Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & ÉTICA

Credibilidade e responsabilidade da imprensa

Por Jorge Fernando dos Santos em 24/06/2008 na edição 491

A questão ética perpassa, sobretudo, a questão da verdade. Mas, afinal, o que é a verdade? Existe uma verdade absoluta ou diferentes pontos de vista sobre determinado assunto? Essa talvez seja de fato a grande questão.

Ética vem do grego: ethiké. Segundo os dicionários, trata-se da parte da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana. Ética é também o conjunto de princípios morais que regem o exercício profissional. Nesse sentido, podemos entender a ética como um pacto de princípios entre aqueles que exercem uma profissão, tendo como principais objetivos o respeito mútuo e a satisfação plena dos clientes.

A questão ética é tão polêmica que determinadas profissões têm conselhos organizados que estabelecem normas e fiscalizam o exercício profissional. É o caso dos médicos, por exemplo, que estão subordinados às determinações e à orientação dos Conselhos Regionais de Medicina. Ou dos juristas, que são normatizados pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Direito de escolha

No entanto, a maioria das profissões não alcançou o mesmo requinte e seus profissionais são regidos pelo bom senso, pelos valores morais e, em casos extremos, pela Justiça comum. É o caso do jornalismo, que atua sob as normas estabelecidas pela Lei de Imprensa, mas que ainda não tem um órgão supremo de representação do ponto de vista normativo. Os sindicatos e a Federação Nacional da categoria (Fenaj) cuidam mais dos direitos e deveres do que propriamente do exercício da profissão. No entanto, conseguiram elaborar um código de ética que vigora há mais de duas décadas e tem sido reavaliado periodicamente, seguindo a própria evolução do processo democrático no país.

As discussões em torno da modernização e atualização desse código têm gerado polêmicas. Uma delas foi a recente tentativa de se ressuscitar a censura aos profissionais de comunicação e imprensa. A iniciativa partiu do governo Lula, em seu primeiro mandado, mas felizmente foi frustrada a tempo. Num país que já sofreu com duas prolongadas ditaduras, a do Estado Novo de Getúlio Vargas (entre 1937 e 1945) e a dos militares (de 1964 a 1989), falar em censura seria o mesmo que falar de corda em casa de enforcado. Ainda mais com tal iniciativa partindo de um governo que deve tudo à vitória das lutas democráticas no país.

Ainda que devamos – por princípio – rechaçar qualquer tentativa de ressuscitar a censura ou de cercear a liberdade de expressão, parece natural que muitas vezes a sociedade se sinta incomodada com abusos praticados pela mídia. A meu ver, o problema é que existe público para todo tipo de informação e esse público tem o direito de escolha.

Supostamente científicos

Na era pós-industrial em que vivemos, com o fim do equilíbrio hegemônico entre duas superpotências e com o predomínio da chamada globalização, cresce a responsabilidade dos indivíduos. Não cabe mais ao Estado, à igreja ou a qualquer outra instituição nos dizer o que é certo ou errado. Os princípios morais decorrem muito mais do caráter e da consciência das pessoas do que propriamente de imposições ideológicas ou religiosas.

Teoricamente, o jornalismo seria vítima de uma grande falácia, que é justamente a isenção frente à notícia. Como as escolas de jornalismo foram formalizadas durante o regime militar, criou-se o mito de que o jornalista deve ser absolutamente imparcial diante dos fatos, abstendo-se de expressar a própria opinião. No entanto, basta uma leitura mais atenta no noticiário para percebermos que isso é praticamente impossível. Por mais imparciais que sejamos, sempre tendemos a imprimir nossa opinião naquilo que escrevemos – ainda que subjetivamente.

O problema crucial da atualidade, a meu ver, é a espetacularização da notícia. Em busca de audiência, o jornalismo televisivo se deixa levar pelo sensacionalismo dos efeitos visuais e sonoros. Quanto mais escabrosa uma notícia, mais interesse ela desperta na audiência e os telejornais são tentados a insistir nos fatos. Vejam, por exemplo, a morte da menina Isabella Nardoni. O noticiário foi tão repetitivo e insistente que perdeu o efeito sobre a opinião pública. Parece já não mais interessar às pessoas se o pai e a madrasta são culpados ou inocentes, pois o que menos se viu nesse episódio foi investigação jornalística. O que nos parece é que as autoridades se limitaram aos resultados apresentados pelos peritos criminais, enquanto a imprensa, por sua vez, limitou-se a divulgar esses resultados supostamente científicos.

