônio Conselheiro e seus acompanhantes atacavam cidades e tinham como objetivo derrubar a República, reinstalando, assim, a Monarquia.

Salientou o jornalista Machado de Assis, em crônica publicada na Gazeta de Notícias, de 31/01/1897, que o líder de Canudos era tachado de “fanático”, “salteador”, “inimigo número um da República”. Quanto a isso, Machado se posicionou incisivamente: “Protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro”. Denunciou também que “nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos”, reivindicando o envio, para a região do semi-árido baiano, de “um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes”, e que pudesse construir, assim, a “verdade inteira” sobre os fatos.

Preferiu-se, infelizmente, escutar um só lado da história. Convocado, o exército brasileiro amargou três derrotas para o grupo de Antônio Conselheiro, o que deixou a opinião pública hegemônica revoltada. Na quarta expedição militar, houve a destruição total do arraial, com o massacre de 25 mil a 30 mil sertanejos. Entre os soldados, o total de baixas chegou a 5 mil. De forma bárbara, lembrando os tempos do macabro medievalismo, a cabeça de Antônio Conselheiro foi levada como “troféu” do Exército para Salvador, simbolizando o fim da Guerra de Canudos, que durou de 1896 a 1897.

Assim como o cavaleiro inglês não se apequenou frente ao gigantismo do exército russo que o exterminou, Antonio Conselheiro e seus adeptos resistiram bravamente aos ataques do exército brasileiro que, por ter um contingente pessoal e armantetista maior, foi reconhecido como vitorioso. É neste sentido que faço a aproximação entre a canção de Iron Maiden e a história do líder sertanejo e seus colaboradores.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

 

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