Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Copa de 78: a investigação que ainda não terminou

Por Lilia Diniz em 22/10/2008 na edição 508

Há 30 anos, a Argentina vencia sua primeira Copa do Mundo. Em meio à mais sangrenta ditadura da América Latina, comandada pelo general Videla, milhares de argentinos comemoravam no estádio e nas ruas a conquista do título. O campeonato foi um dos mais controversos da história dos Mundiais. A Argentina sediava a competição e corriam rumores de que o evento servira para esconder violações aos Direitos Humanos e vender a imagem de um país estável politicamente.


A edição especial do Observatório da Imprensa exibida na terça-feira (21/10) pela TV Brasil e pela TV Cultura mostrou como, três décadas após a vitória argentina, jornalistas revolveram o episódio para ressaltar que esta história ainda não teve um ponto final. Em Buenos Aires, o jornalista Alberto Dines gravou entrevistas com alguns dos pesquisadores do assunto: o jornalista argentino Ricardo Gotta, autor do livro Fuimos Campeones; Christian Rémoli, diretor do documentário Mundial 78. Verdad o mentira; os jornalistas Ezequiel Fernandes Moores e Horácio Verbitsky; e Ricardo Roa, um dos fundadores do jornal esportivo Olé.


Paixão e manipulação


Dines comentou que a competição era perfeita para o regime militar. Ricardo Roa explicou que o governo trabalhou para que a Copa ‘pudesse ser disputada como se disputou’, com aparatos de segurança minuciosos que incluíam desaparecimentos e prisões. Havia uma ‘exploração populista demagógica da Copa’. A idéia era mostrar que as críticas não eram direcionadas ao governo, mas sim à Argentina. ‘Era a famosa época em que queriam combinar as coisas’, lembra.


Para o jornalista Horácio Verbitsky, o futebol, durante o Mundial de 78, foi uma exaltação nacionalista. Houve manipulação da informação e a imprensa colaborou para formar o clima ufanista. ‘O governo planejava o Mundial de Futebol para limpar a cara da ditadura. Além do mais, o governo usou o Mundial para rechaçar as denúncias sobre violação dos Direitos Humanos’, avaliou.


Verbitsky contou que um dos momentos mais vergonhosos da história do país ocorreu em 1979, quando a final do Mundial Juvenil coincidiu com uma visita da Organização dos Estados Americanos (OEA) a Buenos Aires para investigar o desaparecimento de opositores do governo. Na ocasião, uma rádio, estimulada pelo governo, conclamou a sociedade a mobilizar-se para festejar a conquista. Ao passar por onde estavam os representantes da OEA, repudiaram os familiares das vítimas. ‘Um comportamento vergonhoso, realmente’, lamentou.


Esporte e poder, para Ezequiel Fernandez, não conseguiriam ser independentes porque o esporte é uma paixão popular. ‘Toda paixão popular é objeto de manipulação do poder’, afirmou, lembrando que, ao longo da história, outros eventos esportivos também foram objeto de manipulação política. Nas Olimpíadas gregas, os vencedores eram premiados e homenageados. Hitler usou os Jogos Olímpicos de 1936 para mostrar ao mundo a imagem de uma nação pura e superior. Na década de 1980, durante a Guerra Fria, os blocos socialista e capitalista boicotaram as Olimpíadas alternadamente.


‘Eu gosto sempre de dizer que aquele que diz que futebol e política não têm nada a ver ou não entende nada de futebol ou não entende nada de política’, disse Cristian Rémoli. Com o tempo, o que permaneceria na memória coletiva sobre os grandes eventos esportivos seria o ambiente político do período. Rémoli acredita que, daqui a algumas décadas, apenas o nome do técnico e do principal jogador da seleção argentina serão lembrados. ‘O que todo mundo vai falar é do terrorismo de Estado’, afirmou.


Uma partida polêmica


Para chegar à decisão, a Argentina precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença. Apesar de ter um bom time e jogar em casa, o resultado era improvável. Ao final do jogo, o placar marcava 6×0 para o time da casa. Pouco antes da partida, o general Videla e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger visitaram o vestiário do time peruano.


O Observatório exibiu um trecho do documentário de Christian Rémoli no qual o ex-jogador peruano José Velásquez conta as impressões que a visita ao vestiário causou: ‘A nós pareceu muito estranho que o presidente de um país vá pessoalmente nos desejar sorte. Algo estranho’. Ricardo Gotta disse que a presença de Kissinger no vestiário pouco antes da partida fazia parte de uma grande operação para ‘marcar o ânimo dos jogadores peruanos’ e ajudar a Argentina a passar para a final. Henry Kissinger já não era o secretário de Estado dos EUA, mas continuava uma pessoa influente – foi um dos ideólogos do Plano Condor, uma rede de troca de informações sobre movimentos de esquerda de países do Cone Sul.


Para Ezequiel Fernandes, o placar de 6×0 não era impossível. Mas, ao rever a partida, percebe-se que, em alguns momentos, os defensores peruanos posicionavam-se a metros de distância dos rivais. Horácio Verbitsky disse que a vitória sobre o Peru faz parte do futebol. Em tom de brincadeira, questionou, ‘O Brasil nunca ganhou uma partida por 6×0?’.