Apoio político explicitado

Entorpecidos pela concorrência televisiva, como um boxeador que recebe sucessivas pancadas na cabeça, os jornais incorrem no mesmo erro e pouco acrescentam ao noticiário da TV. Crimes e incidentes, como a morte da menina Isabella, sempre ocorreram e, pior, continuam ocorrendo todos os dias. Mas parece que a mídia sempre elege um fato para transformá-lo em espetáculo.

É como se a televisão, devido à sua própria natureza, se desse o direito de transformar a desgraça alheia num grande circo. Devemos levar em conta que a mesma telinha que nos mostra o noticiário também nos apresenta o filme de ação, a telenovela, o Big Brother Brasil, o entretenimento.

Os jornais e revistas, por sua vez, deveriam fazer o contraponto, indo atrás dos fatos relevantes que se escondem atrás da cortina de fumaça do showbiz. No entanto, em vez de praticar o chamado jornalismo investigativo e a análise dos fatos, na maioria das vezes apenas repetem o que a TV e a internet já nos mostraram. No caso Isabella, não sei de qualquer investigação paralela ao que consta do processo criminal montado pela polícia de São Paulo e apresentado pela promotoria pública.

No jornalismo, a meu ver, ética seria o estrito cumprimento do pacto que estabelecemos com nossos leitores. Toda vez que omitimos, escamoteamos ou ignoramos uma informação relevante, faltamos com a ética. Toda vez que nos rendemos a interesses políticos e econômicos, faltamos com a ética. Não há nada de errado quando um veículo de imprensa decide apoiar esse ou aquele político, desde que deixe isso bem claro para o seu público. O apoio deveria ser explicitado nos editoriais, e não nas entrelinhas da reportagem.

Transparência e objetividade

Toda vez que deixamos de noticiar determinado fato, ou não damos voz a todos os envolvidos, faltamos com a ética. Jornalistas e donos de jornais precisam entender que nossa missão é informar e prestar serviço aos leitores. Quando fazemos isso dignamente ajudamos a formar opinião e a melhorar o cidadão e a sociedade em que vivemos.

Numa aldeia global na qual não faltam meios de comunicação – hoje temos jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, internet, celulares e a milenar rede de boatos – tentar esconder ou manipular informações é cometer suicídio em médio prazo. O preço do não cumprimento do pacto que fizemos com os nossos clientes é o fracasso.

No auge do mensalão, a imprensa cumpriu a missão de investigar e denunciar os envolvidos. No entanto, não conseguiu evitar que muitos daqueles políticos fossem reeleitos logo em seguida. A meu ver, depois das últimas eleições, os donos dos meios de comunicação deveriam ter iniciado um amplo debate para descobrir onde foi que a imprensa errou – se é que errou.

Algo parecido ocorreu nos Estados Unidos. Logo após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, grande parte da imprensa se rendeu ao governo Bush, apoiando a invasão do Afeganistão e do Iraque. O resultado disso é a catástrofe econômica que se anuncia no país. E agora, como ficam os meios de comunicação? Por que não investigaram por conta própria e por que não alertaram a nação sobre o equívoco da guerra precipitada, que tem custado milhares de vidas e milhões de dólares? Talvez seja esse o principal motivo da perda de leitores enfrentada pela imprensa norte-americana e atribuída à concorrência da internet.

Somos éticos na imprensa quando buscamos informar com transparência e objetividade. Devemos ouvir mais e falar menos, analisar os fatos com mais racionalidade e menos paixão, deixando a conclusão final para os leitores e espectadores. Afinal, são eles os nossos verdadeiros clientes. Um leitor ou espectador que se sinta lesado pela informação incorreta deveria recorrer ao Procon ou à Justiça comum em busca de seus direitos de consumidor. Se uma sapataria vende sapatos e uma farmácia vende remédios, a imprensa vende informação e essa é talvez uma das mercadorias mais preciosas de que se tem notícia.

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Jornalista e escritor, autor do livro Como Escrever – Jornalismo, Literatura, Teatro e Cinema (Ed. Ciência Moderna)

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