Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > TRAGÉDIA DO HAITI

Contato com violência aumenta risco de distúrbios mentais

Por João Paulo Charleaux em 26/01/2010 na edição 574

Além dos haitianos que viveram o terremoto do dia 12/01, trabalhadores humanitários e jornalistas que chegaram depois à cena da catástrofe também podem ser afetados pelos efeitos do transtorno pós-traumático. Dores de cabeça, problemas gástricos, irritação, insônia, falta de apetite, ansiedade e tristeza profunda estão entre os sintomas mais comuns e podem se manifestar muito tempo depois da experiência traumática ser vivida.

‘O contato com a violência, com os saques e com os corpos que emergem dos escombros aumentam a chance de a pessoa desenvolver algum distúrbio mental’, disse ao Estado o chefe do serviço de psiquiatria dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), Renato Souza.

A ocorrência de réplicas do terremoto, como a registrada ontem (22/01) no Haiti, também é apontada como um dos maiores fatores de stress para as pessoas envolvidas no desastre. Segundo Souza, pessoas que trabalham ou foram afetadas por um desastre natural procuram os serviços de saúde queixando-se apenas dos sintomas. Quando médicos de agências humanitárias, acostumados a lidar com catástrofes, conversam com os pacientes, os relatos das experiências traumáticas começam a aflorar.

Até leitores podem ser afetados

No início da crise, até poucas horas depois do abalo, são comuns os ‘tremores, crises de ansiedade, desespero e uma tristeza profunda’ nas vítimas, segundo Souza, que trabalhou no tsunami que arrasou o Sudeste asiático em 2004 e o terremoto ocorrido no Paquistão em 2005. Para minimizar os efeitos psicológicos negativos, organizações humanitárias, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) obrigam seus funcionários internacionais a permanecerem por no máximo um ano numa missão considerada altamente operacional. Depois disso, o empregado mantém-se afastado por três meses. Nos últimos anos, a organização também criou uma unidade responsável por cuidar dos casos de stress entre seus funcionários. A medida mais recomendada é a simples conversa entre os colegas, em que todos possam contar o que viveram no dia.

Ao contrário da maioria das pessoas, os repórteres viajam aos locais dos desastres para ver cenas que muitos tentam evitar. O transtorno pós-traumático afeta mais de um quarto dos jornalistas, de acordo com a International Safety Institute (Insi), um conglomerado de organizações de jornalistas dedicado a aumentar a segurança destes profissionais em contextos de violência e de desastres naturais. Entre as causas que contribuem para um diagnóstico tardio deste distúrbio está a ‘cultura machista’ das redações jornalísticas e a crença de que estes profissionais ‘podem resolver seus problemas sozinhos’.

Os casos envolvendo jornalistas e distúrbios mentais são tão comuns que a Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia fundou um grupo para tratar especificamente do assunto, o Centro Dart para Jornalismo e Trauma, que publica artigos, recomendações e debates na internet.

Para o professor de Psicologia Julio Peres, da Faculdade de Medicina da USP, até mesmo os leitores que acompanham a cobertura de desastres podem ser afetados. ‘Ver imagens de vulnerabilidade e desamparo pode desencadear associações com fatos ocorridos na vida do próprio leitor. E isso pode ser suficiente para desencadear sintomas como pesadelos, úlcera, gastrite, enxaquecas e depressão.’

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Jornalista

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