Em outro trecho do documentário de Christian Rémoli exibido no programa, Velásquez faz uma revelação: em um encontro meses após a final, o jogador argentino Daniel Ortiz teria confessado que o time da casa foi dopado antes da partida. Segundo Rémoli, o jogador argentino confirmou a denúncia. ‘Ortiz respondeu que era verdade, que haviam jogado dopados pela boca, pelo braço e pela nádega. E nós perguntamos a Ortiz, de maneira geral, se era verdade sobre [as suspeitas de] suborno e doping. Ele nos respondeu que em todos os Mundiais há duas coisas que geram outras duas coisas: que há dinheiro e drogas e que, portanto, há doping e suborno’.


Lição


Para Rémoli, o episódio foi uma lição de jornalismo. Velásquez disse ao documentarista que nunca tinha contado a nenhum jornalista sobre o doping porque ninguém o havia questionado. ‘Não que ele tenha contado para mim porque tenha simpatizado comigo, mas porque me ocorreu perguntá-lo. A fórmula é essa, porque não há mais documentos. A Junta Militar desapareceu com todos os documentos. Não há provas, só testemunhos pessoais. E testemunhos se conseguem perguntando sem vergonha. E com a vontade das pessoas para que contem a verdade’, analisou.


Ezequiel Fernandes trabalhava no periódico argentino La Prensa em 1978. Na época, considerou suspeito o resultado do jogo. ‘Os jogadores peruanos com quem falei me sugeriram, com indícios claros, que havia companheiros deles que receberam dinheiro para este 6×0. Não me parece surpreendente. Houve outras partidas em Mundiais anteriores, não foi a primeira vez e a Fifa nunca investigou nada’, criticou. O governo tinha um claro interesse na conquista do título, na opinião de Ricardo Gotta. ‘Se eram capazes de torturar, de matar, de jogar gente no mar, de torturar mulheres grávidas, eram capazes de arranjar um resultado para a ditadura. Para o governo, era muito importante chegar à final’, argumentou.


‘A suspeita de manipulação é maior fora da Argentina’, observou Ricardo Roa. Para o jornalista, não houve uma conspiração para favorecer os donos da casa. ‘Normalmente, o resultado como o que tivemos contra o Peru sempre levanta suspeitas. Isto aconteceu conosco e pode acontecer com outras equipes. Não creio nas teorias conspiratórias, não porque não existam as conspirações. As conspirações existem, mas eu não acredito’. Roa contou que não assistia às partidas e não festejava as conquistas porque tinha consciência dos problemas pelos quais o país passava.


O jornalista Ezequiel Fernandes relembrou que, em 1982, trabalhava para a Rádio Continental e investigou o tema. A ditadura militar ainda governava o país. ‘Foi curioso. Foi muito fácil começar a criticar aquele Mundial, mas não se podia criticar a imprensa. A imprensa não queria ver a si mesma, porque a imprensa acompanhou a festa dos militares’, avaliou.


Dines comentou que no livro Fuimos Campeones o jornalista Ricardo Gotta analisa a partida a fundo ‘antes, durante e depois da bola rolar’. Há várias investigações sobre o tema, mas nenhuma focou especificamente no jogo. ‘Eu, a princípio, pensei em investigar tudo a partir desta partida contra o Peru. O tema se excedeu. O tema é muito mais que isso. Esta partida é uma dentro de um Mundial muito particular, em um país muito particular, onde havia uma ditadura sangrenta. A pior ditadura da história argentina. Foi um tema que me fez estudar não só o aspecto esportivo, como também o social’


Trinta anos depois, uma outra final


A Argentina venceu o último jogo da Copa de 78 com dois gols marcados na prorrogação. O time holandês, derrotado, assistiu à enorme festa que tomou conta do estádio. Por momentos, esquecia-se a violenta ditadura que dominava o país. Dines disse que engana-se quem pensa que o passado argentino está sepultado. Há quatro meses, no mesmo estádio do último jogo daquele Mundial, foi realizada uma partida que ficou conhecida como La Otra Final. ‘Mães da Praça de Maio fizeram uma caminhada desde a Escola de Mecânica da Armada, centro de tortura da ditadura, até o Monumental de Nuñez. Lá, se encontraram com alguns campeões de 78 e houve uma partida comemorativa, desta vez sem os militares. Nas arquibancadas, as fotos dos milhares de desaparecidos e uma lembrança de que, naquele dia, todos estavam ali, presentes’, contou.


Segundo Dines, futebol também é história e história não tem ponto final. ‘Basta lembrar e a história se solta, continua. Esta é a função da imprensa: lembrar, não aceitar o placar nem o desfecho oficial. O futebol argentino é um dos melhores do mundo, a imprensa argentina também. Por isso, a Copa de 1978, por enquanto, é uma Copa que ninguém ganhou’, observou.


 



***


A partida sem ponto final


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV nº 483, no ar em 21/10/2008


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Uma partida de futebol tem placar, tem tempo regulamentar, tem apito encerrando o jogo. Mas futebol também é história e história não tem ponto final. Basta lembrar e a história se solta, continua.


Esta é a função da imprensa: lembrar, não aceitar o placar nem o desfecho oficial.


O futebol argentino é um dos melhores do mundo, a imprensa argentina também. Por isso a Copa de 1978 por enquanto é uma Copa que ninguém ganhou.

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